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Edição 1995

14 de fevereiro de 2007
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Com lenço, sem documento

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O gesto mais comum entre as mulheres iranianas é aquele de arrumar o lenço que, segundo a religião, precisa encobrir seu cabelo. É um gesto mecânico. Mulheres mais velhas talvez o façam por convicção. As jovens, ao menos nas grandes cidades, costumam ter uma relação manhosa com essa peça de vestuário. Elas a usam em ângulos mais generosos, capazes de revelar mechas e franjas. Mas todas se impõem inconscientemente um limite, a partir do qual é preciso ajustá-lo. Em uma célebre entrevista com o aiatolá Khomeini, a jornalista italiana Oriana Fallaci chamou o lenço de "estúpido trapo medieval". Ele é o símbolo onipresente das limitações a que as mulheres são submetidas no islamismo. "Como imposição, o lenço é um incômodo. Mas é possível conviver com ele", disse a VEJA Shirin Ebadi, ativista dos direitos humanos, ganhadora do Nobel da Paz em 2003. "O problema é que há coisas muito piores."

A discriminação contra as mulheres se manifesta de diversas formas no sistema legal iraniano. Elas valem, literalmente, a metade de um homem, no caso de um acidente que resulte no pagamento de indenização. Requerer um divórcio é quase vedado a elas, e nas poucas circunstâncias em que isso é aceito elas precisam abrir mão de direitos como o resgate do dote. O adultério e a prostituição são crimes passíveis de execução pelo apedrejamento. Fora do âmbito do direito civil, posições como a de juiz são vedadas às mulheres. Quando o ex-presidente Khatami tentou incorporar algumas delas ao seu gabinete de ministros, a elite clerical lhe impôs uma forte oposição.

Apesar disso, a luta pelos direitos amplos é vigorosa no Irã. Não são apenas personalidades como Shirin Ebadi que a levam adiante. Mesmo mulheres fiéis ao espírito da revolução islâmica clamam por reformas nesse campo. É o caso de Massoumeh Ebtekar, que usa não apenas lenço, mas xador (a túnica negra que encobre completamente o corpo feminino), e tem em seu currículo a participação na invasão da embaixada americana de Teerã, em 1979. Ou de Jamile Kadivar, igualmente adepta do traje religioso. "Khomeini respondeu às questões que me inquietavam na juventude", diz ela. Quando se trata de direitos femininos, porém, ela é uma reformista incondicional. "Queremos que nos vejam como iguais", afirma. Ela e seu marido, Moshen Kadivar, atravessaram juntos uma tempestade em anos recentes. Kadivar é um clérigo de convicções liberais no contexto iraniano, que foi submetido a uma violenta perseguição pública sob a acusação de que havia se envolvido com uma secretária. "Foi um processo sórdido, mas ele fortaleceu meu casamento e me fortaleceu como mulher", diz ela.

Vários campos de estudo são interditados às mulheres no Irã (enquanto apenas a ginecologia é interditada aos homens). Ainda assim, 64% das vagas universitárias são atualmente preenchidas por elas. Essas jovens, que chegam à idade adulta quase três décadas depois da subida dos aiatolás ao poder e encontram aberta a perspectiva de educação e trabalho, parecem determinadas a garantir que ao menos seu mundo privado não será descrito com a palavra khafegan (traduzível como "situação sufocante"). Elas usam e abusam dos blogs, ainda que apenas para expressar sentimentos. Não dispensam nada que incremente sua auto-estima. A cirurgia plástica do nariz é uma das mais populares no Irã. As academias de ginástica (com segregação de sexos, é óbvio) começam a se tornar uma moda contagiante. Os salões de cabeleireiro são intensamente freqüentados. Nas festas nas casas de amigos, livres do lenço afinal, elas exibem seu cabelo.

