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Especial Com
lenço, sem documento O
gesto mais comum entre as mulheres iranianas é aquele de arrumar o lenço
que, segundo a religião, precisa encobrir seu cabelo. É um gesto
mecânico. Mulheres mais velhas talvez o façam por convicção.
As jovens, ao menos nas grandes cidades, costumam ter uma relação
manhosa com essa peça de vestuário. Elas a usam em ângulos
mais generosos, capazes de revelar mechas e franjas. Mas todas se impõem
inconscientemente um limite, a partir do qual é preciso ajustá-lo.
Em uma célebre entrevista com o aiatolá Khomeini, a jornalista italiana
Oriana Fallaci chamou o lenço de "estúpido trapo medieval". Ele
é o símbolo onipresente das limitações a que as mulheres
são submetidas no islamismo. "Como imposição, o lenço
é um incômodo. Mas é possível conviver com ele", disse
a VEJA Shirin Ebadi, ativista dos direitos humanos, ganhadora do Nobel da Paz
em 2003. "O problema é que há coisas muito piores."
A discriminação contra as mulheres se manifesta de diversas formas
no sistema legal iraniano. Elas valem, literalmente, a metade de um homem, no
caso de um acidente que resulte no pagamento de indenização. Requerer
um divórcio é quase vedado a elas, e nas poucas circunstâncias
em que isso é aceito elas precisam abrir mão de direitos como o
resgate do dote. O adultério e a prostituição são
crimes passíveis de execução pelo apedrejamento. Fora do
âmbito do direito civil, posições como a de juiz são
vedadas às mulheres. Quando o ex-presidente Khatami tentou incorporar algumas
delas ao seu gabinete de ministros, a elite clerical lhe impôs uma forte
oposição. Apesar disso, a
luta pelos direitos amplos é vigorosa no Irã. Não são
apenas personalidades como Shirin Ebadi que a levam adiante. Mesmo mulheres fiéis
ao espírito da revolução islâmica clamam por reformas
nesse campo. É o caso de Massoumeh Ebtekar, que usa não apenas lenço,
mas xador (a túnica negra que encobre completamente o corpo feminino),
e tem em seu currículo a participação na invasão da
embaixada americana de Teerã, em 1979. Ou de Jamile Kadivar, igualmente
adepta do traje religioso. "Khomeini respondeu às questões que me
inquietavam na juventude", diz ela. Quando se trata de direitos femininos, porém,
ela é uma reformista incondicional. "Queremos que nos vejam como iguais",
afirma. Ela e seu marido, Moshen Kadivar, atravessaram juntos uma tempestade em
anos recentes. Kadivar é um clérigo de convicções
liberais no contexto iraniano, que foi submetido a uma violenta perseguição
pública sob a acusação de que havia se envolvido com uma
secretária. "Foi um processo sórdido, mas ele fortaleceu meu casamento
e me fortaleceu como mulher", diz ela.
Vários campos de estudo são interditados às mulheres no Irã
(enquanto apenas a ginecologia é interditada aos homens). Ainda assim,
64% das vagas universitárias são atualmente preenchidas por elas.
Essas jovens, que chegam à idade adulta quase três décadas
depois da subida dos aiatolás ao poder e encontram aberta a perspectiva
de educação e trabalho, parecem determinadas a garantir que ao menos
seu mundo privado não será descrito com a palavra khafegan (traduzível
como "situação sufocante"). Elas usam e abusam dos blogs, ainda
que apenas para expressar sentimentos. Não dispensam nada que incremente
sua auto-estima. A cirurgia plástica do nariz é uma das mais populares
no Irã. As academias de ginástica (com segregação
de sexos, é óbvio) começam a se tornar uma moda contagiante.
Os salões de cabeleireiro são intensamente freqüentados. Nas
festas nas casas de amigos, livres do lenço afinal, elas exibem seu cabelo.
Os homens são os escravos
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O
aiatolá Mohammad Sajjadi é um expoente da ala liberal do clero iraniano.
Ex-presidente do tribunal superior do país e atual consultor do chefe do
judiciário, ele ganhou fama ao livrar da execução um intelectual
processado por fazer críticas ao Islã. Com ironia, Sajjadi diz que
não matar pessoas ajuda a manter a paz. "O fundamentalismo é perigoso",
diz. Com as credenciais de quem apoiou a revolução na primeira hora,
ele critica até o Líder Supremo Ali Khamenei. "Deveríamos
negociar com os Estados Unidos. Mas aquele que está no poder discorda",
afirma. Sajjadi vive em Qom, centro de estudos que é uma Harvard do islamismo.
