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"E NÃO TEM DEVOLUÇÕES, NÃO"

Roberto Jayme

José Lourenço, que decidiu ir para o PMDB: ele nega que participou dos diálogos


Numa conversa, o deputado José Lourenço, que trocou o PFL pelo PMDB no mês passado, fala ao telefone com o ex-deputado Jonival Lucas, ambos da Bahia. Num trecho não reproduzido, os dois discutem a possibilidade de desfazer a filiação. Abaixo, Lucas demonstra irritação com a "maneira como estamos sendo tratados" e sugere procurar o líder do PMDB na Câmara, Geddel Vieira Lima, também baiano. Lourenço informa que quer "acertar" tudo direitinho, fazendo uma "conta de português".

Lucas – Nós temos que meter medo, Zé. Temos que dizer: nós não aceitamos essa maneira como estamos sendo tratados. Vamos chamar o Geddel.

Lourenço – E não tem esse negócio de fazer devoluções não, também.

Lucas – Não, que não é dele.

Lourenço ­ Ora, vá pra p.... Eu quero acertar tudo direitinho. O que eu devo e o que tenho haver também. Conta de português. De armazém.

Lucas – Na caderneta. Crédito e débito.

Lourenço – E venha pra cá e vamos conversar aqui.

Lucas – Isso mesmo. Mas eu acho que segunda-feira a gente vai pegar eles aqui e ter essa conversa que é importante. ="000000" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Lourenço – Tá bom, querido.

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"É UM AGATUNADO"  

Em outro pedaço da conversa telefônica, o deputado José Lourenço e o ex-deputado Jonival Lucas fazem referência a uma reunião que querem marcar com o deputado Geddel Vieira Lima. No trecho abaixo, em virtude do contexto original da fita, não resta dúvida de que é sobre Geddel que estão falando quando se referem a um "rapaz". Lourenço diz a Lucas que o rapaz não tem um projeto político, mas "um projeto de enriquecimento".

Lucas – O sentimento de todo mundo é esse. Agora, infelizmente, esse rapaz que tinha tudo pra ser tudo faz tudo pra ser nada. Porque é um agatunado. Você sabe quem é.

Lourenço – Não, o projeto dele é como você disse. Ele não tem um projeto político. Tem um projeto de enriquecimento.

Lucas – É um projeto pessoal de enriquecimento.

Lourenço – Ele e a família.

Lucas – Ele quis a aliança conosco pra se fortalecer, pra cobrar mais.

Lourenço – Mais.

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"RECEBEM DE VEZ, QUEREM PAGAR FRACIONADO"

Nesta conversa, Jonival Luca Junior liga para o pai, o ex-deputado Jonival Lucas. O filho reclama que não consegue fazer contato com Carlos Alberto Batista Neves, que os adversários apontam como caixa do PMDB baiano. O pai reclama que "querem pagar" em parcela. O filho completa: "E não cumprem os prazos".

Filho – Não consegui falar com o homem também não, viu?

Pai – Que homem?

Filho – O Batista. O telefone dele só chama.

Pai – Deixa pra lá.

(....)

Pai (falando com o filho como se estivesse conversando com Geddel Vieira Lima) – Vocês (o contexto sugere que ele se refere efetivamente a Geddel e companheiros) recebem de vez, querem pagar fracionado. E ainda tratam a gente como cachorro.

Filho – Querem pagar fracionado e ainda não cumprem os prazos que eles mesmos estabeleceram.

Pai – É. Não dá atenção. Esse povo não adianta, Joninho. O povo não dá atenção.

(...)

Filho – Quando o telefone (de Batista Neves) chama... Porque o telefone dele está assim. Chama, chama até cair, entendeu? Então não é que esteja desligado. Então, daqui a pouco, eu...

Pai – Ele, na certa, Geddel, se tem moral pra dar um esporro nele, deu. Ele tá arretado com a gente. Já não gosta de pagar. Vamos dizer a Geddel: "Olha, rapaz. Esse rapaz é gatuno. Deve roubar vocês. Menos vocês, mais a gente."

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"TOMANDO 20% DE TODO MUNDO"

Este talvez seja o trecho mais interessante dos diálogos gravados. Nele, Lucas combina uma forma de pressionar Geddel Vieira Lima, que não "nos dá a menor atenção". A idéia é reunir os deputados que trocaram o PFL pelo PMDB e, num encontro com Geddel, ameaçar abandonar o partido. "Vamos para um lugar em que nos respeitem."

Lucas – Vamos chamar ele (refere-se a Geddel) na... Você vem que dia?

Lourenço – Eu vou praí segunda-feira.

Lucas – Pronto. Eu já disse a Leur (Leur Lomanto, que trocou o PFL pelo PMDB) que não viaje. Vamos chamar Roland (Ronald Lavigne, que também deixou o PFL pelo PMDB). Joninho (seu filho, Jonival Lucas Junior) tá aqui. Vamos marcar uma reunião com ele (Geddel) e botar: "Senão, olha, rapaz. Tudo bem. Tchau. Bença. Té logo. Vamos pra um lugar em que nos respeitem. Agora, nós não vamos ficar nisso, que você leva trinta dias, não nos dá a menor atenção. Não trata nada da gente com seriedade. É nervoso. Dando esporro. É tudo cheio de coisa". O Mario (Mário Kértesz, ex-prefeito de Salvador, hoje apresentador de um programa de tevê na Bahia) tem agüentado coisas deles aí do DNER, coisas absurdas.