 

Os homens são os escravos

O aiatolá Mohammad Sajjadi é um expoente da ala liberal do clero iraniano. Ex-presidente do tribunal superior do país e atual consultor do chefe do judiciário, ele ganhou fama ao livrar da execução um intelectual processado por fazer críticas ao Islã. Com ironia, Sajjadi diz que não matar pessoas ajuda a manter a paz. "O fundamentalismo é perigoso", diz. Com as credenciais de quem apoiou a revolução na primeira hora, ele critica até o Líder Supremo Ali Khamenei. "Deveríamos negociar com os Estados Unidos. Mas aquele que está no poder discorda", afirma. Sajjadi vive em Qom, centro de estudos que é uma Harvard do islamismo. O personagem expressa os limites do liberalismo num contexto fundamentalista. Enquanto concedia entrevista a VEJA, sua mulher, Marian, permanecia sentada no chão. Ele só pediu que ela se sentasse a seu lado diante de uma pergunta sobre a questão feminina. "Marian é um exemplo de mulher: dirige o carro, cuida da casa e dá aulas", diz Sajjadi. "No Islã, os homens é que são escravos: têm de prover tudo a suas mulheres."

 

O poder do sexo

As jovens nesta foto exercem uma das atividades mais perigosas do Irã: a prostituição. Pela lei islâmica, esse é um crime punível com a morte por apedrejamento. Por isso, chegar até elas não foi simples. Requereu uma pesquisa com motoristas, empregados de hotel e de restaurantes. A mulher à esquerda fala inglês, tem diploma de psicologia e tornou-se prostituta quando seu marido foi preso. Hoje, é empresária do ramo – e incorporou o cinismo indispensável à atividade. "Decidi ser grande", diz ela, que oferece uma rede de 300 meninas, além de dois homens. "No Irã, a mulher não é ninguém. Mas sexo é poder. Posso obter qualquer coisa de um homem", gaba-se. Com ganhos de até 3.000 dólares por mês, ela já comprou casa e carro e quer abrir um salão de beleza. Só que a eleição do ultraconservador Ahmadinejad afetou os negócios. Diz ela: "Antes, recebíamos até políticos. Agora, os homens estão com medo. Durante os rituais do Ashura, o atendimento foi suspenso. Alguns clientes me abandonariam se trabalhasse nesse período".

 

A iraniana que ganhou o Nobel

No fim da tarde de 27 de janeiro, a advogada Shirin Ebadi aguardava em seu escritório as famílias de duas jovens que haviam sido presas por fazer campanha contra a discriminação da mulher no Irã. Instalado num prédio despojado em Teerã, o local não dá indícios do renome da ocupante – nem de que ela foi agraciada com mais de 1 milhão de dólares ao obter o Nobel da Paz, em 2003. Shirin foi premiada por sua luta pelos direitos das mulheres e das crianças. Sua trajetória expõe a difícil situação feminina no país. Primeira juíza a ocupar um cargo de chefia numa corte iraniana, Shirin foi destituída com a revolução de 1979. Resolveu então partir para o ativismo – com todos os riscos que isso implica. Chegou a ser presa política e já teve nas mãos um documento do governo que planejava seu assassinato. O Nobel não tornou as coisas mais fáceis. Ela continua a receber ameaças de morte. "Aprendi a esquecer os perigos. Minha família me dá apoio", diz. Para defender as vítimas do regime, ela tenta achar brechas na lei e invoca convenções internacionais. "O problema é que os tribunais nem sempre obedecem aos procedimentos legais", diz. Shirin pede mudanças na Constituição iraniana – um tema tabu. Gostaria de ver abolido o Conselho dos Guardiães, cuja principal incumbência é aprovar candidaturas eleitorais. Em 2005, mais de 1.000 políticos queriam concorrer a presidente. Só oito foram autorizados.

 

Estrela sob censura  

No Irã, os anúncios publicitários são um campo vedado às mulheres. A única exceção são as propagandas de filmes e programas de TV. Nenhuma face feminina é mais estampada nelas que a da belíssima Niki Karimi. Aos 35 anos, ela é a atriz mais celebrada do Irã. Além de estrelar dramas e comédias, é diretora. Iniciou-se no ofício como assistente – e amante, segundo as más-línguas – de Abbas Kiarostami, o mais conhecido cineasta iraniano. Herdou dele o gosto pelos planos longos e seqüências silenciosas, além de certa crítica social. O que, em seu país, é sinônimo de problema. Seus dois últimos trabalhos, já exibidos no exterior, só neste ano devem ser lançados no Irã. Motivo: o governo exigiu que fossem totalmente remontados. "É frustrante. Já vivo me autocensurando. E depois preciso deformar o filme", disse a VEJA no set de sua nova produção como atriz, A Segunda Mulher.

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