Paraísos
em alto-mar
Verdadeiras
mansões no oceano, as ilhas
particulares brasileiras chegam a valer
16 milhões de reais
Daniela
Pinheiro
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| A
ilha de Marcelo Pessoa em Salvador: o banco de areia virou
uma propriedade cinematográfica no meio do oceano |
O
empresário carioca Alexandre Accioly, 36 anos, é
um homem muito rico. Há alguns anos, vendeu sua empresa
de telemarketing, a Quatro/A, e embolsou o equivalente a 120
milhões de reais. Accioly já tem barco, aluga
jatinhos quando necessário, anda de helicóptero
sempre que precisa, mas agora decidiu que vai comprar uma
ilha. Uma das propriedades vistoriadas por Accioly foi a Ilha
Pequena, em Angra dos Reis. Ela pertence ao empresário
João Hansen, dono da fábrica de tubos e conexões
Tigre. Com 10.000 metros quadrados,
o local está à venda por 8 milhões de
reais. Tem oito suítes, heliponto, salão de
festas, duas saunas e duas piscinas uma delas com hidromassagem.
Accioly gostou do que viu, mas só vai decidir pela
compra depois de visitar outras propriedades. "Nos dias de
hoje, só um lugar desses oferece ao mesmo tempo tranqüilidade
e segurança", justifica.
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clique
nas imagens para ampiá-las
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Oscar Cabral
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| A
Ilha do Capítulo, em Angra: dez empregados durante
o ano inteiro |
O litoral brasileiro possui centenas ou talvez milhares de
ilhas e ilhotas, mas as pessoas realmente ricas ocupam algo
como cinqüenta delas, principalmente no litoral da Bahia,
do Rio de Janeiro e de São Paulo. Nessa seleção,
não entram ilhas avaliadas em menos de 3 milhões
de reais e há algumas cujo valor de mercado estimado
por corretores pode bater os 16 milhões. No mundo das
ilhas caixa-alta são comuns suítes do tamanho
de um apartamento de três ou quatro quartos, helipontos,
pista de pouso para avião, piscina aquecida, frota
de lanchas e sala de cinema. Nesse universo há até
o caso espetacular do empresário que, em vez de comprar
sua ilha, resolveu construí-la.
O
baiano Marcelo Pessoa, incorporador e presidente de uma empresa
especializada em montar pequenas centrais hidrelétricas,
possui uma das menores ilhas do país. Tem apenas 4.000
metros quadrados e resume-se a sua casa e à imensa
área de lazer, cenário da festa de casamento
de Carolina, neta de Antonio Carlos Magalhães, ocorrida
em julho do ano passado. Apesar do tamanho, o lugar é
um espetáculo digno do Taiti. Ali há cinco suítes,
sauna, heliponto, duas salas de jantar e uma fonte italiana
em sua entrada. A construção da casa levou mais
de três anos. Todo material veio de balsa, numa empreitada
que durava até doze horas por dia. Curiosamente, Pessoa
não desembolsou um tostão sequer pela ilha localizada
nas cercanias de Salvador. Até porque não havia
ali propriamente uma ilha. O que existia era apenas um pequeno
banco de areia, sem árvore alguma, sempre ameaçado
de inundação, pelo qual ninguém se interessava.
Pessoa diz ter conseguido (de graça) da União
o direito de ocupar o local. Logo depois, contratou uma empreiteira
e construiu barragens de pedra por toda a ilha, que não
tem mais perigo de ser engolida pelas águas.
| Fotos Claudio Rossi |
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| A
paradisíaca Ilha das Canas: mobiliário da
Tailândia, complexo de chalés e frota de
22 embarcações |
No
caso das propriedades mais caras, mais adequado do que chamá-las
de ilhas é tratá-las por aquilo que realmente
são: resorts particulares. A Ilha do Capítulo,
localizada em Angra dos Reis, é um desses resorts.
Avaliada em 16 milhões de reais pelos corretores da
região, é considerada a melhor ilha do país.
Ela pertence ao empresário português João
Pereira Coutinho, que tem negócios no ramo de automóveis,
um banco e uma incorporadora imobiliária na Europa.
Do alto, por causa da mata nativa, pouco se vê da estrutura
que ali foi construída. Só o bangalô-suíte
reservado a Coutinho e sua mulher tem dois andares e 300 metros
quadrados. Apesar de vir ao Brasil apenas três vezes
ao ano, o empresário português mantém
por ali dez empregados que cuidam da manutenção
do lugar o ano inteiro. Aficionado de cinema, mandou construir
uma sala climatizada para dez pessoas. Também há
uma pista de cooper contornando a propriedade.
Outra ilha padrão resort fica próxima a Salvador
e pertence a Jorge Erisperger, ex-sócio do Banco Garantia.
