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Consuelo Dieguez


Paulo Liebert/AE

A reação brasileira extrapola os círculos diplomáticos: donos de restaurantes despejam no lixo uísque canadense em protesto contra a suspensão das compras de carne brasileira


Para a maioria dos brasileiros, o Canadá sempre foi aquele país simpático e sem graça situado ao norte dos Estados Unidos. Uma região que passa a maior parte do ano sob polegadas de neve e de onde, fora os esquimós, os ursos e a polícia montada, o imaginário popular não tem lá muitas imagens concretas. Bem, desde a semana passada o Canadá apareceu com uma cara bem mais feia para os brasileiros. A terra dos ursos, que de tão estável e abúlica se diz ser "um país à procura de um problema", transformou-se em nosso mais novo e, até segunda ordem, único inimigo externo. A agressão partiu deles. Numa decisão aparentemente irracional, o Canadá proibiu há dez dias a importação de carne brasileira. A alegação: havia uma remota possibilidade de o produto estar contaminado pelo mal da vaca louca, a temível doença de origem européia que esfarinha o cérebro do gado e obrigou até agora o abate de milhões de animais no Velho Continente. Desde que a decisão foi conhecida, está sendo cristalizada na cabeça dos brasileiros a certeza de que o Canadá é capaz de usar os mais infames artifícios para vencer uma guerra comercial – uma guerra, aliás, que passa a quilômetros de distância do rebanho brasileiro. Por trás da manobra, está o bilionário mercado internacional de jatos de pequeno porte, no qual a brasileira Embraer desbancou o reinado da canadense Bombardier. Ao misturar gado com avião, o Canadá abriu uma gigantesca crise entre os dois países e envolveu o Brasil na maior contenda comercial e diplomática de sua história.


   Jornal canadense noticia casos de contaminação pelo vírus ebola: pela lógica do governo de Ottawa, Brasil poderia vetar o ingresso de turistas vindos do Canadá

Na semana passada, a escalada de indignação já atingia tais proporções que até o presidente Fernando Henrique Cardoso trocou seu habitual tom conciliatório por uma ameaça: "Se em quinze dias o Canadá não retificarsua posição em relação à carne brasileira, nós vamos engrossar. Que ninguém tenha dúvida em relação a isso", disse o presidente. "Se eles quiserem guerra, terão guerra." A refrega provocou uma unidade rara no país. No Congresso, do PT ao PFL os parlamentares se uniram para barrar os interesses canadenses no país. Suspenderam todos os acordos de cooperação em análise na Câmara e no Senado. Nas ruas, o protesto ganhou um tom bem-humorado. Os donos de restaurantes de São Paulo decidiram boicotar os produtos canadenses, jogando no lixo o que havia em estoque. Em Brasília, a Embaixada do Canadá virou alvo dos ataques de estudantes, que levaram uma vaca para dar de presente ao embaixador. Até a rádio Jovem Pan FM, que atua em rede nacional, decidiu banir todos os artistas canadenses de sua programação. Mas há pouco do que rir nesse episódio. Do ponto de vista comercial, a atitude do Canadá é um golpe baixo. "O comportamento do Canadá foge a todas as regras civilizadas do comércio internacional", avalia o embaixador Luiz Felipe Lampreia, ex-ministro das Relações Exteriores.

As restrições às importações brasileiras de carne impostas pelos canadenses não teriam maiores conseqüências caso tivessem ficado confinadas àquele "pedaço de calota polar", como se refere ao Canadá um enfurecido diplomata. O país importa apenas 5 milhões de dólares num total de vendas brasileiras que somaram 500 milhões de dólares no ano passado. Seria fácil para o Brasil dar de ombros para um consumidor tão chinfrim. Mas não é assim que funciona o mundo globalizado dos blocos econômicos. No poderoso Nafta, o Acordo de Livre Comércio da América do Norte, os parceiros do Canadá são Estados Unidos e México. Pelos acordos fitossanitários assinados entre os três países, todos são obrigados a seguir a decisão do vizinho que suspender a importação de qualquer produto alegando risco para a saúde do consumidor. Aí a coisa se complica. Só no ano passado os americanos importaram 100 milhões de dólares de carne do Brasil.

