Memórias
do cárcere
Correspondência
inédita de Luís Carlos
Prestes e Olga
Benario tem um grande
valor histórico e humano

João
Gabriel de Lima
|
| Luís
Carlos Prestes: depois de comandar uma tentativa de insurreição
em 1935, ficou preso e incomunicável durante nove
anos |
Um
dos capítulos mais dramáticos da História
do Brasil deverá vir à luz, na íntegra,
no próximo mês de junho, quando será lançado
o terceiro volume da correspondência completa do líder
comunista Luís Carlos Prestes. O primeiro já
está à venda. O livro, que está sendo
editado pela socióloga Maria Augusta Carneiro Ribeiro,
do Arquivo Público do Rio de Janeiro, trará
as cerca de cinqüenta cartas trocadas entre Prestes e
sua mulher, a militante alemã Olga Benario, na época
em que ambos estiveram presos. O casal foi detido pela polícia
de Getúlio Vargas em março de 1936, por ter
comandado uma tentativa de insurreição no Rio
de Janeiro, no ano anterior. O líder do Partido Comunista
Brasileiro permaneceu praticamente incomunicável durante
nove anos, até se beneficiar de uma anistia em 1945,
quando o Estado Novo de Getúlio Vargas caiu e o país
voltou a ser uma democracia. Olga teve um destino pior. Em
setembro de 1936, foi deportada para a Alemanha nazista. Esteve
presa em Berlim e acabou transferida para o campo de concentração
de Ravensbrück, de onde seria levada a uma câmara
de gás e executada em abril de 1942. Na manga do uniforme
de presidiária, Olga ostentava a Estrela de Davi amarela
e preta que a discriminava como "judia anti-social".
A correspondência entre Olga e Prestes era censurada
nas duas pontas. Olga era obrigada a escrever em alemão,
para que a Gestapo, a polícia política nazista,
pudesse ter acesso ao conteúdo. As cartas seguiam para
Paris, onde a mãe de Prestes, Leocádia, providenciava
versões para o francês e as enviava ao filho,
no Rio. Prestes, por sua vez, escrevia suas cartas em francês.
Elas eram lidas por censores do Estado Novo e só então
remetidas a Paris. Na capital francesa, Leocádia mandava
traduzi-las para o alemão e as endereçava a
Olga que as recebia depois de terem passado pelo crivo
da Gestapo. Um dos aspectos mais interessantes das cartas
é a maneira como o casal consegue falar dos horrores
do cárcere, apesar da censura a que ambos estavam submetidos.
Um dos temas prediletos de Prestes é a solidão,
ele que estava incomunicável. Num dos trechos, diz
que não agüentava mais ler e reler clássicos
da literatura. É uma maneira velada de reclamar do
confisco de seus jornais, que ocorria de tempos em tempos,
deixando-o sem nenhuma informação sobre o que
acontecia no mundo. Olga encontrava maneiras ainda mais oblíquas
de exprimir-se. Numa das cartas, recorda com saudade o período
em que esteve presa no Rio de Janeiro, em meio a colegas de
militância, dando a entender que as condições
da prisão em Berlim eram muito piores. Em outra, já
no campo de concentração de Ravensbrück,
escreve que não tinha tempo para pensar na morte, porque
passava o dia inteiro muito ocupada e, quando ia dormir à
noite, estava cansada demais para ter idéias pessimistas.
Nas entrelinhas, lê-se que estava extenuada pelo trabalho
escravo a que os prisioneiros do nazismo eram submetidos.
O cotejo das correspondências mostra que ambos entendiam
bem as mensagens cifradas.

Trecho
de uma carta de Prestes, em alemão: ele aprendeu o idioma
na cadeia
|
Quando foi deportada para a Alemanha, Olga estava grávida
de sete meses. A filha do casal, Anita Leocádia, nasceu
na prisão, em Berlim. Prestes só viria a conhecê-la
depois de ser libertado, quando ela já estava com 9
anos. Anita, obviamente, é o assunto principal de grande
parte da correspondência. Olga descreve cada novo passo
do desenvolvimento do bebê e recebe conselhos sobre
educação infantil de um pai embevecido. "A imagem
pública de meu pai é a de um sujeito rude, mas
as cartas mostram que ele era acima de tudo um homem amoroso",
diz Anita Leocádia, guardiã da correspondência,
juntamente com a irmã de Prestes, Lygia. O grande temor
de Olga era que a filha fosse parar em outra prisão
nazista. Isso não ocorreu graças à atuação
do advogado Heráclito Sobral Pinto. Representante de
Prestes, ele conseguiu vencer as dificuldades impostas pelo
regime de Vargas e homologar documentos que provavam que o
líder comunista era pai de Anita. De posse dos papéis,
defendeu a tese de que a criança tinha cidadania brasileira
e, assim, deveria ser libertada e entregue à avó.
Sua luta fortalecida por várias manifestações
de protesto organizadas por Leocádia na Europa
foi vitoriosa.
