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A história do PMDB é a crônica de uma decadência moral. Sob a antiga sigla de MDB, o partido arreganhou os dentes contra a ditadura militar (1964-1985) e deu guarida a grupos de esquerda que então viviam sob a mordaça da clandestinidade. Derrubada a ditadura, a legenda começou a minguar. Primeiro foram os tucanos, que deixaram o partido para fundar o PSDB. Queriam ética na política. Estavam incomodados com a ascensão de líderes, digamos assim, demasiado monetários, como o ex-governador de São Paulo Orestes Quércia, aquele que sempre viveu da política, mas construiu uma vistosa fortuna pessoal. O PMDB parecia destinado a definhar até a inanição. Com a morte de seu maior líder, Ulysses Guimarães, num desastre de helicóptero no mar de Angra dos Reis em 1992, o partido ficou à deriva, como uma confraria de políticos, cada qual acalentando sua ambição particular. Nos últimos tempos, o partido voltou à tona. Sua bancada aumentou, a legenda planeja vôos mais altos. No entanto, a vontade de crescer e dominar o cenário político volta e meia tem queimado as asas do partido.
Na semana passada, VEJA teve acesso a uma fita com seis conversas telefônicas que somam 42 minutos de duração. Seu conteúdo é espantoso. Mostra que uma parte das novas adesões conquistadas pelo PMDB foi movida por negociações que nada têm a ver com política propriamente dita. Embora em nenhum momento sejam citadas cifras, os diálogos indicam que é em torno de dinheiro que conversam os interlocutores. As conversas são bastante claras. Os interlocutores referem-se a pagamentos, reclamam de parcelas que não foram saldadas, xingam seus novos colegas de partido, chamam-nos de "ladrões", contam onde se cobram propinas de 20% e tratam um ministério do PMDB como "um antro". São palavras que, embora fortes, não teriam maior relevância se partissem da boca de oposicionistas. Mas partem de gente que acabou de assinar ficha no PMDB, o que lhes empresta certa legitimidade. O passeio pelos trechos mais sugestivos compõe um retrato da miséria moral em que mergulharam alguns políticos. E acaba por atingir o coração de figuras de projeção do "novo PMDB", como o líder do partido na Câmara, o deputado Geddel Vieira Lima, tratado na fita por seus novos liderados como um sujeito "agatunado". Nos anos 90, o Congresso já estremeceu com dois escândalos de políticos vendendo votos ou mandatos. O primeiro ocorreu em 1993, quando uma legenda nanica, o PSD, começou a ganhar músculos em ritmo anabólico, até que VEJA divulgou as fitas segundo as quais seus novos filiados eram atraídos por propinas que variavam de 30.000 a 50.000 dólares. Meses depois, três líderes do PSD foram cassados. Em 1997, a imprensa revelou gravações nas quais dois deputados confessavam que eles próprios e outros quatro colegas, todos da bancada do Acre, receberam 200.000 reais para votar a favor da emenda da reeleição. Dos cinco envolvidos, dois renunciaram ao mandato para fugir da cassação. Tanto num caso como no outro, os denunciados pertenciam ao baixo clero, aquela casta de políticos sem cargo nem expressão no Congresso. Eles não tinham acesso aos maiores líderes políticos, seus votos ou filiações vendidas não mereceram homenagens públicas das cabeças coroadas do Congresso, e suas tramóias ficaram restritas ao submundo parlamentar. Agora, a coisa é um pouco mais grave. O balcão não está restrito ao baixo clero. Nas fitas obtidas por VEJA, os diálogos sugerem fortemente que tenha havido dinheiro na transação política envolvendo deputados recém-chegados ao PMDB. E eles se mostram revoltados com o desrespeito ao cronograma de pagamento. Falam em fazer uma reunião para resolver o problema. E a reunião teria a presença dos seguintes deputados: José Lourenço, Roland