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Na semana passada, a escalada de indignação já atingia tais proporções que até o presidente Fernando Henrique Cardoso trocou seu habitual tom conciliatório por uma ameaça: "Se em quinze dias o Canadá não retificarsua posição em relação à carne brasileira, nós vamos engrossar. Que ninguém tenha dúvida em relação a isso", disse o presidente. "Se eles quiserem guerra, terão guerra." A refrega provocou uma unidade rara no país. No Congresso, do PT ao PFL os parlamentares se uniram para barrar os interesses canadenses no país. Suspenderam todos os acordos de cooperação em análise na Câmara e no Senado. Nas ruas, o protesto ganhou um tom bem-humorado. Os donos de restaurantes de São Paulo decidiram boicotar os produtos canadenses, jogando no lixo o que havia em estoque. Em Brasília, a Embaixada do Canadá virou alvo dos ataques de estudantes, que levaram uma vaca para dar de presente ao embaixador. Até a rádio Jovem Pan FM, que atua em rede nacional, decidiu banir todos os artistas canadenses de sua programação. Mas há pouco do que rir nesse episódio. Do ponto de vista comercial, a atitude do Canadá é um golpe baixo. "O comportamento do Canadá foge a todas as regras civilizadas do comércio internacional", avalia o embaixador Luiz Felipe Lampreia, ex-ministro das Relações Exteriores. As restrições às importações brasileiras de carne impostas pelos canadenses não teriam maiores conseqüências caso tivessem ficado confinadas àquele "pedaço de calota polar", como se refere ao Canadá um enfurecido diplomata. O país importa apenas 5 milhões de dólares num total de vendas brasileiras que somaram 500 milhões de dólares no ano passado. Seria fácil para o Brasil dar de ombros para um consumidor tão chinfrim. Mas não é assim que funciona o mundo globalizado dos blocos econômicos. No poderoso Nafta, o Acordo de Livre Comércio da América do Norte, os parceiros do Canadá são Estados Unidos e México. Pelos acordos fitossanitários assinados entre os três países, todos são obrigados a seguir a decisão do vizinho que suspender a importação de qualquer produto alegando risco para a saúde do consumidor. Aí a coisa se complica. Só no ano passado os americanos importaram 100 milhões de dólares de carne do Brasil.
A campanha contra o Brasil tem um ingrediente ainda mais perverso: as autoridades sanitárias canadenses sabem muito bem que o rebanho brasileiro é saudável. A doença da vaca louca está associada à alimentação antinatural imposta ao gado europeu. Lá, as vacas recebem como complemento alimentar um composto de farinha de ossos e outros restos animais tirados das carcaças do próprio gado. É um canibalismo forçado. Os especialistas suspeitam que essa ração animal dada a uma espécie ruminante, e portanto vegetariana, esteja na raiz de todo o problema. De um lado, ela enfraquece o sistema imunológico dos animais. De outro, torna-se um vetor poderoso de transmissão do mal, uma vez que animais doentes mas sem sintomas podem ter virado ração. Para reforçar a acusação irresponsável do Canadá ao Brasil, existe um relatório insuspeito que nos isenta de qualquer culpa. A Organização Mundial de Saúde divulgou em dezembro um mapa da vaca louca. Nele, o Brasil não aparece. O Canadá também não, mas a OMS deixa claro que os canadenses andariam muito mais próximos da doença da Europa que o Brasil. Suspeita-se que o Canadá possa ter importado vacas inglesas. Os outros países da lista, além da Inglaterra, são: Irlanda, França, Suíça, Alemanha, Bélgica, Holanda, Dinamarca, Itália, Portugal, Kuwait e Omã.
"O jogo comercial é sujo, mas nós vamos reagir à altura", avisou o secretário executivo da Câmara de Comércio Exterior (Camex), Roberto Giannetti da Fonseca. O argumento do Canadá para justificar tamanha insensatez é que o governo brasileiro não respondeu satisfatoriamente a um questionário enviado em 1998, no qual se indagava sobre as condições sanitárias do gado nacional. Pura balela. Se os canadenses não estavam satisfeitos com as respostas, bastava ter pedido maiores explicações. É o mínimo que se espera de um país que mantém relações amigáveis com outro. Mas bom senso é tudo o que falta nessa história. O ministro da Agricultura canadense, Lyle van Clieff, encontrou-se cinco vezes com seu colega brasileiro, Pratini de Moraes, a última há dois meses, e nunca fez menção alguma a tal questionário. "Cada vez que o Brasil põe a cabeça fora d'água vem pau em cima. Foi assim no café solúvel, foi assim com os calçados, foi assim com o aço, tem sido assim com a laranja e agora querem fazer o mesmo com a carne porque sabem que o Brasil é o país mais competitivo e o melhor produtor de carne do mundo", disse Pratini. Não poderia haver melhor resumo da situação. No mesmo dia em que anunciou a suspensão das importações, o governo canadense determinou que se retirasse das prateleiras de supermercados e mercearias toda a carne enlatada importada do Brasil. Pior. Pediu que a população não consumisse o que já havia sido comprado. Nada poderia comprometer tanto a imagem de um produto. A arbitrariedade, porém, deixou rastros. O comunicado à população foi feito pelo chefe da agência de fiscalização alimentar do Canadá, Brian Evans. Ao justificar a medida, o próprio Evans reconheceu que não há evidência de mal da vaca louca no Brasil. "Nós trabalhamos com um risco teórico", afirma.