É
também comovente o esforço de Prestes e Olga
para manter a sanidade em ambientes tão desumanos.
No campo de concentração de Ravensbrück,
Olga era líder de um pavilhão e cuidava para
que todas as presas fizessem ginástica e mantivessem
o asseio possível. Já Prestes estudava compulsivamente.
Aprendeu alemão só para poder escrever diretamente
à mulher, sem a necessidade de tradução.
Um episódio curioso, envolvendo livros, tem Sobral
Pinto como protagonista. Quando este se prontificou a defendê-lo,
Prestes rechaçou a idéia, porque ele era um
notório "burguês, católico e liberal".
Influenciado pela mãe, resolveu aceitar o advogado.
Religioso até a medula, Sobral Pinto tentava incluir
obras católicas no cardápio intelectual de Prestes.
Tanto fez que o comunista e ateu militante acabou gostando
de Santo Tomás de Aquino, em quem via, acima de tudo,
"um político de talento, capaz de harmonizar em sua
época as descobertas científicas com o dogma
religioso", segundo escreveu numa carta à mulher.
O episódio da entrega de Olga Benario aos nazistas
é de uma crueldade monstruosa, mas não ímpar.
O ditador soviético Stalin, reverenciado por Prestes,
fez algo parecido, ao jogar nas mãos da Gestapo líderes
comunistas alemães que haviam caído em desgraça
no partido e estavam presos na União Soviética.
Isso ocorreu durante a vigência do pacto de não
agressão Hitler-Stalin, no começo da II Guerra.
No caso de Olga, é especialmente chocante o fato de
sua deportação ter sido cuidadosamente planejada.
Na biografia da militante lançada em 1985, o jornalista
Fernando Morais lembra que ela foi embarcada num navio alemão
fretado, que faria uma viagem sem escalas, para evitar o risco
de que a prisioneira fosse libertada em algum porto francês
ou espanhol. Quando foi informado de que a gravidez de Olga
estava adiantada, o capitão do navio invocou as leis
internacionais de navegação, que não
permitiam a viagem de uma mulher naquele estado. Ainda assim,
viu-se obrigado a levá-la. A deportação
de Olga foi um ato de vingança pessoal de Vargas e
de seu chefe de polícia, Filinto Müller, contra
um adversário político. Por essa razão,
o fato de Prestes ter apoiado Vargas posteriormente causou
um grande constrangimento. Prestes era reconhecidamente pragmático.
Não há, no entanto, pragmatismo político
que justifique que um homem se coloque ao lado do algoz de
sua família.
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Rio
de Janeiro, 22 de junho de 1937
"Agradeço-te
muito as belas descrições que me fazes
das cenas da vida de nossa
pequenina. Cada uma de tuas frases é um pequeno
e belo quadro. Quanto à minha situação,
nossa Mãe, certamente, te manda as informações
possíveis. É sempre a mesma coisa: dormir,
comer e andar no meu cubículo...
Atualmente já tenho alguns livros e com um lápis
passo horas a fazer cálculos, a inventar problemas
etc. Minha biblioteca ainda é bem pobre,
mas o mais triste é que, quando
encontro nos livros alguma coisa digna de nota, tu não
estejas aqui para participar do meu prazer, e o prazer
se perde. Tu me acostumaste bastante mal, minha querida.
Mas tudo
isso mudará. É necessário apenas
fazer o possível para suportar a situação
atual, à espera do dia feliz em que novamente
estejamos juntos."
Karli
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Berlim,
15 de maio de 1937
"Meu
querido, quero falar-te da pequenina
(...) Gostaria que tu visses como sua carinha se ilumina
quando a gente se aproxima dela. O mais alegre são
seus olhos azuis, tão brilhantes e
tão claros, e verdadeiramente "pícaros",
como sempre chamavas os meus. (...) Agora estamos na
primavera em Berlim. A primeira após tanto tempo!
Somente eu a percebo muito pouco. Passeamos todos os
dias uma meia hora no pátio da prisão.
No pátio
há uma árvore e lá no alto uma
família de passarinhos. Eu os olho e,
então, penso sempre em nós. Por que os
homens chegam a separar assim
uma família como o fizeram conosco?"
Olga
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Rio
de Janeiro, 12/10/1937
"Atualmente,
minha querida, leio um livro muito
interessante sobre a Idade Média. Imagina que
o meu advogado, que é um católico
praticante,
é além disso filosoficamente um tomista
convicto e me deu para ler um livro magnífico
sobre Santo Tomás de Aquino. Mas nesse livro
o mais interessante é a parte histórica
sobre a sociedade ocidental no século XIII.
Admiro
também de verdade o esforço intelectual
de Tomás de Aquino para harmonizar em sua época
as descobertas científicas com o dogma religioso.
Parece-me que ele agia, então, mais como
um político de talento do que como um filósofo
ou homem de ciência."
Karli
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