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EXPOSIÇÃO

José Martins
Pancetti: próximo da abstração


Pancetti – O Marinheiro Só
(São Paulo, até 28 de fevereiro) – Antes de chegar a São Paulo, onde está em cartaz no Museu de Arte Brasileira da Faap, a exposição do pintor campineiro José Pancetti atraiu grande público na Bahia e no Rio de Janeiro. A mostra, que reúne 100 telas, é a primeira grande retrospectiva do artista desde 1962. Morto em 1958, aos 55 anos, Pancetti é celebrado como o melhor pintor de paisagens marinhas do Brasil. Foi muito mais que isso. Buscando enquadramentos novos para retratar céu, mar e areia, ordenando os planos de cores quase à moda de um artista abstrato, e almejando a um lirismo que jamais se deteriora em pieguice, ele restituiu força a um gênero antigo e desgastado. Pancetti também se dedicou aos retratos e naturezas-mortas. Em geral menos valorizada, essa parte de sua obra está sobejamente representada na exposição e ajuda a compreender melhor a evolução do artista.

 

CINEMA

Amor à Flor da Pele (In the Mood for Love, Hong Kong/França, 2000. A partir de sexta-feira em São Paulo e Rio) – O diretor Wong Kar-wai quase não usa diálogos, e nem precisa deles: tem o dom de transmitir as idéias de seus filmes quase que só por meio das atmosferas que evoca. Neste drama deslumbrante, ambientado na Hong Kong de 1962, um homem e uma mulher alugam apartamentos contíguos. Ambos são casados, e ambos vêem muito pouco seus respectivos esposos, que para todos os efeitos vivem fazendo serão. Também quase não se falam, até o dia em que percebem que seus parceiros estão tendo um caso. Da furtiva troca de confidências nasce um desejo que os dois buscam a todo custo reprimir, embora estejam cercados de relações ilícitas por todos os lados. Kar-wai orquestra seu filme como se fosse uma melodia de jazz: enquanto os personagens mudam sob ação de seus impulsos, o pano de fundo – a rotina silenciosa e vazia das pessoas traídas – se repete todo o tempo.

 

LIVRO

Renato Chauí
Gloria Kalil: novos capítulos

Chic – Um Guia Básico de Moda e Estilo, de Gloria Kalil (Senac; 270 páginas; 45 reais) – Depois de vender mais de 100 000 exemplares em menos de quatro anos, o livro que deu cara nova às publicações brasileiras sobre moda chega à vigésima edição com dois capítulos a mais. Um deles diferencia as tribos femininas urbanas, com aquarelas que mostram hippies, peruas, conservadoras, esportistas e por aí afora. O outro é um compêndio das perguntas mais ouvidas pela autora, que é colaboradora de VEJA, nas centenas de palestras que tem feito pelo país. Sem a afetação dos livros de etiqueta, a obra de Gloria diferencia moda (uma proposta da indústria) de estilo (uma escolha pessoal), incentivando a leitora a valorizar sua individualidade.

 

DISCO

The Menace, Elastica (WEA) – Dentre todos os grupos ingleses surgidos no início da década de 90, o Elastica sempre foi o menos pretensioso. O Oasis e o Blur, por exemplo, adoram alardear que são novas encarnações de Beatles e David Bowie. Já o sexteto liderado pela guitarrista e vocalista Justine Frischmann optou por reciclar o punk e a new wave da década de 70, com melodias que grudam na memória. O resultado pode não ser tão ousado, mas é excelente para animar qualquer festa. The Menace, primeiro disco do grupo em seis anos, tem entre seus destaques a divertida regravação de Da Da Da, melodia que o grupo alemão Trio emplacou nos anos 80.

 

TELEVISÃO

Divulgação
O cão Gromit: diversão em massa


Wallace & Gromit
(domingo 18, às 20h, no Locomotion) – Bem antes do longa-metragem A Fuga das Galinhas (2000), o diretor inglês Nick Park já ostentava a coroa de rei da animação de massinha. A fama se deve aos três curtas reunidos nesse especial, todos feitos nos anos 90 e protagonizados pela mesma dupla: o atrapalhado inventor Wallace e seu cão, Gromit, que faz crochê e toma chá. Suas aventuras agradam a crianças e adultos. Isso porque há muito de ironia e nonsense em curtas como Dia de Folga, no qual os heróis viajam à Lua num foguete improvisado. Completam a programação As Calças Erradas e Tosa Completa, ambos premiados com o Oscar, em 1994 e 1996, respectivamente. No primeiro, Wallace decide alugar um quarto para um impagável pingüim malfeitor. No outro, a dupla se envolve em confusão por causa de um rebanho de ovelhinhas.



LITERATURA BRASILEIRA

Música Anterior
Michel Laub
Rocco,
Companhia das letras
108 páginas;
18 reais

Depois de estrear no conto, em 1998, o jornalista gaúcho Michel Laub se aventura num texto mais longo, Música Anterior. Chamá-lo ou não de romance é motivo de hesitação. De um romance esperam-se enredo, uma história com peripécias, e personagens que estejam o mais próximos possível de pessoas reais, palpáveis. No que diz respeito ao enredo, não há do que reclamar. O livro fala de um juiz que, mesmo sem provas, condena à prisão um homem acusado de estupro. Não se trata de um thriller legal ou de um texto sobre o cotidiano violento nas grandes cidades. O foco é psicológico. O juiz é o narrador e luta para entender o que deu errado em sua vida. A morte da mãe, o relacionamento com o irmão mais novo e, principalmente, a ausência de filhos em seu casamento são elos numa cadeia de eventos que o levaram a um beco sem saída emocional e, por fim, a redigir uma sentença que contraria suas próprias convicções. Na condução da história e na construção dos personagens, porém, as coisas se complicam. Com exceção do protagonista, as outras figuras são sombras. Não sabemos o que sentem nem as ouvimos falar. Tampouco existe ação no livro, cenas em que os personagens interagem e se confrontam: temos somente um mosaico de eventos, que o juiz rememora e sobre os quais reflete. Em outras palavras, Música Anterior dificilmente pode ser considerado um triunfo como romance. Mas isso não implica uma condenação definitiva para Michel Laub. Com seu juiz-narrador, ele demonstra que possui, sim, fôlego para criar personagens dotados de emoções e inteligência. Também sabe abordar temas difíceis, como o da imparcialidade da Justiça, com sutileza e até profundidade. Não faltam talentos a Laub, e é por isso que o leitor experimenta um certo pesar ao final de Música Anterior. Ele não lamenta ter "perdido tempo" com um livro imperfeito. Ele lamenta que o autor não tenha ido tão longe quanto poderia ir.

Carlos Graieb

 

Fontes: São Paulo: Cultura, Laselva, Saraiva, Livraria da Vila, Nobel, Siciliano; Rio: Saraiva, Laselva, Sodiler, Siciliano; Porto Alegre: Saraiva, Livraria Ed. Porto Alegre, Sulina, Siciliano; Brasília: Sodiler, Siciliano, Saraiva, Leitura; Maceió: Sodiler; Recife: Sodiler, Saraiva; Natal: Sodiler; Florianópolis: Siciliano; Goiânia: Siciliano; Fortaleza: Siciliano, Laselva; Salvador: Siciliano; Curitiba: Livraria Curitiba, Siciliano, Saraiva; Belo Horizonte: Leitura, Siciliano.

 

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