Ao perceber que estava perdendo espaço para o Brasil, o governo canadense partiu para o ataque. Entrou com várias ações na OMC acusando o Brasil de estar subsidiando as exportações de suas aeronaves. Os tais subsídios a que o Canadá se refere são, na verdade, uma equalização das taxas de juros. A matemática financeira é cruel com o Brasil. Aqui, por uma série de fatores econômicos, as taxas de juros são astronômicas. Portanto, ao tomar empréstimo para financiar a venda de seus aviões, a Embraer tem de pagar taxas de juro muito acima das oferecidas pelo governo canadense à Bombardier. Por essa razão, para manter as taxas de juro nos mesmos níveis do mercado internacional, o governo brasileiro criou um programa de exportação em que parte dessa diferença é coberta por uma linha de crédito de apoio às exportações conhecida como ProEx. "As empresas brasileiras não ganham taxas de juro mais vantajosas que a de seus concorrentes", explica o diretor financeiro do BNDES, Isaac Zagury. "Elas só ficam no mesmo patamar." Já o Canadá concede vários subsídios mascarados que agora começam a ser questionados pelo Brasil. Na última concorrência aberta nos Estados Unidos pela Air Wisconsin, a Bombardier ganhou a parada por ter recebido subsídios diretos do governo canadense no valor de 300 milhões de dólares. Com isso, ela deu um desconto no mesmo valor para o comprador. O caso só veio a público após um jornal canadense denunciar a manobra. A questão da Embraer é emblemática porque, pela primeira vez, o Brasil disputa um mercado de alta tecnologia, em condições muito menos favoráveis, e consegue ganhar a parada. "A realidade é que os países ricos não estão suportando essa invasão de um país em desenvolvimento no seu mercado", afirma o embaixador Celso Amorim, responsável pelas negociações do Brasil na OMC.
O fato é que o Canadá esperneou e a OMC julgou a pendência em favor da Bombardier e acabou forçando o Brasil a mudar seu programa de exportações. Mas não foi tudo. No final, o organismo condenou o Brasil a compensar o Canadá pelas perdas com os subsídios concedidos à Embraer. Para não ser acusado de descumprir as regras do comércio internacional, o Brasil dispôs-se a honrar as exigências. Comprometeu-se a ressarcir o Canadá importando mais 900 milhões em produtos canadenses, o valor do subsídio que a OMC acusava o país de ter concedido à Embraer. Tal medida aumentaria ainda mais o déficit do Brasil na balança comercial entre os dois países, que é favorável ao Canadá em 535 milhões de dólares. O Canadá, porém, não aceitou a proposta. Exigiu que o ressarcimento fosse retroatite; tinham sido assinados pela Embraer com as empresas compradoras dos aviões. Ou seja, o Canadá, que tanto alardeia a preocupação ética de sua política externa, chegou ao cúmulo de querer que a Embraer modificasse todos os seus contratos, expondo a empresa a um vexame internacional. "Isso seria a sentença de morte da Embraer", reage Maurício Botelho, presidente da empresa brasileira. "Não venderíamos nem mais uma asa de avião."
Regras de civilidade A decisão de boicote à carne brasileira não saiu, como seria de esperar, do Ministério da Agricultura do Canadá. Saiu prontinha de onde? Do Ministério da Indústria e Comércio, comandado por Brian Tobin. Exatamente a pasta que cuida dos interesses da Bombardier. O que está ficando claro nesse imbróglio é que o Canadá transformou a briga entre duas empresas numa contenda comercial entre dois países. A Bombardier é efetivamente uma empresa de grande peso na economia canadense. "Em termos de Brasil, equivaleria a uma companhia que reunisse o poderio das Organizações Globo com o do grupo Votorantim", afirma um diplomata brasileiro. É óbvio que o Canadá tem todo o direito de defender o interesse de suas empresas, mas, quando essa defesa ultrapassa todas as regras de civilidade do comércio internacional, surgem suspeitas de que outros interesses podem estar por trás de tamanho patriotismo. O que chama a atenção quando se destrincham as relações entre a Bombardier e o governo canadense é uma promiscuidade associada normalmente à mais rastaqüera das repúblicas bananeiras. A Bombardier foi a principal financiadora da campanha do Partido Liberal, que elegeu o primeiro-ministro Jean Chrétien. O presidente executivo da empresa foi vice-ministro da Indústria e Comércio. Tem mais. O filho do primeiro-ministro canadense é casado com a filha do ex-presidente da companhia o que em si não quer dizer nada, mas somado aos outros fatos acentua o tal mau cheiro a que o Globe and Mail se referiu no artigo publicado na semana passada. Ou seja, é o velho favorecimento aos amigos disfarçado de defesa dos interesses nacionais. Nada mais Terceiro Mundo que uma empresa com um poder tão avassalador que é capaz de fazer chover dentro de um governo.
Com reportagem de Márcio Pacelli, de Brasília
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