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Golpes de mestre

O diretor Ang Lee conquista a platéia com
as lutas assombrosas de O Tigre e o Dragão

Isabela Boscov

 
Fotos divulgação
Zhang Ziyi, no papel da rebelde Jen Yu: carisma

O que seria capaz de fazer a platéia do Festival de Cannes sair daquele torpor induzido por dezenas de sessões de cinema enfileiradas e romper emfilme, culminando com uma ovação ao final? Teria de ser algo irresistível. Como O Tigre e o Dragão (Crouching Tiger, Hidden Dragon, China/Hong Kong/Taiwan/Estados Unidos, 2000), que estréia nesta sexta-feira no país, depois de se tornar a fita de língua estrangeira mais vista na Inglaterra e de vencer até a resistência dos americanos às legendas – nos Estados Unidos, ele está muito perto de superar a bilheteria do recordista nessa categoria, o italiano A Vida É Bela. O alvo de tanto entusiasmo é um filme de artes marciais: tem lutas de espadas, combates de kung fu e heróis de coração impoluto. Mas, seja qual for o tamanho da desconfiança do espectador, ela é demolida aos vinte minutos de projeção, quando a guerreira Shu Lien (Michelle Yeoh, de 007 – O Amanhã Nunca Morre) e um ladrão misterioso se enfrentam sobre os telhados de um palácio. A dupla galga colunas, desfere golpes de complexidade hipnótica e, literalmente, voa. É impossível – e arrebatador.

O surpreendente é que O Tigre e o Dragão é dirigido pelo taiwanês Ang Lee, conhecido por comédias delicadas como O Banquete de Casamento e por dramas 100% ocidentais, como Razão e Sensibilidade. "Não tem jeito: para sentir-se completo, todo cineasta chinês tem de fazer um filme de artes marciais", justifica Lee, que desde 1978 mora em Nova York, mas nunca esqueceu o deleite das aventuras a que assistia na infância. Seu filme funde o tom épico do wu xia, nome chinês para as histórias heróicas que surgiram no limiar do cinema chinês, às suas ramificações mais recentes, popularizadas por astros como Bruce Lee e Jackie Chan, em que o realismo dos combates é crucial. Ang Lee, porém, acrescentou seu próprio tempero à mistura – a começar pela exaltação das personagens femininas. É delas a honra de protagonizar as lutas mais empolgantes de O Tigre e o Dragão.

O enredo se passa no século XIX. O guerreiro Li Mu Bai (o ator Chow Yun-Fat, de Anna e o Rei) decide aposentar sua espada, confiando-a à amiga Shu Lien. A arma, porém, é roubada – e tudo indica que o gatuno é Jen Yu, uma jovem aristocrática e voluntariosa, que sonha em escapar de um casamento arranjado e viver também ela como guerreira. Jen Yu (interpretada com carisma assombroso pela novata Zhang Ziyi) já superou em muito as habilidades de sua mestra, a malfeitora Jade Fox (papel de Cheng Pei-Pei, veterana estrela dos filmes de kung fu), mas não sabe se deve empregar seu talento para o bem ou para o mal. Torna-se alvo de disputa, portanto, de vilões e mocinhos.


Yun-Fat e Michelle: aulas diárias para aprender o dialeto mandarim

São temas típicos da cultura popular chinesa – especialmente daquela que, depois da revolução comunista de 1949, se propagou entre os moradores de Taiwan e Hong Kong, nostálgicos de seus laços com o país de origem. Por isso, os filmes de wu xia se passam, em sua maioria, numa China de fábula. O Tigre e o Dragão não é exceção. Suas cores esmaecidas, por exemplo, lembram as de uma antiga aquarela. Já a equipe e o elenco refletem a atual multiplicidade das populações de origem chinesa. Lee vem de Taiwan. O astro Chow Yun-Fat e o coreógrafo Yuen Woo-Ping (o mesmo de Matrix) são verdadeiras lendas em Hong Kong. Michelle Yeoh nasceu na Malásia, enquanto a jovem Zhang Ziyi é de Pequim. Até as filmagens, eles mal se entendiam, já que falam dialetos diferentes. O diretor, porém, obrigou alguns de seus atores a enfrentar até três horas diárias de aulas, durante meses, para dominar o mandarim, o dialeto em que se travam os diálogos do filme. Isso sem falar no exaustivo treinamento de artes marciais imposto a todo o elenco.

O resultado é que poucas vezes se viu uma cena como aquela em que a jovem Jen Yu elimina, sozinha, duas dezenas de valentões que a desafiam numa taverna. Também é notável o lirismo do duelo travado entre a moça e o mestre Li Mu Bai sobre as copas de uma floresta de bambus – para tanto, os atores foram suspensos por cordas e cabos de aço, depois apagados digitalmente. Mas a razão do sucesso de O Tigre e o Dragão não está só no seu apuro visual e nas seqüências de lutas. Lee garantiu a robustez de seu filme investindo no drama e nos personagens. Jen Yu, por exemplo, é uma feminista avant la lettre, que não se intimida com nada e é capaz de ir até os confins do deserto reclamar um pente que um bandoleiro lhe roubou. Ao final, O Tigre e o Dragão justifica seu título, tirado de um ditado chinês que avisa que nem tudo é o que parece. Nem todo filme de artes marciais é entretenimento inconseqüente e, nas mãos de Ang Lee, pode ser até uma verdadeira revelação.

 

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