Doença mortal – Mas o maior prejuízo ainda não foi totalmente dimensionado. A encefalopatia espongiforme bovina, ou síndrome da vaca louca, é uma doença que ataca o sistema nervoso do gado e mata em pouco tempo. Foi descoberta na Inglaterra, em 1986, e ignorada pelo resto do mundo até dez anos depois. Em 1996, no entanto, alguns cientistas começaram a desconfiar que a síndrome podia ser transmitida aos seres humanos pelo consumo de carne contaminada, causando outra doença mortal, conhecida como Creutzfeldt-Jakob. Até hoje, não existe comprovação científica da transmissão da enfermidade para seres humanos. Mas a histeria com o mal apossou-se dos consumidores em todo o mundo. Hoje em dia, afirmar que um país tem a doença da vaca louca equivaleria, na Idade Média, a dizer que havia leprosos numa cidade. A partir daí ninguém queria contato com os pestilentos. Foi essa irresponsabilidade que o governo canadense cometeu ao pôr em dúvida a qualidade da carne brasileira.

A campanha contra o Brasil tem um ingrediente ainda mais perverso: as autoridades sanitárias canadenses sabem muito bem que o rebanho brasileiro é saudável. A doença da vaca louca está associada à alimentação antinatural imposta ao gado europeu. Lá, as vacas recebem como complemento alimentar um composto de farinha de ossos e outros restos animais tirados das carcaças do próprio gado. É um canibalismo forçado. Os especialistas suspeitam que essa ração animal dada a uma espécie ruminante, e portanto vegetariana, esteja na raiz de todo o problema. De um lado, ela enfraquece o sistema imunológico dos animais. De outro, torna-se um vetor poderoso de transmissão do mal, uma vez que animais doentes mas sem sintomas podem ter virado ração. Para reforçar a acusação irresponsável do Canadá ao Brasil, existe um relatório insuspeito que nos isenta de qualquer culpa. A Organização Mundial de Saúde divulgou em dezembro um mapa da vaca louca. Nele, o Brasil não aparece. O Canadá também não, mas a OMS deixa claro que os canadenses andariam muito mais próximos da doença da Europa que o Brasil. Suspeita-se que o Canadá possa ter importado vacas inglesas. Os outros países da lista, além da Inglaterra, são: Irlanda, França, Suíça, Alemanha, Bélgica, Holanda, Dinamarca, Itália, Portugal, Kuwait e Omã.


AP

Fábrica da Bombardier: gigante de 56 000 funcionários, que fatura 11 bilhões de dólares por ano, leva surra da Embraer no mercado mundial


Para pagar a decisão canadense com a mesma moeda será lícito ao Brasil, por exemplo, barrar a entrada de cidadãos canadenses no país, depois que se revelou que o Canadá abrigou o que poderia ser o primeiro caso da mortal doença ebola nas Américas. Na semana passada, uma mulher do Congo chegou ao Canadá com todos os sintomas de ser portadora do vírus ebola. Ela viajou ao lado de dezenas de canadenses no Boeing que a trouxe da África à América. Uma vez no país, teve contato com dezenas de outras pessoas. Os médicos canadenses não conseguiram confirmar a presença do vírus no corpo da mulher. Ainda bem. O ebola mata 95% de suas vítimas em questão de dias. E é transmitido com enorme facilidade. O Canadá deveria ser mais cuidadoso. Outros países que recebem vôos diretos de países africanos nas áreas de risco do ebola pedem exames negativos dos passageiros antes do embarque.

"O jogo comercial é sujo, mas nós vamos reagir à altura", avisou o secretário executivo da Câmara de Comércio Exterior (Camex), Roberto Giannetti da Fonseca. O argumento do Canadá para justificar tamanha insensatez é que o governo brasileiro não respondeu satisfatoriamente a um questionário enviado em 1998, no qual se indagava sobre as condições sanitárias do gado nacional. Pura balela. Se os canadenses não estavam satisfeitos com as respostas, bastava ter pedido maiores explicações. É o mínimo que se espera de um país que mantém relações amigáveis com outro. Mas bom senso é tudo o que falta nessa história. O ministro da Agricultura canadense, Lyle van Clieff, encontrou-se cinco vezes com seu colega brasileiro, Pratini de Moraes, a última há dois meses, e nunca fez menção alguma a tal questionário. "Cada vez que o Brasil põe a cabeça fora d'água vem pau em cima. Foi assim no café solúvel, foi assim com os calçados, foi assim com o aço, tem sido assim com a laranja e agora querem fazer o mesmo com a carne porque sabem que o Brasil é o país mais competitivo e o melhor produtor de carne do mundo", disse Pratini. Não poderia haver melhor resumo da situação.

