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Especial A
dupla vida do Irã  | CRIANÇAS
DE ALÁ Bebês vestidos como
o filho do imã Hussein, figura central no xiismo, descansam enquanto seus
pais se flagelam (sombra): primado do fanatismo |
O
inverno em janeiro foi ameno no Irã e adelgaçou a cobertura de neve
nas montanhas do norte. Mas não o suficiente para interromper a temporada
de esqui nas estações de Darband Sar e Dizin. É para elas
que os jovens de classe média e classe alta, moradores de Teerã,
fogem em busca de descontração nos dias de folga. Dizin fica a cerca
de uma hora e meia de carro da capital. O caminho é cortado por ravinas
espetaculares. Na estrada há restaurantes e casas de chá onde se
pode usar narguilé (ou hubble-bubble, como dizem os adolescentes).
O narguilé é um cachimbo em que a fumaça é filtrada
pela água antes de chegar à boca. Grupos de adolescentes se juntam
ao redor da infusão para conversar.
Em Teerã, a frota de automóveis tem idade média de duas décadas.
Na montanha, os carros estacionados em frente ao teleférico de Dizin são
novos em folha. Há enormes outdoors da Benetton no local. A grife italiana
inaugurou recentemente um escritório no Irã, dirigido por Caio Milani,
um executivo de origem brasileira. Como acontece com outras marcas, as roupas
da Benetton eram objeto de intenso contrabando a partir da Turquia. A empresa
decidiu atacar esse comércio ilegal e abordar diretamente o consumidor
iraniano. Cerca de 67% da população local tem menos de 25 anos.
"Boa parte desse público é ávida por moda", diz Milani. A
fila para a compra de ingressos confirma essa avaliação. As garotas
usam roupas coloridas e maquiagem elaborada. Substituem o lenço religioso,
obrigatório nas cidades, por gorros modernos. Os rapazes têm roupa
larga e cabelo modelado com gel exceto a tribo dos roqueiros, que usa barba
cheia, em clara paródia dos cantores de música religiosa.
A popularidade do esqui é reflexo da falta de alternativas de lazer nas
ruas das cidades. Diversão no Irã é um negócio caseiro.
Em casa, os jovens compram de contrabandistas, que fazem entregas na porta, o
álcool banido pela lei islâmica. Eles também ouvem "música
proibida" categoria na qual se incluem tanto o rap de Eminem e 50 Cent
quanto o pop romântico de iranianos radicados na Europa. Nas ruas é
preciso obedecer ao código de vestimenta e conduta imposto pelas autoridades.
O clima já foi mais repressivo, mas sempre é possível esbarrar
numa zelosa patrulha bassiji a pegajosa polícia voluntária.
Os bassiji também estão presentes nas estações
de esqui. Mas é fácil despistá-los na neve. 
| O
ISLÃ NA NEVE Jovens esquiam na
estação de Dizin, nas proximidades de Teerã: em busca de
liberdade, longe da vigilância das patrulhas religiosas |
Entre os freqüentadores de Dizin, VEJA encontrou um personagem que, dois
dias mais tarde, se mostraria disposto a acompanhá-la em um contexto diferente.
Para falar com liberdade, ele pediu para ser identificado com um nome falso. Akbar,
de 24 anos, pertence a uma fatia afluente da juventude iraniana, que detesta Ahmadinejad
e votou no liberal Mostafa Moin nas eleições presidenciais de 2005
(Moin pertence ao partido Mosharekat, ou Participação, que tem seus
representantes sistematicamente barrados das campanhas políticas pelo Conselho
dos Guardiães, órgão responsável por autorizar candidaturas
no Irã. Ministro durante a presidência reformista de Mohammed Khatami,
que durou de 1997 a 2005, ele foi aceito na última hora nas eleições
e obteve 13,6% dos votos). Akbar trabalha com computação gráfica.
Produz animações para a internet e, recentemente, conseguiu seus
primeiros clientes no exterior. "Isso aconteceu porque durante muito tempo eles
não souberam de onde eu era", diz. A palavra Irã não aparece
em ponto algum no site de Akbar. E ele não se apressa em dizer onde vive
aos clientes em potencial. Seu sonho é trabalhar no estúdio Pixar,
de filmes como Toy Story e Carros.
A religião não tem espaço na vida de Akbar. Foi por curiosidade
que ele aceitou o convite para encontrar-se com VEJA durante a celebração
do Ashura, em Qom. Duas horas a sudoeste de Teerã, Qom é uma das
grandes cidades da religião xiita. É um centro de peregrinação
e estudos, onde se concentram alguns dos seminários mais importantes do
islamismo. Foi de uma dessas universidades que o aiatolá Khomeini começou
a pregar a revolução. Os estudiosos de Qom são figuras formidáveis
na política e na cultura do Irã por exemplo, em seus esforços
para encaixar a modernidade tecnológica na moldura da religião.
"A ciência moderna nos impõe questões éticas. É
essencial analisar os pontos em que ela se choca ou se adapta às nossas
crenças", diz Masood Azerbayejani, professor de um instituto onde se cruzam
os estudos do islamismo e das ciências humanas.
