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Morte com grife

Psicopata Americano satiriza
o vazio do consumismo

Isabela Boscov

Leonardo DiCaprio fez um enorme favor ao finalmente recusar, depois de muito vai-não-vai, o papel principal de Psicopata Americano (American Psycho, Estados Unidos/Canadá, 2000). Um favor a si mesmo, poupando-se do vexame de aplicar seus limitados dotes dramáticos a um material difícil, e também à platéia, que tem a chance de ver no filme, que estréia nesta sexta-feira em circuito nacional, um desempenho matador do galês Christian Bale – aquele que, em 1987, Steven Spielberg escalou como o garotinho de Império do Sol.

Neste misto de drama, sátira e horror, Bale interpreta Patrick Bateman, um jovem executivo de Wall Street que compete duramente com seus colegas para ver quem ostenta os símbolos de status mais valiosos – os sapatos, os ternos, os cartões de visita, a reserva no restaurante esnobe, a namorada socialite. Artigos que, supõe-se, deveriam distinguir seu usuário da massa, mas têm o dom perverso de tornar todos idênticos entre si. Numa cena hilariante, logo no começo do filme, Bateman demonstra sua rotina diária de cuidados com a aparência: 1 000 abdominais, esfoliante de amêndoas no corpo, creme calmante de menta para o rosto e por aí vai. Olhando-se no espelho, narra: "Patrick Bateman é um conceito, uma abstração. Não há nada aqui dentro". Não é bem verdade. A ironia é que o misógino, misantrópico, ganancioso e narcisista Bateman tem uma espécie de consciência – ou, no mínimo, um profundo asco de si mesmo, que purga assassinando com abandono (e elegantes facas e machados de grife) os desavisados que entram em sua órbita.

Psicopata Americano é adaptado do romance homônimo de Bret Easton Ellis, autor também de Abaixo de Zero e autoproclamado cronista da era yuppie – os anos 80. Eis, porém, um daqueles raros casos em que o filme é bem melhor que o livro. Para começar, a cineasta Mary Harron, aqui em seu segundo longa-metragem, diminui muito o teor de violência explícita da história. Ainda há cenas fortes, mas elas são mostradas de forma breve e estilizada. Mais importante, Harron transformou um retrato circunscrito no tempo e no espaço em uma fábula perfeita para os dias de hoje, em que essa cultura ultracompetitiva e ultra-aquisitiva representada pelo protagonista se tornou contagiosa. A diretora teve também o bom senso de brigar até as últimas conseqüências pelo ator Christian Bale, a despeito das tentativas do estúdio de contratar um astro mais popular. Com um sorriso que mais parece uma máscara e a voz modulada para exalar infalibilidade, Bale leva a sátira até o seu limite – que, nesse caso, significa o mais puro desespero.

 

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