No mesmo dia em que anunciou a suspensão das importações, o governo canadense determinou que se retirasse das prateleiras de supermercados e mercearias toda a carne enlatada importada do Brasil. Pior. Pediu que a população não consumisse o que já havia sido comprado. Nada poderia comprometer tanto a imagem de um produto. A arbitrariedade, porém, deixou rastros. O comunicado à população foi feito pelo chefe da agência de fiscalização alimentar do Canadá, Brian Evans. Ao justificar a medida, o próprio Evans reconheceu que não há evidência de mal da vaca louca no Brasil. "Nós trabalhamos com um risco teórico", afirma.


Claudio Rossi

Linha de montagem da Embraer: empresa virou o jogo contra a Bombardier em cinco anos, com sucesso garantido por jatos leves e mais baratos


Se eles não têm evidências, o Brasil já tem provas mais do que eloqüentes para justificar a decisão de entrar com pedido de indenização na Organização Mundial do Comércio (OMC), o foro que regulamenta e julga as questões comerciais em nível mundial. A ação é contra os danos comerciais causados ao país pela suspeita infundada de doença da vaca louca. Desde que as medidas de suspensão das importações foram baixadas, toneladas de carne estão estocadas causando enormes prejuízos a produtores e frigoríficos – cerca de 6 milhões de reais só em Mato Grosso. A suspeita sobre a real motivação do governo canadense não está confinada ao Brasil. No dia 3 de fevereiro, um dia após o boicote à carne ter sido anunciado, o jornal Globe and Mail, o único de circulação nacional no país, publicou um artigo cuja conclusão era de que se algo estava cheirando mal nessa história não era a carne brasileira. "Esqueçam o patriotismo. O último refúgio dos salafrários nesses dias de liberalização do comércio é a regulamentação da segurança alimentar", diz o artigo. "Nada nocauteia um adversário mais rápido do que a acusação de que o produto que ele oferece é um risco para a saúde." A verdade é que o Canadá nunca deu grande importância para a carne brasileira, e se estivesse tão preocupado com o assunto teria tomado providências há mais tempo. Até os bezerros brasileiros sabem que a razão da contenda passa longe dos pastos. A grita do Canadá tem como objetivo brecar a avassaladora expansão da Embraer no mercado internacional de jatos regionais de até cinqüenta lugares.

Até 1996, a Bombardier detinha o monopólio desse mercado. A Embraer, porém, não só desbancou a soberania da canadense como, no ano passado, assumiu a dianteira na disputa. Foram 157 jatos vendidos contra 96 da Bombardier (veja quadro). E é óbvio que a preferência pelo produto made in Brasil não se deu por causa dos subsídios que eles acusam o governo brasileiro de estar concedendo à Embraer. O que o Canadá não admite é que um país em desenvolvimento esteja produzindo um jato melhor e mais barato. As razões da preferência pelo avião da Embraer são facilmente explicáveis. O jato brasileiro pesa 2 toneladas a menos que o canadense. Financeiramente, isso equivale a uma diferença de preço entre 1,5 milhão e 2 milhões de dólares. Mas existem outras vantagens. Um avião mais leve consome menos e tem gastos menores de manutenção. Além disso, deve ser duro para o Canadá engolir que a gigante Bombardier, com 56.000 funcionários e faturamento anual de 11 bilhões de dólares, esteja tomando uma surra da Embraer, uma empresa brasileira, privatizada há sete anos, com 11.000 funcionários e faturamento de 3 bilhões de dólares ao ano. Não se pode esquecer que a Embraer começou a competir nesse mercado há apenas cinco anos e em condições muito menos favoráveis. E virou o jogo a seu favor.