Lavigne e Leur Lomanto, todos ex-PFL, e Jonival Lucas Junior, que deixou o PPB. Como que no papel de coordenador-geral, aparece o ex-deputado Jonival Lucas, o pai, que já exerceu três mandatos de deputado federal e foi um dos que aderiram às festivas filiações do PSD em 1993. Nenhum dos quatro novos peemedebistas tem expressão nacional, mas sua adesão ao partido teve as honras da cúpula nacional da legenda. No dia 11 de dezembro, a solenidade em que assinaram a ficha de filiação, realizada em Salvador, na Bahia, contou com a presença de gente graúda. Estava lá o presidente nacional da legenda, o senador Jader Barbalho, que até hoje não explicou sua fortuna formidável de 30 milhões de reais. Estavam lá os dois ministros da legenda, Eliseu Padilha (Transportes) e Fernando Bezerra (Integração Nacional). Estava lá, é claro, o líder do PMDB na Câmara, Geddel Vieira Lima. Nos diálogos ouvidos por VEJA, não há uma única passagem sugerindo que Jader Barbalho ou os dois ministros do PMDB tenham sido informados de que os novos filiados chegaram ao partido de bolsos recheados. Eles podem ter caído na arapuca de participar de uma festa feita à base de negociações com cheiro de enxofre. O caso Geddel é diferente. Líder de 99 deputados, que formam a terceira maior bancada da Câmara, Geddel encarregou-se da tarefa de "convencer" os deputados a trocar de partido. Foi Geddel quem chegou a pedir com sucesso uma audiência com o presidente da República, em dezembro passado, para apresentar suas novas conquistas. Em outras palavras, o graúdo líder do PMDB de certa forma expôs Fernando Henrique ao apresentar-lhe como um feito partidário aquilo que pode não ter passado de uma negociata. Além disso, Geddel é o personagem central nos telefo ora de "nervoso", ora de "agatunado", ele é responsabilizado pela falta do pagamento nos termos combinados. Num dos trechos, Jonival, o pai, e o deputado José Lourenço dizem frases que parecem sugerir fortemente que ambos suspeitam de uma manobra de Geddel: a de que ele estivesse querendo abocanhar parte da grana que deveria desembolsar. "Ele quis a aliança conosco pra se fortalecer pra cobrar mais", diz Jonival. "Ele não tem projeto político. Tem projeto de enriquecimento", afirma Lourenço. Jonival repica: "Um projeto pessoal de enriquecimento". Lourenço acrescenta: "Ele e a família". O tom das conversas é de revolta: reclamam que estão sendo tratados "como cachorro" no novo partido, porque o pagamento deveria ter sido feito de uma só vez e, agora, "querem pagar fracionado" e, pior ainda, "não cumprem os prazos que eles mesmos estabeleceram". Queixam-se, também, de que seus insistentes telefonemas de cobrança não são sequer atendidos: "O telefone chama, chama, até cair, entendeu?", diz, a certa altura, Jonival Lucas Junior. Indignados, planejam até sair do PMDB, caso as coisas não se resolvam. E um deles, o deputado José Lourenço, antecipa que, se sair mesmo do partido, não tem intenção de devolver nada do que recebeu: "E não tem esse negócio de fazer devoluções, não". José Lourenço nunca foi homem de brincar com dinheiro. Na votação do impeachment de Fernando Collor, José Lourenço, então líder do governo na Câmara, apareceu como suspeito de comprar votos pró-Collor devido a estranhas movimentações em sua conta bancária às vésperas da votação. Os telefonemas não esclarecem se a turma conseguiu arrancar os pagamentos prometidos ou se ainda a "conta de português, de armazém", para usar uma expressão de José Lourenço, permanece com as colunas de débito e crédito em aberto. Numa conversa, Jonival Lucas, o pai, combina com seu amigo, Mário Kértesz, ex-prefeito de Salvador, uma forma de alfinetar Geddel em público, de modo a sinalizar que a turma não está satisfeita. Ele pede a Kértesz, apresentador de um programa matinal