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Edição 1995

14 de fevereiro de 2007
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Especial
A dupla vida do Irã

 
CRIANÇAS DE ALÁ
Bebês vestidos como o filho do imã Hussein, figura central no xiismo, descansam enquanto seus pais se flagelam (sombra): primado do fanatismo

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O inverno em janeiro foi ameno no Irã e adelgaçou a cobertura de neve nas montanhas do norte. Mas não o suficiente para interromper a temporada de esqui nas estações de Darband Sar e Dizin. É para elas que os jovens de classe média e classe alta, moradores de Teerã, fogem em busca de descontração nos dias de folga. Dizin fica a cerca de uma hora e meia de carro da capital. O caminho é cortado por ravinas espetaculares. Na estrada há restaurantes e casas de chá onde se pode usar narguilé (ou hubble-bubble, como dizem os adolescentes). O narguilé é um cachimbo em que a fumaça é filtrada pela água antes de chegar à boca. Grupos de adolescentes se juntam ao redor da infusão para conversar.

Em Teerã, a frota de automóveis tem idade média de duas décadas. Na montanha, os carros estacionados em frente ao teleférico de Dizin são novos em folha. Há enormes outdoors da Benetton no local. A grife italiana inaugurou recentemente um escritório no Irã, dirigido por Caio Milani, um executivo de origem brasileira. Como acontece com outras marcas, as roupas da Benetton eram objeto de intenso contrabando a partir da Turquia. A empresa decidiu atacar esse comércio ilegal e abordar diretamente o consumidor iraniano. Cerca de 67% da população local tem menos de 25 anos. "Boa parte desse público é ávida por moda", diz Milani. A fila para a compra de ingressos confirma essa avaliação. As garotas usam roupas coloridas e maquiagem elaborada. Substituem o lenço religioso, obrigatório nas cidades, por gorros modernos. Os rapazes têm roupa larga e cabelo modelado com gel – exceto a tribo dos roqueiros, que usa barba cheia, em clara paródia dos cantores de música religiosa.

A popularidade do esqui é reflexo da falta de alternativas de lazer nas ruas das cidades. Diversão no Irã é um negócio caseiro. Em casa, os jovens compram de contrabandistas, que fazem entregas na porta, o álcool banido pela lei islâmica. Eles também ouvem "música proibida" – categoria na qual se incluem tanto o rap de Eminem e 50 Cent quanto o pop romântico de iranianos radicados na Europa. Nas ruas é preciso obedecer ao código de vestimenta e conduta imposto pelas autoridades. O clima já foi mais repressivo, mas sempre é possível esbarrar numa zelosa patrulha bassiji – a pegajosa polícia voluntária. Os bassiji também estão presentes nas estações de esqui. Mas é fácil despistá-los na neve.

 

O ISLÃ NA NEVE
Jovens esquiam na estação de Dizin, nas proximidades de Teerã: em busca de liberdade, longe da vigilância das patrulhas religiosas

Entre os freqüentadores de Dizin, VEJA encontrou um personagem que, dois dias mais tarde, se mostraria disposto a acompanhá-la em um contexto diferente. Para falar com liberdade, ele pediu para ser identificado com um nome falso. Akbar, de 24 anos, pertence a uma fatia afluente da juventude iraniana, que detesta Ahmadinejad e votou no liberal Mostafa Moin nas eleições presidenciais de 2005 (Moin pertence ao partido Mosharekat, ou Participação, que tem seus representantes sistematicamente barrados das campanhas políticas pelo Conselho dos Guardiães, órgão responsável por autorizar candidaturas no Irã. Ministro durante a presidência reformista de Mohammed Khatami, que durou de 1997 a 2005, ele foi aceito na última hora nas eleições e obteve 13,6% dos votos). Akbar trabalha com computação gráfica. Produz animações para a internet e, recentemente, conseguiu seus primeiros clientes no exterior. "Isso aconteceu porque durante muito tempo eles não souberam de onde eu era", diz. A palavra Irã não aparece em ponto algum no site de Akbar. E ele não se apressa em dizer onde vive aos clientes em potencial. Seu sonho é trabalhar no estúdio Pixar, de filmes como Toy Story e Carros.

A religião não tem espaço na vida de Akbar. Foi por curiosidade que ele aceitou o convite para encontrar-se com VEJA durante a celebração do Ashura, em Qom. Duas horas a sudoeste de Teerã, Qom é uma das grandes cidades da religião xiita. É um centro de peregrinação e estudos, onde se concentram alguns dos seminários mais importantes do islamismo. Foi de uma dessas universidades que o aiatolá Khomeini começou a pregar a revolução. Os estudiosos de Qom são figuras formidáveis na política e na cultura do Irã – por exemplo, em seus esforços para encaixar a modernidade tecnológica na moldura da religião. "A ciência moderna nos impõe questões éticas. É essencial analisar os pontos em que ela se choca ou se adapta às nossas crenças", diz Masood Azerbayejani, professor de um instituto onde se cruzam os estudos do islamismo e das ciências humanas.