Ao perceber que estava perdendo espaço para o Brasil, o governo canadense partiu para o ataque. Entrou com várias ações na OMC acusando o Brasil de estar subsidiando as exportações de suas aeronaves. Os tais subsídios a que o Canadá se refere são, na verdade, uma equalização das taxas de juros. A matemática financeira é cruel com o Brasil. Aqui, por uma série de fatores econômicos, as taxas de juros são astronômicas. Portanto, ao tomar empréstimo para financiar a venda de seus aviões, a Embraer tem de pagar taxas de juro muito acima das oferecidas pelo governo canadense à Bombardier. Por essa razão, para manter as taxas de juro nos mesmos níveis do mercado internacional, o governo brasileiro criou um programa de exportação em que parte dessa diferença é coberta por uma linha de crédito de apoio às exportações conhecida como ProEx. "As empresas brasileiras não ganham taxas de juro mais vantajosas que a de seus concorrentes", explica o diretor financeiro do BNDES, Isaac Zagury. "Elas só ficam no mesmo patamar." Já o Canadá concede vários subsídios mascarados que agora começam a ser questionados pelo Brasil. Na última concorrência aberta nos Estados Unidos pela Air Wisconsin, a Bombardier ganhou a parada por ter recebido subsídios diretos do governo canadense no valor de 300 milhões de dólares. Com isso, ela deu um desconto no mesmo valor para o comprador. O caso só veio a público após um jornal canadense denunciar a manobra.

A questão da Embraer é emblemática porque, pela primeira vez, o Brasil disputa um mercado de alta tecnologia, em condições muito menos favoráveis, e consegue ganhar a parada. "A realidade é que os países ricos não estão suportando essa invasão de um país em desenvolvimento no seu mercado", afirma o embaixador Celso Amorim, responsável pelas negociações do Brasil na OMC.


Wilson Pedrosa/AE
O presidente Fernando Henrique, durante visita ao Canadá, em janeiro: tom conciliatório deu lugar na semana passada a ameaças: "Se quiserem guerra, terão guerra"

O fato é que o Canadá esperneou e a OMC julgou a pendência em favor da Bombardier e acabou forçando o Brasil a mudar seu programa de exportações. Mas não foi tudo. No final, o organismo condenou o Brasil a compensar o Canadá pelas perdas com os subsídios concedidos à Embraer. Para não ser acusado de descumprir as regras do comércio internacional, o Brasil dispôs-se a honrar as exigências. Comprometeu-se a ressarcir o Canadá importando mais 900 milhões em produtos canadenses, o valor do subsídio que a OMC acusava o país de ter concedido à Embraer. Tal medida aumentaria ainda mais o déficit do Brasil na balança comercial entre os dois países, que é favorável ao Canadá em 535 milhões de dólares. O Canadá, porém, não aceitou a proposta. Exigiu que o ressarcimento fosse retroatite; tinham sido assinados pela Embraer com as empresas compradoras dos aviões. Ou seja, o Canadá, que tanto alardeia a preocupação ética de sua política externa, chegou ao cúmulo de querer que a Embraer modificasse todos os seus contratos, expondo a empresa a um vexame internacional. "Isso seria a sentença de morte da Embraer", reage Maurício Botelho, presidente da empresa brasileira. "Não venderíamos nem mais uma asa de avião."



Pratini de Moraes: Canadá não cobrou relatório sobre mal da vaca louca

Regras de civilidade – A decisão de boicote à carne brasileira não saiu, como seria de esperar, do Ministério da Agricultura do Canadá. Saiu prontinha de onde? Do Ministério da Indústria e Comércio, comandado por Brian Tobin. Exatamente a pasta que cuida dos interesses da Bombardier. O que está ficando claro nesse imbróglio é que o Canadá transformou a briga entre duas empresas numa contenda comercial entre dois países. A Bombardier é efetivamente uma empresa de grande peso na economia canadense. "Em termos de Brasil, equivaleria a uma companhia que reunisse o poderio das Organizações Globo com o do grupo Votorantim", afirma um diplomata brasileiro. É óbvio que o Canadá tem todo o direito de defender o interesse de suas empresas, mas, quando essa defesa ultrapassa todas as regras de civilidade do comércio internacional, surgem suspeitas de que outros interesses podem estar por trás de tamanho patriotismo.

