Havana
na Bahia
Os
sons do Caribe arrematam o
cenário cubano de Salvador

Leonardo
Coutinho, de Salvador
Claudio Edinger

Um
terreiro em Salvador? Não. Uma santería
em Cuba. No alto (à dir.), foto de Che Guevara
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Ouvir
música caribenha ocupando uma mesa num bar tipicamente
cubano. Mas não no tradicional La Bodeguita del Medio,
em Havana. No Varadero, em Salvador. Era só isso o
que faltava para arrematar a interminável lista de
semelhanças entre a capital da Bahia e a principal
cidade da ilha de Fidel Castro. Cinco casas de espetáculos
de Salvador já adaptaram seu cardápio musical
a uma maré de melodias cubanas. O bar inspirado no
mais famoso boteco de Cuba, inaugurado há três
meses, serve bebidas e pratos típicos daquele país.
Há poucas semanas saiu de cartaz na capital baiana,
depois de quatro meses de cinemas lotados, o documentário
sobre os velhinhos milongueiros do Buena Vista Social Club.
Nos cenários da velha Havana, visíveis no filme,
os soteropolitanos puderam encontrar um espelho de sua própria
cidade.
Enquanto a rumba, o merengue e a salsa embalam as noites da
Bahia, encontram-se nas ruas de Havana as mais legítimas
baianas cobrando alguns tostões para posar ao
lado dos turistas. O charuto, todo mundo sabe, é um
dos produtos mais marcantes de Cuba. Mas alguns dos mais fortes
e característicos, os Alonso Menendez, feitos artesanalmente
em São Gonçalo dos Campos, podem ser comprados
em qualquer charutaria de Salvador. Essa cidade fica na Bahia,
mas o produto que se compra na capital tem uma grife com toda
a autenticidade cubana. O fabricante dos charutos, Félix
Menendez, é descendente dos donos originais da famosa
fábrica de charutos Monte Cristo, estatizada em 1960
por Fidel.
"Os
laços entre Salvador e Havana vão muito além
de detalhes culturais", diz o conselheiro da Embaixada de
Cuba no Brasil, Sérgio Cervantes. "As duas cidades
são ligadas por traços genéticos." Pesquisas
realizadas na ilha demonstram que os negros traficados da
África para o trabalho escravo no Brasil e em Cuba
procediam muitas vezes das mesmas aldeias. Parte dos 450.000
escravos levados para Cuba era originária da África
Ocidental, a mesma região de onde saíram os
negros que aportaram na Bahia. Há, muito provavelmente,
até famílias que tiveram alguns de seus integrantes
levados para lá e outros trazidos para cá. Em
ambas as cidades, cerca de 80% dos moradores são negros
e cada uma tem cerca de 2,5 milhões de habitantes.
Apenas trinta anos mais jovem que Havana, Salvador cresceu
impulsionada pelos engenhos de açúcar e pela
produção de fumo. A capital de Cuba, idem. No
século XVIII, os portos das duas cidades estavam entre
os mais importantes do continente.
Se a forma de colonização foi a mesma, não
é por acaso que as semelhanças se multiplicam.
No Brasil, os negros sincretizaram suas religiões com
o catolicismo, assim como aconteceu em Cuba. A santería
é a versão antilhana do candomblé
e nela se cultuam os mesmos orixás adorados em qualquer
terreiro baiano. Num e noutro, há mães e pais-de-santo,
jogo de búzios e mandingas coincidentes. "Caminhar
por vários pontos de Havana é como passear pela
capital da Bahia", constata o arquiteto Francisco Soares Senna,
presidente da Fundação Gregório de Mattos,
em Salvador. "As cores e as pessoas se parecem." Se algumas
características permaneceram distintas ao longo dos
séculos, a globalização está tratando
agora de aplainá-las também. Cuba enfrenta o
bloqueio americano, mas a exploração do turismo
fez transbordar para o mundo alguns de seus aspectos culturais.
A música é um desses casos. Em 1983, o compositor
cubófilo Gerônimo, de 47 anos, gravou na Bahia
discos em que tentava tirar os ritmos cubanos da obscuridade.
"A música tinha fama de brega", ele recorda. "De três
anos para cá, virou moda." Uma das casas de shows recém-inauguradas
em Salvador tem lugar para 1.500
pessoas. Está sempre lotada. Um dos pais do axé,
o compositor Jorge Zárath, autor de letras cantadas
por Daniela Mercury e pelo grupo É o Tchan!, migrou
para a salsa. Ele fica bravo quando dizem que está
abandonando suas raízes. Um pouco porque é uruguaio,
sem raiz cubana ou baiana, mas muito porque acha que a salsa
é um passo em direção às origens
do próprio axé, só que em espanhol.
Saiu no jornal inglês The Sunday Times a notícia
de que Salvador está se transformando, para os britânicos,
no destino turístico que tomará o lugar de Havana,
para onde se registrou uma febre de excursões de ingleses
nos últimos anos. Somente neste verão, 832.000
turistas vão passar pela capital baiana. Quem vê
semelhanças entre Varadero e Costa do Sauípe
está enxergando tão bem quanto os grupos hoteleiros
internacionais que despejaram dinheiro nos dois lugares. Há,
claro, a diferença gritante entre a ditadura decadente
de Fidel Castro e a democracia brasileira. Em Havana não
há imprensa livre, é vedada a manifestação
do pensamento, existem prisioneiros políticos e se
tornaram célebres os processos penais que terminaram
com o fuzilamento de quem desagradou ao regime. Enfim, a diferença
é muito grande. Mas será que não dá
para arriscar uma ligeira semelhança de autoridade
indisputada em casa entre Fidel e o senador Antonio Carlos
Magalhães?
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