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Roberto
Pompeu de Toledo
Em
favor do McDonald's,
fora o hambúrguer
José
Bové não admitiria isso,
mas
essa famosa cadeia de lanchonetes
ostenta uma vocação democrática
Ele
é redondo e fofo. A cor é amarelada. Talvez
possa ser classificada como bege, talvez como creme. Visto
de perfil, ganha mais cores: lâminas de amarelo forte
alternam-se com outras de tom escuro. Ainda de perfil, apresenta-se
dividido em duas partes iguais, como os ônibus londrinos
de dois andares. E, como esses ônibus, parece alto demais,
com relação à base. Redondo e elevado,
lembraria a miniatura de uma torre. Ou de uma barrica. Ou...
Fiquemos por aqui. Se todos conhecem o Big Mac, para que descrevê-lo?
Sim, é do Big Mac que se trata. Ele realmente não
precisa ser descrito, mas, pensando bem, introduzido assim,
em palavras, pelo menos não se sente o gosto e o
gosto, admita-se, é discutível. O Big Mac não
escapa da mediocridade dos artigos fabricados em massa. Nada
a ver com o apuro artesanal das peças únicas.
Nada a ver, para ficar no ramo do sanduíche, com uma
baguete francesa recheada de queijo roquefort, ou, indo um
pouco além do sanduíche, mas não muito,
com um queijo de cabra levado ao forno sobre uma fina camada
de pão o chamado chèvre chaud.
O Big Mac vem a propósito do sucesso alcançado,
no Fórum Social Mundial, realizado em Porto Alegre,
pelo agricultor francês José Bové. Este
personagem, como se sabe, ganhou fama investindo contra um
McDonald's. Feitas, nos parágrafos acima, as ressalvas
possíveis aos produtos oferecidos nessa cadeia de lanchonetes
e ao Big Mac seria preciso adicionar as mortais batatas
fritas, e a estas o cruel ketchup , pergunta-se: será
que Bové escolheu o alvo certo? Seria o McDonald's
símbolo adequado de um mundo perverso e excludente,
como o que Bové diz combater? A resposta que se vai
propor aqui é: não. O McDonald's, quando considerado
para além do infame pão com gergelim, tem características
que, ao contrário de merecer a hostilidade das esquerdas,
vão ao encontro dos ideais de igualdade e fraternidade
que são suas razões de ser.
O psicanalista Contardo Calligaris, em artigo na Folha
de S. Paulo (29/1/01), já lembrou que certas unidades
do McDonald's, em Nova York, oferecem abrigo aos sem-teto,
no inverno, e refeições reforçadas aos
desempregados. Há outras linhas de raciocínio
a trilhar. Um argumento fácil seria invocar a diferença
entre um hambúrguer e o queijo roquefort, segundo alguns,
ou chèvre, segundo outros, que Bové fabrica
em sua propriedade. O hambúrguer, com todos os seus
defeitos, está ao alcance de todos. O roquefort e o
chèvre são tão exclusivos que deles os
menos afortunados sequer ouviram falar. Qual seja: Bové
combate um produto que os pobres podem comprar em favor de
outro com que não podem sonhar. Mas um argumento desses
peca pela baixeza da personificação, ao centrar-se
na figura de Bové. É mais ou menos como dizer
que o casal Suplicy não pode ser socialista porque
mora numa mansão. Há algo mais sério,
que repousa no fato de o McDonald's, tanto quando analisado
no conjunto de suas unidades como quando tomado na intimidade
de cada uma delas, revelar uma vocação democrática.
Senão, vejamos. O McDonald's se faz presente no bairro
rico e no pobre, no centro e na periferia, com a mesma aparência
e os mesmos produtos. É a utopia socialista, diria
um provocador, como só os capitalistas sabem colocar
em prática. Isso quanto ao conjunto de suas unidades.
Observe-se agora o espaço interno de um McDonald's.
Em todo o mundo, mas principalmente no Brasil, país
por excelência da separação dos espaços
entre ricos e pobres, o McDonald's oferece o contraste de
um espaço integrador. Assim como existem a favela e
o condomínio fechado, o atendimento ao doente no corredor
e no hospital cinco-estrelas, a Justiça do pobre e
a do colarinho-branco, assim também existem o restaurante
do doutor e o botequim da ralé, e um não chega
nem à porta do outro. Pois no McDonald's misturam-se
as classes, voltaria a dizer o mesmo provocador, tanto quanto
em Cuba, onde há estabelecimentos separados para nacionais
e estrangeiros, elas se excluem.
Mais importante ainda é o que ocorre do outro lado
do balcão. Uma das mais dolorosas evidências
da discriminação racial no Brasil está
nos restaurantes. Onde estão os garçons negros?
Raro é o restaurante, dos destinados à classe
média para cima, que os emprega. Se há poucos
médicos negros, professores ou juízes, é
porque o sistema, lá na base, lá nas suas profundezas,
os impede de subir. Numa profissão como a de garçom
o mecanismo é outro. A discriminação
se faz não ao cabo de um longo processo, que inclui
as barreiras da educação e da cultura, mas na
superfície mesmo, de forma direta e descarada. Pois
no McDonald's, e essa é sua maior glória, os
atendentes são brancos e negros, mulatos e orientais.
O mundo real oferece mais meandros e nuances, esta é
uma das conclusões a que se chega, do que sonha a vã
filosofia de um militante de esquerda, ao lançar-se
em fúria contra uma lanchonete. Outra é que,
salvo o hambúrguer, o McDonald's tem qualidades muito
apreciáveis. Se não vendesse hambúrgueres,
ah, aí seria perfeito.
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