A
nossa especialidade
Ilustração Pepe Casals
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Leonardo DiCaprio engordou 21 quilos para o novo filme de
Martin Scorsese. Espalhadas pelos jornais, notícias
desse tipo funcionam como minas: explodem quando, distraidamente,
se comete a imprudência de passar os olhos em cima delas.
Ficam impregnadas em nossas mentes por toda a eternidade,
ocupando espaço, mutilando nossos cérebros,
impedindo que memorizemos fatos mais relevantes. Desta vez,
porém, resolvi reagir. A única maneira segura
para desativar uma notícia inútil é extrair
dela alguma ideiazinha. Foi o que tentei fazer abaixo.
O filme que exigiu o aumento de peso de Leonardo DiCaprio
foi Gangues de Nova York. Está sendo rodado
nos estúdios de Cinecittà, em Roma. Conta
o surgimento do crime organizado irlandês e italiano
nos Estados Unidos. É o 18º filme de Scorsese.
De seus dezoito filmes, onze tratam de criminosos, sobretudo
mafiosos ou psicopatas. O cinema americano sempre gostou
de criminosos, dos pistoleiros de faroeste aos contrabandistas
de álcool durante a lei seca, dos ladrões
de banco aos prisioneiros em fuga das cadeias, dos policiais
violentos aos assassinos profissionais.
Mas a coisa vai muito além do cinema americano. Todas
as culturas, de uma forma ou de outra, mitificaram seus
criminosos, glorificando-os na literatura, na música,
no teatro, na pintura. Os pícaros espanhóis,
por exemplo. Ou os samurais desgarrados. Ou os piratas ingleses.
Ou os bandoleiros revolucionários mexicanos. Claro
que ninguém quer encontrar um criminoso de verdade
pela frente. Bom criminoso é o de mentira, que empunha
armas inofensivas de papel ou celulóide, encarnando
alguns dos principais atributos humanos: a força
de vontade, a esperteza, o sangue-frio, o inconformismo,
a luta contra as injustiças.
A cultura brasileira também tem uma forte tradição
nesse sentido, dos cangaceiros da literatura sertaneja aos
traficantes de droga da música rap. Como sempre,
erramos o alvo. Bandidos de morro, matadores e trombadinhas
são peixe pequeno. A nossa verdadeira especialidade
criminosa é a lavagem de dinheiro, como demonstrou
o cruzamento dos dados da CPMF com o imposto de renda. O
submundo brasileiro está escondido nos escritórios
dos contadores, no caixa dois, entre comissões, bonificações,
laranjas, testas-de-ferro, empresas fantasmas, paraísos
fiscais, precatórios, CC-5, remessas de lucro, notas
frias, falsas escrituras, licitações armadas,
financiamento a partidos políticos, subsídios
e leis de incentivo cultural. Volta e meia um cineasta brasileiro
filma a criminalidade nas favelas. Seria muito mais instrutivo
se, em vez disso, ele filmasse todas as tramóias
que um cineasta precisa fazer para levantar o dinheiro necessário
para filmar nas favelas.
Essa foi a ideiazinha mais inteligente que consegui ter.
Não inteligente o bastante para desativar a mina
DiCaprio. O pior é que, no momento em que eu começava
a me acostumar à idéia de conviver para o
resto da vida com a notícia de seus 21 quilos a mais,
li que, num acesso de raiva, ele atirou estrume de cavalo
em alguns fotógrafos. Mais uma mina explodindo na
minha pobre cabeça.