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Rasante trágico

O cantor Herbert Vianna escapa
milagrosamente do acidente que
vitimou sua mulher, Lucy, e agora
luta para manter-se vivo

Ronaldo França e Sérgio Martins


AE

Herbert, com Lucy: juntos havia nove anos, o roqueiro brasileiro e a jornalista inglesa formavam um dos casais mais estáveis do show business nacional


O acidente do cantor Herbert Vianna, do grupo Paralamas do Sucesso, cujo ultraleve caiu no mar na tarde de domingo 4, deixou várias perguntas no ar.

Por que Lucy, a mulher do cantor, morreu afogada no desastre enquanto Herbert, que passou o mesmo tempo sem respirar sob a água, sobreviveu?

Quais as chances de Herbert sair com vida e sem seqüelas do episódio?

A queda foi uma fatalidade ou o cantor, que o pilotava, cometeu uma imprudência ao tentar uma manobra arriscada?

Em relação à primeira questão, chegou a ser publicado na semana passada que Lucy teria sido negligenciada na hora do resgate em favor de Herbert. Essa monstruosidade, claro, não é verdadeira. O que ocorreu, basicamente, é que o músico teve muita sorte. Herbert resistiu por ter tido uma reação reflexa que só ocorre em 20% dos casos de afogamento: o "espasmo glótico". "Sua garganta provavelmente se fechou e bloqueou a entrada dos pulmões. Esse fato evitou que ele morresse afogado", explica o pneumologista João Pantoja, diretor médico do hospital Copa d'Or, no Rio de Janeiro, onde Herbert está internado. Durante cerca de dez minutos os pulmões do líder do Paralamas do Sucesso não tiveram contato com o meio exterior. Ele conseguiu sobreviver graças ao oxigênio que já estava armazenado nos alvéolos. A excelente compleição física de Herbert também ajudou muito a que ele resistisse. "Eu, na mesma situação, teria morrido", avalia o neurologista Paulo Niemeyer, chefe da equipe que cuida de Herbert.

O ar que permaneceu nos alvéolos de Herbert o manteve vivo até ele ser resgatado, mas talvez não tenha sido suficiente para oxigenar devidamente o cérebro. Esse dado, aliado aos traumatismos sofridos na cabeça, desenha um quadro neurológico preocupante. Seu crânio foi aberto duas vezes, uma no próprio dia do acidente, para a instalação de um dreno, e outra na quarta-feira 7, para a retirada de cerca de 5 centímetros de tecido cerebral necrosado. Foi feita também uma cirurgia para reconstituir uma vértebra esmagada, além de uma traqueostomia, para facilitar a respiração do cantor. O risco de vida diminui à proporção que o tempo passa, mas os médicos admitem que as chances de Herbert sair do hospital plenamente recuperado são remotas. "É provável que ele apresente dificuldades motoras graves nas pernas. A paraplegia não está descartada", avalia Paulo Niemeyer. Quanto à possibilidade de as lesões cerebrais interferirem em sua capacidade de julgamento e de percepção da realidade, os médicos não arriscam uma opinião. "Tudo que podemos dizer é que, quando sair do coma, Herbert não deverá estar inteiramente lúcido. Mas poderá resgatar a lucidez com o tempo", prognostica Niemeyer (veja quadro)

Sobre a responsabilidade do cantor no acidente, é importante rememorar detalhes da tragédia, que se desenrolou sob os olhos de amigos reunidos na casa de praia do músico Dado Villa-Lobos, no município fluminense de Mangaratiba. Eles comemoravam o aniversário da mulher do ex-guitarrista do Legião Urbana, Fernanda, quando ouviram o barulho do ultraleve de Herbert. Foram até a varanda para ver a chegada. A descrição das testemunhas é a seguinte: o cantor veio pelo lado esquerdo de quem estava olhando para o mar, deu um rasante sobre a água e depois virou à esquerda, ganhando altura e passando sobre a casa. Nesse ponto, realizou uma curva para retornar à praia, descendo num novo rasante. Quando se preparava para virar à direita, na direção da pista de pouso do empresário João Borges, onde faria a aterrissagem, o avião perdeu altura e se precipitou no mar (veja quadro). Técnicos do Clube Esportivo de Ultraleve do Rio de Janeiro (CEU) e do Departamento de Aviação Civil (DAC) acreditam que Herbert, que pilotava ultraleves há três anos e tinha brevê para dirigir esse tipo de aeronave, foi vítima de um erro que pode ocorrer até com pilotos experimentados. Quando se sobrevoa o mar, é difícil avaliar a altura que separa o avião do espelho-d'água. Nessa hipótese, Herbert poderia ter calculado mal o horizonte, deixando de perceber, em seu segundo rasante, que havia descido além da conta. Estima-se que tenha chegado a apenas 3 metros da superfície do mar, quando perdeu o controle do aparelho e caiu.