O que chama a atenção quando se destrincham as relações entre a Bombardier e o governo canadense é uma promiscuidade associada normalmente à mais rastaqüera das repúblicas bananeiras. A Bombardier foi a principal financiadora da campanha do Partido Liberal, que elegeu o primeiro-ministro Jean Chrétien. O presidente executivo da empresa foi vice-ministro da Indústria e Comércio. Tem mais. O filho do primeiro-ministro canadense é casado com a filha do ex-presidente da companhia – o que em si não quer dizer nada, mas somado aos outros fatos acentua o tal mau cheiro a que o Globe and Mail se referiu no artigo publicado na semana passada. Ou seja, é o velho favorecimento aos amigos disfarçado de defesa dos interesses nacionais. Nada mais Terceiro Mundo que uma empresa com um poder tão avassalador que é capaz de fazer chover dentro de um governo.


Larry Downing/Reuters

O primeiro-ministro Jean Chrétien: laços econômicos e familiares põem sob suspeita a relação entre o governo do Canadá e a Bombardier


O que toda essa confusão demonstra é que o Brasil está crescendo e tornando-se um competidor incômodo para as grandes potências. Nos últimos anos, principalmente por causa da estabilidade da economia e da abertura para o exterior, o país ocupou um espaço inédito. O embaixador brasileiro nos Estados Unidos, Rubens Barbosa, acha que essas brigas serão cada vez mais freqüentes. O motivo é simples. O Brasil está surgindo como um competidor importante no jogo globalizado. "Temos de estar cada vez mais preparados para enfrentar esses embates comerciais. Nesse mercado não tem freirinha", ironiza. A questão é que, para entrar nessa briga de gente grande, o Brasil precisa dispor das mesmas armas de que dispõem os países desenvolvidos. Estados Unidos, Canadá, Japão e toda a turma da União Européia têm um batalhão na OMC para defender seus interesses. O Brasil só conta com o corpo diplomático, que, comparado ao time dos grandes, lembra o exército de Brancaleone. Até 1999 o Brasil não tinha sequer uma equipe de assessoramento à diplomacia brasileira na OMC. Foi o BNDES que sugeriu que se montasse um grupo de experts em questões comerciais para brigar pelos interesses das empresas brasileiras. Outra diferença entre o Brasil e seus competidores é que quase todos eles contam com o apoio de empresários para ajudar a levantar as questões. O jogo comercial é pesado, e, se o país não estiver preparado com um arsenal de advogados e especialistas nesses trâmites de comércio internacional, vai perder a parada. O Brasil está passando por um primeiro teste. Mas a guerra está só começando.

 

O Canadá perde mais na briga...                  ...com o Brasil

 

Deixaria de exportar 1,1 bilhão de dólares por ano para o Brasil

Empresas canadenses ficariam de fora das novas privatizações de estatais brasileiras

Empresas canadenses já instaladas no Brasil perderiam as linhas de crédito oficiais

 

Batalha naval


Barco francês retido em Natal


No tabuleiro do comércio internacional estão em jogo alguns dos mais pesados interesses das nações. Nesse embate, todos blefam. Freqüentemente, pendências comerciais camuflam-se em questões religiosas, ambientais ou de saúde pública. Um dos mais importantes embates do Brasil ganhou nome folclórico – a Guerra da Lagosta – e a fama de ter levado o general De Gaulle a dizer algo que nunca disse, que "o Brasil não é um país sério". Na verdade, as lagostas pouco tiveram a ver com a briga de 1962, que culminou na apreensão de cinco pesqueiros franceses na costa do Nordeste. O que estava em discussão era a extensão do mar territorial, ainda não definida pelo direito internacional. Além disso, a França alegava que lagostas nadam e, portanto, não fazem parte do mar de país algum. Em outros dois grandes choques brasileiros, a questão central era o direito de os países protegerem sua própria indústria. Na década de 80, a Lei de Informática criou a reserva de mercado para os fabricantes brasileiros e provocou a ira americana. Na década seguinte, as baterias voltaram-se para o aço. Sob o pretexto de que a indústria siderúrgica, ainda estatal, era subsidiada, os EUA impuseram uma sobretaxa a suas importações de aço brasileiro. O Brasil privatizou as siderúrgicas, acabou com qualquer subsídio e a sobretaxa persistiu – tudo para proteger a indústria americana.

 

 

Com reportagem de Márcio Pacelli, de Brasília

 
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