Durante o Ashura, os clérigos se misturam aos milhares de peregrinos que
visitam Qom. O Ashura rememora o assassinato do imã Hussein e de seus seguidores
pelas tropas do califa Yazid, em 680. Foi esse episódio que cristalizou
a fé xiita no âmbito do islamismo. Durante os dez dias da celebração,
peças reencenam o martírio de Hussein (como fazem os católicos
com a Paixão de Cristo). Na noite do nono dia e na manhã seguinte,
há procissões de penitentes. Durante horas, os homens batem com
as mãos no peito ou flagelam as costas com correntes (no passado, essa
flagelação era sangrenta; o exagero foi proibido há dez anos).
Muitos trazem ao desfile crianças vestidas como Ali, o filho de Hussein.
O Ashura é um momento de expiar pecados e pedir bênçãos.
Mas nele também se expressa a estreita ligação entre política
e religião típica do islamismo. Essa ligação se manifestou
de maneira surpreendente na carta manuscrita entregue à reportagem de VEJA
por um jovem que tinha no colo o seu pequeno Ali. Dizia ela: "Em nome de Deus.
Senhor George Bush, ouça! Não tente nos intimidar com ameaças
de guerra e de morte, pois os seguidores de Hussein amam a justiça e o
martírio. Cuide-se, pois se atacar nossos territórios islâmicos
você só vai encontrar a perdição. Rei Yazid do presente!
Esqueça a guerra antes que sua tirania seja destruída". A carta
causou um riso desconfortável em Akbar, que ajudou a traduzi-la e pediu
para que ela fosse rasgada. "Esse homem passou por lavagem cerebral", disse ele.
Depois, olhando em volta, completou: "Eu sou completa minoria neste lugar". Akbar
e o autor anônimo da carta são duas faces opostas do Irã.
Duas faces que por muito tempo ainda devem conviver.
| DIPLOMACIA DO RINGUE Em
meados de janeiro, americanos participaram de um torneio de luta greco-romana
no Irã. Essa é talvez a única área em que os países
mantêm relações. Alireza Heidari não subiu ao ringue.
Mas ele conhece os inimigos: "Já ganhei deles. Nossa técnica é
superior". Com 31 anos e 96 quilos, Heidari é a estrela máxima do
esporte nacional iraniano. Por onde passa, com a orelha dilacerada típica
dos lutadores, desperta admiração. "A orelha é um símbolo.
Só um homem bom pode ostentá-la", diz. Heidari se mantém
alheio à política. Acha que vencer é um estilo de vida. O
campeão, que chega a ganhar até 100 000 dólares por competição,
é dono de um hotel e de um restaurante e circula num carrão do ano.
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RIQUEZA
E PODER Os irmãos Rafsanjani
estão entre as pessoas mais poderosas do Irã. Akbar Hashemi, de
72 anos, foi pupilo do aiatolá Khomeini e presidiu o país por duas
vezes. Mohammad Hashemi, de 64, é o homem da foto ao lado. Jamais gozou
de tanto destaque, mas sempre esteve ao lado do irmão e é temido
e respeitado como ele. Por anos, teve a incumbência de monitorar a mídia
do país. Atualmente, é vice de Akbar na versão iraniana do
Ministério do Planejamento. O clã desperta amor e ódio. Há
um rumor de que a família seria a mais rica do Irã. Ou até
mesmo a sétima mais rica do mundo. Mohammad desdenha disso. "Não
somos sequer os mais ricos da nossa vila", afirma, garantindo que os negócios
da família se resumem ao ramo do plantio de pistache. "Temos alguns parentes
que dirigem uma cooperativa de 70 000 produtores", diz. Os Rafsanjani, por outro
lado, são os grandes representantes do pragmatismo na política iraniana.
Suas diferenças com o presidente linha-dura Ahmadinejad são explícitas.
Diz: "Os inimigos do Irã estão sempre à procura de desculpas
para agir contra nós. Ele lhes dá essas desculpas". |

| O
VINGADOR DA REDE O programador Alireza
Shirazi, de 28 anos, tem como ídolo o americano Shawn Fanning, criador
do Napster, site que desencadeou a revolução da troca de música
na internet. "Ele era ousado e agia sozinho", diz. O mesmo vale para Shirazi,
fundador do blogfa.com, maior portal de blogs do Irã. Sem alternativas
de lazer, a juventude iraniana encontrou nessas páginas uma válvula
de escape. O blogfa responde por um terço dos 750 000 blogs ativos do Irã.
Seus atrativos são a independência e a garantia de privacidade. Não
à toa, ele vem herdando usuários do Persian Blog, pioneiro nesse
nicho que perdeu popularidade desde que veio à tona sua venda para gente
ligada à política. Shirazi ainda não foi atingido pelas tentativas
do governo de controlar os blogs. Diz ele, que fatura com seu negócio 5
000 dólares por mês: "Por enquanto, vou resistindo". |
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