O personagem expressa os limites do liberalismo num contexto fundamentalista.
Enquanto concedia entrevista a VEJA, sua mulher, Marian, permanecia sentada no
chão. Ele só pediu que ela se sentasse a seu lado diante de uma
pergunta sobre a questão feminina. "Marian é um exemplo de mulher:
dirige o carro, cuida da casa e dá aulas", diz Sajjadi. "No Islã,
os homens é que são escravos: têm de prover tudo a suas mulheres."
O poder do sexo
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As
jovens nesta foto exercem uma das atividades mais perigosas do Irã: a prostituição.
Pela lei islâmica, esse é um crime punível com a morte por
apedrejamento. Por isso, chegar até elas não foi simples. Requereu
uma pesquisa com motoristas, empregados de hotel e de restaurantes. A mulher à
esquerda fala inglês, tem diploma de psicologia e tornou-se prostituta quando
seu marido foi preso. Hoje, é empresária do ramo e incorporou
o cinismo indispensável à atividade. "Decidi ser grande", diz ela,
que oferece uma rede de 300 meninas, além de dois homens. "No Irã,
a mulher não é ninguém. Mas sexo é poder. Posso obter
qualquer coisa de um homem", gaba-se. Com ganhos de até 3.000 dólares
por mês, ela já comprou casa e carro e quer abrir um salão
de beleza. Só que a eleição do ultraconservador Ahmadinejad
afetou os negócios. Diz ela: "Antes, recebíamos até políticos.
Agora, os homens estão com medo. Durante os rituais do Ashura, o atendimento
foi suspenso. Alguns clientes me abandonariam se trabalhasse nesse período".
A iraniana que ganhou o Nobel
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No
fim da tarde de 27 de janeiro, a advogada Shirin Ebadi aguardava em seu escritório
as famílias de duas jovens que haviam sido presas por fazer campanha contra
a discriminação da mulher no Irã. Instalado num prédio
despojado em Teerã, o local não dá indícios do renome
da ocupante nem de que ela foi agraciada com mais de 1 milhão de
dólares ao obter o Nobel da Paz, em 2003. Shirin foi premiada por sua luta
pelos direitos das mulheres e das crianças. Sua trajetória expõe
a difícil situação feminina no país. Primeira juíza
a ocupar um cargo de chefia numa corte iraniana, Shirin foi destituída
com a revolução de 1979. Resolveu então partir para o ativismo
com todos os riscos que isso implica. Chegou a ser presa política
e já teve nas mãos um documento do governo que planejava seu assassinato.
O Nobel não tornou as coisas mais fáceis. Ela continua a receber
ameaças de morte. "Aprendi a esquecer os perigos. Minha família
me dá apoio", diz. Para defender as vítimas do regime, ela tenta
achar brechas na lei e invoca convenções internacionais. "O problema
é que os tribunais nem sempre obedecem aos procedimentos legais", diz.
Shirin pede mudanças na Constituição iraniana um tema
tabu. Gostaria de ver abolido o Conselho dos Guardiães, cuja principal
incumbência é aprovar candidaturas eleitorais. Em 2005, mais de 1.000
políticos queriam concorrer a presidente. Só oito foram autorizados.
Estrela sob censura
No
Irã, os anúncios publicitários são um campo vedado
às mulheres. A única exceção são as propagandas
de filmes e programas de TV. Nenhuma face feminina é mais estampada nelas
que a da belíssima Niki Karimi. Aos 35 anos, ela é a atriz mais
celebrada do Irã. Além de estrelar dramas e comédias, é
diretora. Iniciou-se no ofício como assistente e amante, segundo
as más-línguas de Abbas Kiarostami, o mais conhecido cineasta
iraniano. Herdou dele o gosto pelos planos longos e seqüências silenciosas,
além de certa crítica social. O que, em seu país, é
sinônimo de problema. Seus dois últimos trabalhos, já exibidos
no exterior, só neste ano devem ser lançados no Irã. Motivo:
o governo exigiu que fossem totalmente remontados. "É frustrante. Já
vivo me autocensurando. E depois preciso deformar o filme", disse a VEJA no set
de sua nova produção como atriz, A Segunda Mulher.
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