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Veias abertas

Cuba é uma ótima personagem literária.
Dois novos romances estão aí para confirmar

Flávio Moura

 
Pedro Martinelli

O romancista inglês Graham Greene costumava dizer que um dos personagens mais importantes de uma obra de ficção é estático e não fala. Trata-se do lugar, do cenário em que a história se passa. Sensual e ensolarada, mas também palco de um dos experimentos políticos mais controvertidos do século XX, Cuba tem sido um personagem e tanto para ficcionistas. O próprio Greene a escolheu como ambientação para um de seus livros mais famosos, Nosso Homem em Havana. Outros estrangeiros, como o americano Ernest Hemingway, também se fascinaram com o país e procuraram retratá-lo. A própria ilha, no entanto, possui uma das mais ricas tradições literárias da América Latina. Com a implantação do regime ditatorial de Fidel Castro, no fim da década de 50, essa tradição foi cindida. Uma parte deteriorou-se em panfletarismo. Outra, formada por exilados e escritores que sobrevivem à margem do sistema, procura levar adiante o legado de autores como José Lezama Lima e Alejo Carpentier, nomes que figuram no panteão da literatura de língua espanhola.

Dois excelentes livros, agora lançados no Brasil, acrescentam alguns traços novos ao retrato literário de Cuba. Tanto o romance policial Havana (tradução de Lourdes Menegale; Record; 416 páginas; 38 reais), do americano Martin Cruz Smith, quanto o desbocado O Rei de Havana (tradução de José Rubens Siqueira; Companhia das Letras; 226 páginas; 26 reais), do cubano Pedro Juan Gutiérrez, são ambientados na capital do país e descrevem de maneira contundente a realidade da ilha. Smith tinha tudo para se enquadrar na categoria dos estrangeiros que vêem o país de Fidel com olhos de visitante. Mas não o faz. Em seu livro, Cuba é vista de todos os lados. É ao mesmo tempo a ilha decadente em que falta de tudo, é o último bastião do idealismo revolucionário, o paraíso tropical de mulatas e rumba e, acima de tudo, um lugar onde os russos não são bem-vindos. Smith, celebrizado como autor do romance Parque Gorki, leva seu personagem, o detetive russo Arkady Renko, para desvendar um crime em Havana. O autor mostra que, mais que os americanos, hoje são os russos os grandes vilões em Cuba. Com o fim da União Soviética e do gordo subsídio que vinha de lá, eles passaram a ser vistos como traidores e são olimpicamente desprezados pelo povo cubano. "Não há pior inimigo do que um homem que um dia foi amigo", define o narrador.


Mariane Geba
Gutiérrez (foto) e Cruz Smith: contundentes retratos da realidade na ilha de Fidel Castro


Já Juan Gutiérrez, que ainda mora na ilha e cresceu experimentando as vicissitudes causadas pela revolução, traça um painel enfaticamente negativo da vida na ilha. Embora não faça menção direta a Fidel ou à política, o autor mostra uma Cuba putrefata. Seu protagonista é um menino que vendia pombas para comer. Depois de assistir à morte tragicômica do irmão, da mãe e da avó, vai para um reformatório, de onde foge para viver em meio às prostitutas e estivadores de Havana. Seu diagnóstico do pauperismo a que a sociedade cubana está condenada é de fazer inveja aos mais ferrenhos opositores do regime. Também autor do aclamado Trilogia Suja de Havana, lançado no Brasil em 1999, Gutiérrez não tem seus livros publicados em Cuba. As editoras simplesmente os recusam. O crescente sucesso do autor no exterior faz com que seja visto com desconfiança cada vez maior pelos defensores do castrismo. Mesmo relutante, ele não deve demorar a seguir o exemplo de outros bons escritores do país: o exílio.

Aos interessados num retrato sóbrio da situação em que Cuba se encontra, o livro de Smith é mais indicado: munido de um distanciamento crítico só possível aos que não sentiram na pele as agruras do regime, o autor apresenta uma visão panorâmica do país e faz de sua obra um painel dos tipos e problemas da ilha. O livro de Gutiérrez, ao contrário, funciona mais como literatura. Seu estilo é econômico, vigoroso e de tal modo impactante que torna impossíveis nuances ou meios-tons. Em registros diferentes, contudo, os dois confirmam o que já vinha dizendo Guillermo Cabrera Infante, o maior dos escritores cubanos em atividade. Para ele, na vida real, a doce e promissora Cuba dos anos 50 e 60 está morta e enterrada. Mau para os cubanos, nem tanto para os leitores. Ao menos há uma boa literatura como epitáfio.

 

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