Lourenço – É isso que eu estou falando. É um absurdo.

Lucas – É tomando 20% de todo mundo.

Lourenço – É uma coisa horrível. São ladrões.

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"TODO MUNDO RECEBEU DINHEIRO"

Num telefonema, a mulher de Jonival Lucas, dona Marivalda Oliveira da Silva, conversa com uma amiga. A certa altura, ela critica o rompimento do marido com o PFL de Antonio Carlos Magalhães e lamenta-se de ter sido demitida. Ela trabalhava na Secretaria de Agricultura do governo da Bahia. Conta também que, à exceção de seu filho, "todo mundo recebeu dinheiro".

Marivalda – Porque depois que Jonival (o pai) brigou com Antonio Carlos é uma coisa que era certa, né? A gente já sabia. (Refere-se à demissão). Vou procurar outra coisa pra fazer. Montar alguma coisa.

Amiga – E Joninho (o filho) não tá com outro deputado?

Marivalda – Ah, mas Jonival (o pai) fez os acertos dele... Joninho foi o único que não teve direito a nada. Todo mundo recebeu cargo. Todo mundo recebeu dinheiro. Mas ele, como foi o mentor de tudo, achou que não devia ter nada. Entendeu? Mas isso não vem ao caso, não. Tô dando entrada no FGTS. Vou procurar o que fazer.

 

UMA MUDANÇA QUE AFETOU PAI, MÃE E FILHO

Entre as seis conversas telefônicas a que VEJA teve acesso, uma delas é doméstica. Trata-se de um diálogo entre Marivalda de Oliveira da Silva, mulher do ex-deputado Jonival Lucas, e uma amiga não identificada. Mas o que parece um bate-papo descompromissado vai aos poucos ganhando relevância – e mostra como uma família com antiga tradição política pode ser afetada, em sua vida cotidiana, pelas trocas de sigla feitas por seus membros. Na conversa, constata-se que o balcão do PMDB afetou pai, mãe e filho. Está claro que quem promoveu toda a negociação, que fala como se fosse o coordenador-geral de tudo, é o patriarca da família, Jonival Lucas, que exerceu três mandatos de deputado federal. Mas sua mulher parece muito contrariada. Ela comenta que se opunha ao rompimento do marido com o PFL de Antonio Carlos Magalhães. Diz que seu marido "fez os acertos dele", mas acha que seu filho, o deputado Jonival Lucas Junior, a quem os familiares chamam de "Joninho", saiu prejudicado.

A oposição ao rompimento com o grupo de ACM tem motivos muito concretos. Marivalda de Oliveira da Silva tinha um emprego na Secretaria de Agricultura do governo da Bahia. Como acontece com os mortais comuns, ela tinha de trabalhar para ter direito a seu salário no fim do mês, de 2500 reais. Logo depois que seu marido e seu filho deixaram o PFL, no entanto, desceram o chanfalho: ela perdeu a sinecura por "abandono de emprego". Na verdade, fazia-se vista grossa à ausência dela no serviço, mas, no momento em que a família tomou outro rumo político, o governo da Bahia achou repentinamente que as leis precisavam voltar a ser cumpridas. Marivalda, cuja família está longe de se pendurar num magro pé-de-meia, diz à amiga que vai sacar seu fundo de garantia por tempo de serviço (FGTS) para dar um jeito na vida. Nada lhe pareceu mais desagradável que perder um emprego no qual não trabalhava. Com tamanho prejuízo, em outro trecho da conversa com a amiga ela chega a dizer que foi a "única prejudicada".

Jonival Lucas não vive seus melhores dias. Ex-deputado federal de 55 anos, ele recupera-se de um câncer. Aos amigos, tem comentado que às vezes fica amargurado, com medo de que a doença volte. Para melhor tratar da saúde, Jonival resolveu afastar-se da política. Nas últimas eleições, preparou seu filho, Jonival Lucas Junior, para sucedê-lo. O filho concorreu usando o mesmo nome político do pai. Alguns cartazes da campanha nem traziam fotos, uma forma de atrair para a candidatura do filho os eleitores mais fiéis do pai. Trocar de partido, porém, não é uma aventura nova na vida política de Jonival Lucas. Como parlamentar, o velho Jonival Lucas mudou de legenda seis vezes. Elegeu-se pela primeira vez pelo PDS, o partido que substituiu a Arena dos tempos de regime militar. Dali foi para o PFL de Antonio Carlos Magalhães. Saiu de lá para o PDC, depois para o PSD e voltou para o PFL. Seu filho se elegeu pelo PPB. A novidade na vida política de Jonival foi trocar de padrinho político. Deixou ACM e preferiu Geddel Vieira Lima. Marivalda não se conforma.

 

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