Após a venda do banco, o executivo entrou em quarentena
e resolveu aproveitar a vida. Virou velejador e "fez" da Ilha
das Canas um lugar de tirar o fôlego. Toda a decoração
remete à Tailândia. A maioria dos móveis
veio direto da Indonésia. Há um complexo de
chalés-suítes espalhados por toda a ilha e embaixo
do bangalô de 500 metros quadrados, feito com toras
de eucalipto trazidas do sul do país, Erisperger pode
avistar uma parte de sua assombrosa frota de embarcações:
22 no total. Os funcionários da ilha andam impecáveis
em uniformes brancos, boina e coletes azuis.
| Fotos Oscar Cabral |
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| A
propriedade de Milton Afonso, ex-dono da Golden Cross:
uma das mais espetaculares casas do litoral, avaliada
pelo mercado em 12 milhões de reais |
Até
trinta anos atrás, possuir uma ilha requeria um certo
espírito aventureiro, um quê de Robinson Crusoé.
Os precários geradores de energia sempre falhavam e
o contato com o continente só podia ser feito por rádio.
É evidente que a tecnologia melhorou e muito a vida
nas ilhas. Telefones celulares, TVs por satélite, energia
solar e energia a vento usadas na maioria das propriedades
tornaram a permanência no meio do mar mais confortável.
O empresário Milton Soldani Afonso, ex-dono da Golden
Cross, acabou de reformar sua paradisíaca Ilha do Cavaco,
em Angra dos Reis, com a intenção de se mudar
de vez para o lugar, avaliado pelos corretores em 12 milhões
de reais. "Com certeza está entre as cinco melhores
do país", diz o corretor Luís Boaventura, um
dos mais experientes da região. Espalhadas por 18.000
metros quadrados, as construções são
deslumbrantes. O conjunto possui sete bangalôs e área
de lazer com quadra de tênis. A casa mais nova, com
apenas dois quartos, é uma das mais bonitas do litoral.
Detalhe: cada quarto tem 100 metros quadrados.
A região de Angra concentra as melhores e mais exclusivas
ilhas do país. Qualquer pedaço de terra cercado
por água alcança cotações estratosféricas.
O cirurgião plástico Ivo Pitanguy, proprietário
de um desses resorts na região, já recusou a
oferta de 20 milhões de reais feita por um xeque árabe
por sua propriedade. Mas atenção: quando se
diz que uma ilha "vale" X ou Y milhões de reais, é
preciso ficar claro que a forma de calcular o preço
de um imóvel desse tipo envolve boa dose de subjetividade.
Não há nada mais objetivo do que avaliar o preço
de um carro. Basta abrir o jornal e conferir a tabela dos
classificados. No caso de apartamentos, a objetividade é
um pouco menor, porque esses imóveis não são
vendidos segundo o modelo e o ano de fabricação,
mas de acordo com o gosto do freguês. No caso específico
das ilhas, a subjetividade é máxima, pois não
existe uma tabela de preços. Para se ter uma idéia
mais clara da confusão a que pode chegar o debate sobre
o valor de uma ilha, tome-se o caso da Ilha dos Mantimentos,
localizada na região de Parati, no Rio de Janeiro.
O lugar é propriedade do empresário italiano
Sergio Maggiore, dono de uma fábrica de produtos derivados
de petróleo. Segundo os corretores, é uma das
mais fabulosas ilhas do país e vale 12 milhões
de reais. "Jamais!", afirma Maggiore. "Essa ilha vale no máximo
3 milhões", garante.
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Ilha
com IPTU de apartamento
Diz
a lei que os donos de ilhas devem recolher um tributo
anual à União que varia de 0,6% a 2% do
valor da propriedade. É uma taxa semelhante ao
IPTU, com a diferença de que o imposto cobrado
sobre os imóveis urbanos leva em conta o valor
do terreno e da construção erguida sobre
ele. No caso das ilhas, calcula-se apenas o valor do
terreno. Não são contabilizadas a casa,
a piscina, as benfeitorias em geral.
O controle desse imposto, ou melhor, o descontrole,
está a cargo da Secretaria de Patrimônio
da União, órgão do Ministério
do Planejamento. O problema é que os arquivos
da secretaria trabalham com valores absolutamente irreais,
o que permite aos donos de ilhas recolher impostos irrisórios.
Tome-se como exemplo a Ilha do Capítulo, pertencente
ao empresário português João Pereira
Coutinho, dono de banco e incorporadora de imóveis.
Localizada em Angra dos Reis, segundo os registros do
governo, os 55 000 metros quadrados da ilha valem apenas
109 000 reais. Isso mesmo: o equivalente a um apartamento
de dois quartos. Por esse motivo, a propriedade recolhe
ao governo somente 2 200 reais por ano.
No mercado imobiliário, especula-se que a ilha
de Coutinho poderia valer algo como 16 milhões
de reais. É evidente que a estimativa considera
todas as benfeitorias e as construções.
Mesmo assim, é difícil acreditar que,
caso sejam implodidas as edificações,
reste um terreno avaliado em pouco mais de 100.000
reais. "Há um gritante descompasso de valores,
mas infelizmente ainda não conseguimos identificar
as razões de tanta diferença", afirma
Augusto de Almeida, secretário adjunto da Secretaria
de Patrimônio da União.
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