Diogo Mainardi

Esta semana
Sumário
Brasil
Internacional
Geral
Economia e Negócios
Guia
Artes e Espetáculos

Colunas
Diogo Mainardi
Stephen Kanitz
Gustavo Franco
Roberto Pompeu de Toledo

Seções
Carta ao leitor
Entrevista
Cartas
VEJA on-line
Radar
Contexto
Holofote
Veja essa
Arc
Notas internacionais
Hipertexto
Gente
Datas
Cotações
Para usar
VEJA Recomenda
Literatura brasileira
Os mais vendidos

Arquivos VEJA
Para pesquisar nos arquivos da revista, digite uma ou mais palavras

Busca detalhada
Arquivo 1997-2000
Busca somente texto 96|97|98|99
Os mais vendidos
 

A nossa especialidade

Ilustração Pepe Casals

Leonardo DiCaprio engordou 21 quilos para o novo filme de Martin Scorsese. Espalhadas pelos jornais, notícias desse tipo funcionam como minas: explodem quando, distraidamente, se comete a imprudência de passar os olhos em cima delas. Ficam impregnadas em nossas mentes por toda a eternidade, ocupando espaço, mutilando nossos cérebros, impedindo que memorizemos fatos mais relevantes. Desta vez, porém, resolvi reagir. A única maneira segura para desativar uma notícia inútil é extrair dela alguma ideiazinha. Foi o que tentei fazer abaixo.

O filme que exigiu o aumento de peso de Leonardo DiCaprio foi Gangues de Nova York. Está sendo rodado nos estúdios de Cinecittà, em Roma. Conta o surgimento do crime organizado irlandês e italiano nos Estados Unidos. É o 18º filme de Scorsese. De seus dezoito filmes, onze tratam de criminosos, sobretudo mafiosos ou psicopatas. O cinema americano sempre gostou de criminosos, dos pistoleiros de faroeste aos contrabandistas de álcool durante a lei seca, dos ladrões de banco aos prisioneiros em fuga das cadeias, dos policiais violentos aos assassinos profissionais.

Mas a coisa vai muito além do cinema americano. Todas as culturas, de uma forma ou de outra, mitificaram seus criminosos, glorificando-os na literatura, na música, no teatro, na pintura. Os pícaros espanhóis, por exemplo. Ou os samurais desgarrados. Ou os piratas ingleses. Ou os bandoleiros revolucionários mexicanos. Claro que ninguém quer encontrar um criminoso de verdade pela frente. Bom criminoso é o de mentira, que empunha armas inofensivas de papel ou celulóide, encarnando alguns dos principais atributos humanos: a força de vontade, a esperteza, o sangue-frio, o inconformismo, a luta contra as injustiças.

A cultura brasileira também tem uma forte tradição nesse sentido, dos cangaceiros da literatura sertaneja aos traficantes de droga da música rap. Como sempre, erramos o alvo. Bandidos de morro, matadores e trombadinhas são peixe pequeno. A nossa verdadeira especialidade criminosa é a lavagem de dinheiro, como demonstrou o cruzamento dos dados da CPMF com o imposto de renda. O submundo brasileiro está escondido nos escritórios dos contadores, no caixa dois, entre comissões, bonificações, laranjas, testas-de-ferro, empresas fantasmas, paraísos fiscais, precatórios, CC-5, remessas de lucro, notas frias, falsas escrituras, licitações armadas, financiamento a partidos políticos, subsídios e leis de incentivo cultural. Volta e meia um cineasta brasileiro filma a criminalidade nas favelas. Seria muito mais instrutivo se, em vez disso, ele filmasse todas as tramóias que um cineasta precisa fazer para levantar o dinheiro necessário para filmar nas favelas.

Essa foi a ideiazinha mais inteligente que consegui ter. Não inteligente o bastante para desativar a mina DiCaprio. O pior é que, no momento em que eu começava a me acostumar à idéia de conviver para o resto da vida com a notícia de seus 21 quilos a mais, li que, num acesso de raiva, ele atirou estrume de cavalo em alguns fotógrafos. Mais uma mina explodindo na minha pobre cabeça.

 

Copyright 2001
Editora Abril S.A.
  VEJA on-line | Veja São Paulo | Veja Rio | Veja Curitiba
Veja BH | Veja Fortaleza | Veja Porto Alegre | Veja Recife
Edições especiais | Especiais on-line | Estação Veja
Arquivos | Próxima VEJA | Fale conosco