Durante o Ashura, os clérigos se misturam aos milhares de peregrinos que visitam Qom. O Ashura rememora o assassinato do imã Hussein e de seus seguidores pelas tropas do califa Yazid, em 680. Foi esse episódio que cristalizou a fé xiita no âmbito do islamismo. Durante os dez dias da celebração, peças reencenam o martírio de Hussein (como fazem os católicos com a Paixão de Cristo). Na noite do nono dia e na manhã seguinte, há procissões de penitentes. Durante horas, os homens batem com as mãos no peito ou flagelam as costas com correntes (no passado, essa flagelação era sangrenta; o exagero foi proibido há dez anos). Muitos trazem ao desfile crianças vestidas como Ali, o filho de Hussein. O Ashura é um momento de expiar pecados e pedir bênçãos. Mas nele também se expressa a estreita ligação entre política e religião típica do islamismo. Essa ligação se manifestou de maneira surpreendente na carta manuscrita entregue à reportagem de VEJA por um jovem que tinha no colo o seu pequeno Ali. Dizia ela: "Em nome de Deus. Senhor George Bush, ouça! Não tente nos intimidar com ameaças de guerra e de morte, pois os seguidores de Hussein amam a justiça e o martírio. Cuide-se, pois se atacar nossos territórios islâmicos você só vai encontrar a perdição. Rei Yazid do presente! Esqueça a guerra antes que sua tirania seja destruída". A carta causou um riso desconfortável em Akbar, que ajudou a traduzi-la e pediu para que ela fosse rasgada. "Esse homem passou por lavagem cerebral", disse ele. Depois, olhando em volta, completou: "Eu sou completa minoria neste lugar". Akbar e o autor anônimo da carta são duas faces opostas do Irã. Duas faces que por muito tempo ainda devem conviver.

 

DIPLOMACIA DO RINGUE
Em meados de janeiro, americanos participaram de um torneio de luta greco-romana no Irã. Essa é talvez a única área em que os países mantêm relações. Alireza Heidari não subiu ao ringue. Mas ele conhece os inimigos: "Já ganhei deles. Nossa técnica é superior". Com 31 anos e 96 quilos, Heidari é a estrela máxima do esporte nacional iraniano. Por onde passa, com a orelha dilacerada típica dos lutadores, desperta admiração. "A orelha é um símbolo. Só um homem bom pode ostentá-la", diz. Heidari se mantém alheio à política. Acha que vencer é um estilo de vida. O campeão, que chega a ganhar até
100 000 dólares por competição, é dono de um hotel e de um restaurante e circula num carrão do ano.

 

RIQUEZA E PODER
Os irmãos Rafsanjani estão entre as pessoas mais poderosas do Irã. Akbar Hashemi, de 72 anos, foi pupilo do aiatolá Khomeini e presidiu o país por duas vezes. Mohammad Hashemi, de 64, é o homem da foto ao lado. Jamais gozou de tanto destaque, mas sempre esteve ao lado do irmão e é temido e respeitado como ele. Por anos, teve a incumbência de monitorar a mídia do país. Atualmente, é vice de Akbar na versão iraniana do Ministério do Planejamento. O clã desperta amor e ódio. Há um rumor de que a família seria a mais rica do Irã. Ou até mesmo a sétima mais rica do mundo. Mohammad desdenha disso. "Não somos sequer os mais ricos da nossa vila", afirma, garantindo que os negócios da família se resumem ao ramo do plantio de pistache. "Temos alguns parentes que dirigem uma cooperativa de 70 000 produtores", diz. Os Rafsanjani, por outro lado, são os grandes representantes do pragmatismo na política iraniana. Suas diferenças com o presidente linha-dura Ahmadinejad são explícitas. Diz: "Os inimigos do Irã estão sempre à procura de desculpas para agir contra nós. Ele lhes dá essas desculpas".

 

O VINGADOR DA REDE
O programador Alireza Shirazi, de 28 anos, tem como ídolo o americano Shawn Fanning, criador do Napster, site que desencadeou a revolução da troca de música na internet. "Ele era ousado e agia sozinho", diz. O mesmo vale para Shirazi, fundador do blogfa.com, maior portal de blogs do Irã. Sem alternativas de lazer, a juventude iraniana encontrou nessas páginas uma válvula de escape. O blogfa responde por um terço dos 750 000 blogs ativos do Irã. Seus atrativos são a independência e a garantia de privacidade. Não à toa, ele vem herdando usuários do Persian Blog, pioneiro nesse nicho que perdeu popularidade desde que veio à tona sua venda para gente ligada à política. Shirazi ainda não foi atingido pelas tentativas do governo de controlar os blogs. Diz ele, que fatura com seu negócio 5 000 dólares por mês: "Por enquanto, vou resistindo".

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