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A bola da vez

Empréstimos a Eurico e a Parreira fazem
do empresário
de Ronaldinho o novo alvo
da CPI

Marcelo Carneiro

Selmy Yassuda
Reinaldo Pitta: de lateral medíocre a procurador de 100 jogadores

Em 1990, o gerente de banco Reinaldo Menezes da Rocha Pitta tropeçou em um diamante bruto. Ex-lateral-esquerdo medíocre, já não alimentava muitos sonhos com o futebol quando atendeu ao pedido de um amigo e pagou 7.500 dólares pelo passe de um atacante dentuço e magricela. Hoje, o craque Ronaldinho vale pelo menos 60 milhões de dólares e o ex-lateral virou um empresário de sucesso, administrando a carreira de mais de 100 atletas. Rico e discreto, Pitta percorreu essa trajetória tentando manter-se à margem da fama mundial que ajudou a construir para seu pupilo. Não freqüenta festas badaladas e evita até mesmo ser fotografado ao lado de Ronaldinho. O doce anonimato teve fim na semana passada. Tão reservado com a própria imagem, Pitta deixou-se flagrar em companhia do cartola-confusão Eurico Miranda, uma usina de problemas. Na quarta-feira veio a público que o dirigente do Vasco obteve em 1999 um empréstimo de 430.000 reais do empresário. Quatro dias antes, uma reportagem do Jornal Nacional havia revelado que, no mesmo período, Eurico adquiriu nos Estados Unidos, por intermédio de uma empresa com sede em paraíso fiscal, uma mansão de quase 1 milhão de reais. Da noite para o dia, Reinaldo Pitta passou a ser a bola da vez na CPI do futebol.


Alexandre Sant'Anna/Strana
Ronaldinho: comprado por 7 500 dólares, hoje vale 60 milhões


A CPI já conseguiu deixar o técnico Wanderley Luxemburgo em maus lençóis ao revelar que mais de 10 milhões de reais passaram por suas contas bancárias sem conhecimento da Receita Federal. Suspeita-se que o ex-treinador da seleção brasileira tenha ganho comissões, pagas por cartolas e empresários, na venda de jogadores para os clubes em que trabalhou. Os senadores também fizeram barulho suficiente para ameaçar o mandato de deputado federal do dirigente Eurico Miranda, que luta contra uma perda de imunidade parlamentar cada vez mais iminente. Faltava um empresário de peso para fechar a teia de relações que faz do futebol brasileiro um lodaçal de armações à margem da lei, especialmente no que diz respeito à compra e venda de jogadores. A principal suspeita da CPI é a de que cartolas, técnicos e procuradores transformaram os grandes clubes do país em um balcão de negócios. E o empréstimo de Reinaldo Pitta a Eurico é, até o momento, o principal indício de que há promiscuidade nessa relação.

Na semana passada, VEJA descobriu que Pitta também manteve transações comerciais com o ex-técnico da seleção brasileira Carlos Alberto Parreira. Pitta declarou em seu imposto de renda ter emprestado 50.000 reais a Parreira, em 1998. Os dois são amigos há quase quinze anos e vizinhos em um condomínio chique de Angra dos Reis, coincidentemente o mesmo em que Eurico mantém outra mansão. Parreira é, reconhecidamente, um dos profissionais mais respeitados no país. "Foi uma ajuda a um amigo", disse Pitta a VEJA, sem detalhar a razão do empréstimo. Em favor de Parreira, que confirmou o negócio, pode-se dizer que, naquele período, o treinador não trabalhava no Brasil. No início de 1998, o técnico dirigia o MetroStars, um time dos Estados Unidos. Logo depois, foi convidado a comandar a seleção da Arábia Saudita. "Esse dinheiro não tem nada a ver com comissão na venda de jogadores", assegura Parreira.

Selmy Yassuda
Eurico: empréstimo de 430 000 reais e mansão no exterior


Mesmo com as explicações, é praticamente impossível que Reinaldo Pitta escape de um depoimento na CPI para explicar esses empréstimos que andou fazendo, além de algumas operações de vendas de jogadores brasileiros ao exterior efetuadas por sua empresa, a Gortin Promoções. Será um martírio para ele. Aos 48 anos, Pitta era até a descoberta da CPI uma espécie de versão empresarial dos craques brasileiros que driblam a pobreza para virar astros da bola. Filho de um feirante e criado numa favela do Rio de Janeiro, hoje se veste com roupas de grife, mora em um belo apartamento de frente para o mar de São Conrado, um dos pedaços mais valorizados da orla carioca, e tem um BMW e um Audi na garagem. Viaja freqüentemente para a Europa, quase sempre a trabalho, e adora saborear ostras em restaurantes franceses. O descobridor de Ronaldinho terá de trocar esses ares pelo ambiente insalubre da CPI. Porém, parece não temer a devassa: "Ninguém no futebol é santo, mas eu garanto que sou honesto".

 

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