Sthepen
Kanitz
Ação
e reação
"Duas
políticas econômicas, 'mais da
mesma coisa' e
'guinada de 180 graus',
resumem 95% das medidas econômicas
implantadas no país nos últimos 35 anos"
Ilustração Ale Setti
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Você pede desculpas a seu marido, mas ele continua
brigando. Você traz flores para sua esposa, só
que ela não o perdoa no ato. Infelizmente, ação
e reação instantâneas só acontecem
na física. Na psicologia, nas finanças e na
economia sempre existe um intervalo demorado entre ação
e reação.
Não saber avaliar corretamente o intervalo de reação
de sua esposa, de seu chefe ou de uma política econômica
tem sido a principal causa dos conflitos entre seres humanos
e a razão dos insucessos da economia como ciência.
Não saber ao certo esse intervalo causa enormes problemas.
Primeiro, economistas nunca conseguem avaliar se 1) suas
políticas fracassaram, se 2) erraram nas estimativas
do intervalo de reação ou se 3) erraram na
dose da ação interventora.
Quando uma política econômica ou social não
dá os resultados esperados, os economistas que a
implantaram invariavelmente se defendem pedindo mais tempo,
nunca aceitando que erraram na política. Normalmente
aumentam a dose da variável econômica em vez
de abandonar a idéia por inteiro, elevando, por exemplo,
ainda mais os juros, dando maiores subsídios, aumentando
ainda mais os gastos públicos, e assim por diante.
Foi dessa forma que nossos juros foram subindo, subindo,
subindo, em vez de se mudar a política econômica,
como finalmente ocorreu. Só quando a política
está prestes a arruinar o país é que
se muda a equipe econômica e sua nefasta política,
para a alegria geral da nação, normalmente
na direção diametralmente oposta.
Essas duas políticas econômicas, "mais da mesma
coisa" e "guinada de 180 graus", resumem praticamente 95%
das políticas econômicas implantadas neste
país nos últimos 35 anos. Esse vai-e-vem até
já foi batizado de política de "stop and go".
A mesma sensação que se tem ao sair com o
carro na segunda marcha.
Agora imaginem, em vez de lidar com uma única variável
e seu intervalo de reação, ter de lidar com
cinco ou mais variáveis ao mesmo tempo. Quem já
tomou banho de chuveiro em casa antiga sabe como é
difícil ajustar a temperatura quando é grande
o intervalo de reação entre abrir a torneira
de água quente e ter um fluxo de água na temperatura
desejada. Requer paciência, num vai-e-vem sutil, requer
disciplina. Imaginem agora acertar a temperatura com cinco
torneiras e cinco intervalos de reação diferentes
e desconhecidos. Tarefa simplesmente impossível.
Alan Greenspan, do banco central americano, e Armínio
Fraga, do BC brasileiro, têm usado uma visão
considerada "neoliberal", segundo a qual o sucesso da intervenção
governamental depende do uso do menor número de variáveis
possível, nesse caso a taxa de juros. Tentam calibrar
a dose e observam os efeitos antes de agir novamente. As
doses são homeopáticas, e impera a paciência.
Ninguém acusa Greenspan e Fraga de "stop and go".
Pelo contrário, a crítica mais comum é
quanto à "lentidão" de decisão.
Ainda há quem acredite tolamente que uma equipe econômica
de notáveis, controlando as dezenas de variáveis
necessárias para desenvolver um país, conseguirá
seu intento. Parecem dizer: "Vamos usar todas as medidas
que forem necessárias". Se com uma única variável
já é complicado, imaginem com cinqüenta.
Se você almeja uma vida tranqüila, aprenda a
avaliar corretamente o intervalo de reação
de sua esposa, filhos, chefes e subordinados para não
cometer os mesmos erros dos economistas: erros na dose da
medida, erro na avaliação do intervalo de
reação, erros na falta de paciência.
Isso é bem mais difícil do que se pensa, porque,
enquanto Greenspan e Fraga precisam controlar uma única
variável, nós no dia-a-dia precisamos lidar
com dezenas de variáveis ao mesmo tempo.
Stephen Kanitz é administrador (www.kanitz.com.br)