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O negócio da malhação

O mercado das academias de ginástica
cresce, sofistica-se e já atrai investidores
profissionais

 
Claudio Rossi
Investimento em tecnologia e conforto: tendência do mercado é a criação de redes com várias unidades

No começo da década de 80, o estudante paulista José Otávio Marfará veio de uma temporada nos Estados Unidos com uma idéia na cabeça: abrir uma academia de ginástica. Para levantar capital, vendeu a moto e um apartamento de dois quartos. Também convenceu o amigo Mário Sérgio Luz Moreira da viabilidade do negócio, que na época parecia coisa de rapazes um tanto perdidos na vida. Moreira entrou com um terreno onde já existiam três quadras de tênis e dinheiro emprestado do pai. O investimento, equivalente hoje a 500.000 reais, foi usado para reformar as quadras e comprar vinte bicicletas ergométricas, além de um solitário aparelho de musculação. Ao inaugurarem a primeira academia com aulas conjuntas para homens e mulheres, os dois sócios começaram um negócio que cresceu vertiginosamente país afora, atingindo um faturamento total de 1,2 bilhão de reais no ano passado. Hoje, há 4.800 academias de ginástica cadastradas na associação nacional que representa o setor. Mas estima-se que exista o dobro. Academia de ginástica não é mais um pequeno comércio que se abre com ajuda paterna. O negócio atrai grandes empresários, fundos de investimentos e, agora, redes multinacionais que estão a um passo de fincar o pé no atraente mercado brasileiro.

Nos últimos cinco meses, começaram a funcionar mais quatro superacademias em São Paulo e no Rio de Janeiro. Em cada uma delas o investimento oscilou entre 5 e 8 milhões de reais. Nesta semana, a Fórmula inaugura sua segunda unidade em São Paulo, com equipamentos que apresentam num monitor o programa de treinamento personalizado para cada aluno e um solário com cascatas. Em março, a Companhia Athletica abre em Belém do Pará sua oitava academia, um clube com 7.000 metros quadrados. A carioca Estação do Corpo, do empresário Ricardo Amaral, está terminando as obras da primeira filial, um investimento de 9 milhões de reais.

E o negócio iniciado por Moreira e Marfará há dezoito anos? Os dois sócios paulistas se separaram, mas a modesta academia inicial, a Runner, transformou-se numa rede com nove unidades e faturamento anual de 30 milhões de reais. No final do ano passado, virou uma companhia de capital aberto e recebeu o aporte financeiro de um fundo de investimentos. "Precisamos de investimento para atingir a meta de estar entre as dez maiores redes do mundo até 2006", diz Moreira. O desafio é ambicioso: a décima empresa no ranking mundial das redes de academias é a Fitness First, com 125 unidades. A primeira é a americana Gold's Gym, com 550. Marfará, que vendeu a moto e o apartamento para se aventurar num novo negócio, saiu da Runner há dois anos. Em outubro, inaugurou o Reebok Sports Club. Dois investidores, empresários de outras áreas, colocaram no projeto 8 milhões de reais. Aguardam o retorno do investimento em quatro anos e esperam um lucro de 25% sobre o faturamento. Em três anos, Marfará pretende estar à frente de outras quatro academias. "Tem muito investidor interessado", diz ele, que já foi sondado por duas multinacionais, a 24 Hours Fitness e a Bally Total Fitness, que, juntas, contam com mais de 800 academias.


Ponto de encontro – Os americanos procuram mercados estrangeiros porque, embora montados num negócio fabuloso (10,6 bilhões de dólares de faturamento anual, 63% de crescimento em sete anos), têm um potencial de expansão menor que o de países como o Brasil, onde a demanda explode. "O setor cresce porque o negócio tem rentabilidade boa e todo mundo precisa do produto", analisa Luiz Fernando Cesario, da consultoria Fitness Solutions. As academias já não atendem apenas malhadores. Hoje sua proposta é vender bem-estar físico, emocional e até social. Para isso, transformaram-se numa mistura de clube, shopping center e clínica médica. "Academia é um fenômeno socioafetivo", diz o consultor Fabio Saba. "É um bar onde não se pode beber nem fumar. As pessoas vão para se encontrar." A ampliação dos limites expandiu a clientela, com o acréscimo de gordos, fracotes, sedentários, velhos e crianças. Nos Estados Unidos, em 1987, os alunos com menos de 18 anos e mais de 55 representavam 17% do público das academias. Atualmente são quase 30%. Nesse mesmo período, o grupo majoritário deixou de ser o de jovens entre 18 e 34 anos. Agora a maioria é dos tios e tias entre 35 e 54 anos. A tendência se repete aqui. Na Runner, por exemplo, há três anos menos de 1% dos alunos tinha mais de 60 anos – uma faixa etária que no passado evocava juntas emperradas e achaques variados em lugar de coroas enxutos e preocupados com a saúde. Hoje são mais de 5%.