diário, chamado Jogo Aberto, na TV Bandeirantes, para dar "outra puxadinha no Geddel". Kértesz acha que a melhor forma é receber um fax de alguém, que ele pode ler no ar e, a partir daí, acrescentar outras críticas. "Solto o cacete", diz ele. A primeira "puxadinha no Geddel" fora ao ar duas semanas antes, quando Kértesz denuncia uma "concorrência fajuta" no Departamento Nacional de Estradas de Rodagem (DNER), um órgão do Ministério dos Transportes. Segundo disse no ar, uma empreiteira, a Top Engenharia, teve de pagar 20% de comissão para "pessoas locais" e "autoridades do PMDB em Brasília" para pegar serviço de restauração de rodovias na Bahia. Na sexta-feira passada, VEJA entrou em contato com os que tiveram suas conversas grampeadas. "A revista VEJA está a serviço de Antonio Carlos Magalhães", acusou o deputado José Lourenço, aproveitando-se do fato de que a revelação do balcão do PMDB favorece a briga do senador baiano com seu desafeto no Senado, Jader Barbalho. "Estão querendo tumultuar a eleição para presidente da Câmara e do Senado", acrescentou. Mas quanto a seus diálogos reclamando de pagamentos não feitos e acusando seu novo líder na Câmara de ter um "projeto de enriquecimento"? A resposta: "As conversas só podem ser montagem. Nego qualquer conversa e nego ter recebido dinheiro para trocar de partido". O deputado Roland Lavigne, cirurgião acusado de fazer laqueadura em índias pataxós em troca de voto, também contesta a autenticidade da fita. "Não conheço o teor das fitas. Mas, se existem, são fraudulentas. Nunca houve negociação envolvendo dinheiro para a gente trocar de partido." O velho Jonival Lucas falou em seu nome e no de seu filho. "Nunca fiz negócio financeiro com o Geddel nem com o Jader. Vou esperar para conhecer os diálogos atribuídos a mim para comentar qualquer coisa." Ele explica que sua insistência e a de seu filho em falar com Carlos Alberto Batista Neves, um ex-vereador que os adversários acusam de ser o caixa do PMDB baiano, era apenas para tratar de assuntos políticos. "Porque queremos espaço político no PMDB, mas nunca cobrei nada", diz Jonival Lucas. O deputado Geddel Vieira Lima, diferentemente dos demais, não acusa a fita de ser forjada ou montada. Diz apenas que não tem nenhum controle sobre o que os outros dizem a seu respeito. "Eles que falem o que quiserem de mim. Eu fiz um entendimento político com esses deputados. Lamento profundamente que tenham usado meu nome de forma indevida. Não estou supondo que usaram meu nome indevidamente. Estou afirmando." Mais tarde, numa entrevista coletiva que convocou para comentar a reportagem de VEJA, antes mesmo da publicação, Geddel mudou de idéia. Disse que as fitas eram forjadas. A descoberta do balcão baiano do PMDB ocorre numa hora delicada. Nesta quarta-feira, os 513 deputados federais e os 81 senadores vão escolher os novos presidentes da Câmara e do Senado pelos próximos dois anos. São cargos estratégicos. Comandam a máquina do Congresso e definem a agenda legislativa do país, além de terem poder para marcar e desmarcar votações e abrir ou pôr na gaveta comissões parlamentares de inquérito. A disputa rachou a base aliada de Fernando Henrique. O PMDB conquistou o apoio do PSDB, isolando o PFL, e tem ou tinha grandes chances de sair vitorioso. Essa perspectiva tem empolgado a cúpula do PMDB. Na semana passada, num sinal daquele vigor redobrado que o partido vem experimentando nos últimos tempos, houve um concorrido jantar em homenagem a Michel Temer, do PMDB paulista, que encerra agora seu mandato como presidente da Câmara. Num sinal dos novos tempos do partido, apareceu no jantar, ao lado de Jader Barbalho e Geddel, uma figura que andava meio sumida de Brasília: o ex-governador Orestes Quércia.
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