Uma espécie
a menos
Sumiu
a última ararinha-azul em liberdade.
Só
por um milagre ela seria reencontrada viva
Leonardo Coutinho, de Curaçá
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| A
ararinha-azul macho de Curaçá: fim de dez anos de tentativas
para evitar a extinção |
Olhe
bem para a foto ao lado. Ela pode ser um dos derradeiros registros
de uma ararinha-azul na caatinga do sertão da Bahia.
Faz quatro meses que a ave da foto, a última ararinha-azul
em liberdade, desapareceu da vista dos pesquisadores que havia
dez anos tentavam evitar a extinção de mais
uma espécie brasileira. Não há praticamente
chance de reencontrá-la.
Desde que se tornou o único exemplar em ambiente selvagem,
esse pássaro macho de quase 20 anos liderava solitariamente
a lista das espécies mais ameaçadas do planeta.
De 1990 até desaparecer, em outubro do ano passado,
era vigiado por cientistas do Comitê Permanente para
Recuperação da Ararinha-Azul e por voluntários
de Curaçá, a 600 quilômetros de Salvador.
Muitos dos 25.000 habitantes da
cidade nunca o viram, mas todo mundo diz que ele se tornou
o morador mais ilustre da região. O azul-celeste de
suas penas inspirou a pintura da prefeitura e do teatro, seu
nome foi dado à escola municipal e sua imagem virou
símbolo da cidade. "Bem-vindo a Curaçá,
a cidade da ararinha-azul", saúda a placa na beira
da estrada. Até a bandeira do município se tornou
um ninho com os contornos da ave.
Tecnicamente,
o esforço que ainda se faz para encontrar a ararinha
parece ser em vão. Nunca ela se afastou por tanto tempo
de seu roteiro habitual. Mas os cientistas ainda não
desistiram. Nem bem o sol aparece e as biólogas Ana
Cristina Menezes e Ana Cláudia Fandi saem em busca
do exemplar hoje considerado o mais raro do mundo em sua categoria.
Passam dez horas por dia procurando pistas do animal. Caminham
dezenas de quilômetros entre as árvores espinhentas
da caatinga, pelas encostas e riachos, revisitando cada lugar
onde a ave era vista. Usam um jipe apenas para os deslocamentos
da cidade até as comunidades rurais, onde ficam hospedadas
nas casas dos sertanejos. Nas buscas propriamente ditas, vão
a pé. Seguem os relatos e os boatos de quem diz ter
visto o bicho pela última vez. "Traçamos uma
rota com base nas informações dos sertanejos",
explica Ana Cláudia.
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| Formigueiro-de-cabeça-negra:
reencontrado no Rio depois de um século de desaparecimento |
As
duas Anas fazem sua caçada de sucesso improvável
numa área equivalente a quatro cidades de São
Paulo. A missão poderia ser diferente se, anos atrás,
os cientistas tivessem vencido o medo de matar a ararinha
do coração e capturado a ave para pregar em
seu corpo um aparelho emissor de sinais de rádio. "Um
animal tão raro não podia ser monitorado apenas
com os olhos", critica o superintendente da Fundação
Biodiversitas, o biólogo Ilmar Bastos Santos, responsável
pela redescoberta do tatu-bola e do ouriço-preto na
natureza. Embora existam casos de espécies que deixaram
de ser vistas por mais de um século como o do
formigueiro-de-cabeça-negra, pássaro reencontrado
há quatro anos no litoral do Rio de Janeiro ,
nada indica que as ararinhas possam tornar-se um desses exemplos.
Se o animal de Curaçá tivesse um radiotransmissor,
agora se saberia pelo menos a causa de seu desaparecimento.
Havia três ararinhas-azuis na região em 1985,
quando a espécie então considerada extinta
foi redescoberta pelo ornitólogo suíço
Paul Roth. Antes que se tomasse alguma providência para
preservá-las, traficantes de aves sumiram com duas.
A que sobrou começou a ser monitorada pelo Ibama cinco
anos depois. Sem parceira de sua espécie, o macho vivia
um romance inter-racial havia quase oito anos com uma maracanã
um papagaio típico da região. Por serem
de espécies diferentes, os ovos da maracanã
eram infecundos. Em 1995, esse amor insólito derrotou
uma tentativa de introduzir na área uma ararinha fêmea
até então criada em cativeiro. Após dois
meses, a candidata a noiva encontrou o macho e sua namorada
verde. Houve uma aproximação, ele chegou a abandonar
a maracanã. Mas o instinto monogâmico do macho
reapareceu quando reencontrou por acaso a antiga parceira.
Desprezada, a ararinha fêmea se afastou. Poucos dias
depois foi encontrada morta, sob os fios de uma rede de alta-tensão.
Planejava-se agora substituir ovos da maracanã pelos
de ararinhas-azuis criadas em zoológicos. Em 1999,
os ovos estéreis foram trocados por ovos fecundados
de maracanã e o casal se mostrou apto a criar os filhotes.
"Por muito pouco não conseguimos", lamenta Ana Cristina.
Pelos critérios dos cientistas, apesar de existirem
mais de sessenta ararinhas-azuis em cativeiro, o desaparecimento
representa o fim da memória selvagem de toda a espécie.
Geneticamente, a ararinha não morreu. Mas jamais será
possível recriar os hábitos do animal em liberdade.
"Do
ponto de vista do comportamento, os bichos em cativeiro têm
a mesma importância de um animal empalhado", ensina
o ornitólogo e professor da Universidade Estadual de
Campinas (Unicamp) Jacques Vielliard. Existem planos de soltar
na região de Curaçá cinco exemplares
de ararinhas-azuis nascidas em cativeiro nas Filipinas. Elas
ficarão, antes, em um imenso viveiro e deverão
aprender a sobreviver na área. Mas, mesmo que a experiência
seja um sucesso, os pesquisadores não acham que terão
recuperado totalmente a espécie.
"Embora
se registrem relativamente poucas extinções
nas últimas décadas, cresce muito o número
de espécies ameaçadas", alerta Vielliard. No
Brasil, estão em risco algumas centenas de animais,
como o macaco guariba-da-mão-ruiva e o tatu-canastra,
do qual nem há estimativa sobre quantos restam na natureza.
Para as aves, o pior inimigo é o homem. A ararinha-azul
tinha como predadores gaviões, gambás e alguns
roedores que violavam seus ninhos, mas seu maior vilão
foram os caçadores. A venda ilegal de animais silvestres
movimenta 10 bilhões de dólares por ano no mundo.
E, no Brasil, ainda impera a lei da selva nesse assunto, apesar
dos esforços dos ambientalistas oficiais e de entidades
privadas.
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