Claudio Rossi
DJ ao vivo para animar as aulas de ginástica: festa para os extrovertidos


Para agradar a todos os segmentos, a paulista Bio Ritmo montou em uma de suas unidades três salas de musculação diferenciadas. Uma é fechada, tem mais professores e atrai os principiantes e os tímidos. Os mais agitados malham numa sala com música alta, comandada à noite por um DJ ao vivo, criando um clima de festa. A terceira é mais silenciosa e as TVs sintonizam telejornais. A Body Planet, no Rio, pretende explorar a linha zen, oferecendo cursos de meditação e esoterismo. Inaugurada em setembro, já com 1.100 alunos pré-inscritos, a Body Planet vai abrir mais duas filiais neste ano.

Nas grandes academias, alta tecnologia em aparelhagem já é pré-requisito, não diferencial. Para fazer a diferença agora, capricha-se nas instalações e na oferta de serviços. Já é comum academia com sofás, computadores conectados à internet, sauna, cabeleireiro, massagem, butique e restaurante. "Conforto ambiental é o que segura o aluno", afirma Maneco Carrano, da Fórmula, a academia que tem solário com cascatas sobre parede de pedras. No Reebok Sports Club, o manobrista recepciona o aluno pelo nome. O sistema de informática que interliga todos os departamentos permite ver o nome e a foto do aluno no computador assim que o número da chapa do carro é digitado. Na carioca Body Planet, o teto da piscina semi-olímpica tem filtro solar.

A sofisticação do business da malhação já produziu até um tipo de atividade bastante singular: a venda de aulas de ginástica prontas. A Les Mills, empresa da Nova Zelândia, é o maior sucesso nessa área. Seus modelos de aulas são aplicados em 6.000 academias distribuídas por 42 países. No Brasil, onde é representada pela Body Systems, tem 720 clientes, que pagam mensalidades para que seus professores sejam treinados e ofereçam as atividades da marca aos alunos. As aulas são pré-coreografadas, com tudo previamente planejado, testado e comprovado. Nas aulas de body pump, por exemplo, em que os alunos passam uma hora levantando e abaixando barras com pesos nas pontas (anilhas), o roteiro é rígido: os movimentos, o número de repetições, o ritmo e os intervalos foram planejados para que o aluno gaste cerca de 400 calorias por aula e ganhe rigidez muscular no peito, nas costas, braços, abdome, glúteos e pernas.

Laboratório de aulas – A necessidade de novidades, tecnologia e serviços do mundo da malhação profissional também alimenta um mercado complementar. São empresas que fazem programas de computador para avaliação física e gerenciamento do negócio; fabricantes de pesos, colchonetes e caneleiras, até produtores de CDs com músicas próprias para animar as salas de aula. O mercado de equipamentos movimenta cerca de 300 milhões de reais por ano. As grandes marcas internacionais de artigos esportivos perceberam há tempos o filão dos adeptos da malhação e investem cada vez mais na área. A Reebok mantém uma universidade nos Estados Unidos, com a função de criar, formatar e testar novas modalidades de exercícios. O step, aula feita sobre plataforma da altura de um degrau, que virou moda nos anos 90, saiu de seus laboratórios. A Reebok não vendeu a técnica nem cobrou pelo treinamento de professores no mundo todo. O lucro veio do licenciamento de equipamentos e da venda de roupas, tênis e acessórios especiais para a prática do step. Em abril, ela lança mundialmente uma nova modalidade de ginástica aeróbica, o core, em que os exercícios também são feitos sobre uma pequena plataforma, desta vez redonda e flexível. Dev no negócio sempre quente das academias.

 



Fotos Claudio Larangeira/Rosa Gauditano/Renato Chauí/Claudio Rossi

 

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