Estatística sombria – Por que ele perdeu o controle? É impossível dar uma resposta segura a essa pergunta sem o depoimento do próprio Herbert. Os técnicos que examinam o acidente, no entanto, levantam a hipótese de que o modelo do ultraleve pode ter algo a ver com o resultado da manobra. Herbert estava pilotando uma aeronave mais complexa que as que estava acostumado a conduzir. O Fascination D-4BR, que comprara por 40.000 dólares em dezembro do ano passado, é um ultraleve de última geração. Fabricado na Alemanha e montado pela companhia cearense Ultraleger, pode atingir a velocidade de 270 quilômetros por hora em vôo reto, enquanto um ultraleve comum chega a cerca de 100 quilômetros. Em rasantes como o que causou a tragédia, ele pode ultrapassar essa velocidade. O Fascination é quase um avião monomotor – tanto que em alguns países, como os Estados Unidos, ele é considerado não um mero ultraleve, mas uma aeronave de pequeno porte, sujeita às leis da Aeronáutica. Tido como um bom piloto de ultraleves tradicionais, Herbert tinha cinqüenta horas de vôo no comando de um Fascination. Não é pouco para a realização de trajetos normais, mas constitui um tempo insuficiente para que alguém arrisque manobras mais complexas.

 
Paulo Jares

O cantor, com Lucy e os filhos: família extremamente unida, carreira sólida e distância do estereótipo de roqueiro rebelde

Herbert não precisava ter feito o "oito", com dois rasantes e duas curvas fechadas. Poderia ter seguido reto até a pista de aterrissagem. Provavelmente, avaliou que poderia realizar com o Fascination a mesma manobra que completava com destreza a bordo de seu ultraleve antigo. Esse pode ter sido seu grande erro. "Tenho certeza de que se ele estivesse pilotando uma aeronave menos complexa realizaria as curvas fechadas sem nenhum problema", avalia César Nepomuceno, presidente do CEU. O Fascination D-4BR é um produto novo no mercado nacional e já carrega uma estatística sombria. Até hoje, seis modelos foram vendidos no país. Desses, dois caíram. Em novembro do ano passado, um modelo idêntico ao de Herbert foi ao chão na Paraíba, matando seus dois ocupantes.

O desastre interrompeu por tempo indeterminado uma das mais sólidas carreiras da música pop brasileira. Entre os pioneiros do rock nacional, os Paralamas de Herbert, ao lado dos Titãs, são os únicos a ainda fazer parte do primeiro time da música jovem. Cazuza e Renato Russo, o líder do Legião Urbana, foram vitimados pela Aids. Outros grupos que estouraram nos anos 80, como RPM e Blitz, não estão mais na ativa. Os Paralamas do Sucesso, ao contrário, têm uma carreira marcada pela longevidade. Até o acidente, faziam uma média de quinze shows por mês, cobrando um cachê de 40.000 reais. Ultimamente, o grupo, que já vendeu 5 milhões de discos, vivia mais dos sucessos do passado que de músicas novas. O grosso do repows era composto de canções como Alagados, Óculos ou Meu Erro, hits que embalaram a geração que viveu a adolescência nos anos 80. Sucessos antigos compunham também grande parte do CD Acústico, o maior êxito recente da banda, que atingiu a respeitável marca de 420.000 cópias vendidas.

Herbert Vianna destoa do estereótipo do roqueiro rebelde. Não é polêmico, raramente opina sobre política, curte a família, tinha um casamento estável com a inglesa Lucy, não é consumidor compulsivo de drogas. Sua única mania eram os ultraleves, com um dos quais já havia sido obrigado a fazer um pouso forçado, dois anos atrás. Ele herdou a paixão por aviões do pai, Hermano, brigadeiro reformado da Aeronáutica. O cantor é um pai presente e amoroso. Antes do acidente, passava a maior parte do tempo livre com a família, em um sítio em Vargem Grande, Zona Oeste do Rio de Janeiro, avaliado em 1 milhão de reais. Herbert tem três filhos – Luca, de 8 anos, Hope, de 5, e Phoebe, de 1. Quando recebeu a notícia, Luca, o mais velho, disse que gostaria de ter uma máquina do tempo para trazer a mãe de volta. Herbert transitava livremente por várias vertentes da música brasileira. Seu mais recente CD-solo, O Som do Sim, trazia duetos com artistas muito diferentes entre si, como Nana Caymmi, Cássia Eller e Fernanda Abreu. Vários deles vêm marcando presença nos corredores do hospital Copa D'Or.

 
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  Parentes e amigos mais próximos já podem visitar o músico no CTI

 

 

Um oito fatal

Ao sobrevoar a casa de Dado Villa-Lobos, perto de Mangaratiba, litoral sul do Rio de Janeiro, Herbert Vianna tentou fazer duas curvas fechadas e dois rasantes.

A primeira parte da manobra deu certo. Na segunda, porém, ele falhou. Perdeu a noção do horizonte e desceu a cerca de 3 metros do espelho-d'água. Ao realizar a curva, não conseguiu controlar o ultraleve e caiu. O modelo que pilotava, um alemão Fascination montado no Ceará, desenvolve mais que o dobro da velocidade de um ultraleve comum, como os que Herbert estava acostumado a conduzir. Pode chegar a 270 quilômetros por hora em vôo reto. É possível que o músico estivesse a uma velocidade ainda mais alta quando deu o rasante que provocou o desastre.

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