Entrevista Sidney Glina

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Sexo sem susto

Médico mostra que os jovens também são
muito vulneráveis à impotência e fala dos
novos tratamentos para beneficiar os casais

Fábio de Oliveira

 
Renato Chauí
"A impotência responde hoje por 90% dos casos em consultório, bem mais que ejaculação precoce e perda do desejo sexual"

Em 1997, o urologista paulistano Sidney Glina participou da etapa de testes para o lançamento no Brasil do Viagra, a pílula azul que mudou o rumo do tratamento da impotência sexual. Hoje, ele avalia que o remédio também ajudou muito a disseminar o debate sobre o assunto, um dos tabus no país. Aos 46 anos de idade, Glina coordena o Serviço de Reprodução Humana do Hospital Albert Einstein, é sócio do Instituto H. Ellis, uma das clínicas mais requisitadas de São Paulo, e preside a Sociedade Internacional para a Pesquisa da Impotência, sendo o primeiro representante da América Latina a ocupar o cargo. Tem dois livros voltados para um público amplo: Os Órgãos de Adão e (Im)Potência Sexual. Além da disfunção erétil, nome do jargão médico para a impotência, Glina lida em seu consultório com casos de ejaculação precoce e recebe um número crescente de pessoas querendo saber o que fazer para aumentar o tamanho do pênis. Sem contar as mulheres pragmáticas que empurram os maridos para a consulta médica. A seguir, a entrevista.

Veja – Qual o problema mais freqüente dos homens que procuram seu consultório?
Glina – É a impotência, sem dúvida. A ejaculação precoce responde por apenas 10% dos casos. Nossa média de idade dos pacientes é de 48 anos. É uma população mais velha. Dessa forma, vai haver mais impotência do que ejaculação precoce. A terceira maior preocupação é a perda do desejo.

Veja – É na faixa dos 40 anos que o homem está mais propenso à impotência?
Glina – Não. O jovem também está muito vulnerável por falta de informação. Vejo muitos pacientes entre 17 e 21 anos de idade. O indivíduo que não tem informação e vai para uma relação sexual é uma coisa complicada. Tenho muitos pacientes que marcam consulta para tirar dúvidas. Eles se sentam comigo e começam a perguntar: "Puxa, é normal isso, é normal aquilo, eu não consigo isso, não consigo aquilo". Afinal, onde se aprende sobre sexo? Não é na escola. Em casa, nem se fala. Continua a se aprender na rua, ouvindo dos amigos, ou nos shows da televisão. É um aprendizado no qual as pessoas despachadas vão bem, mas há muitos indivíduos inseguros, com medo.

Veja – O senhor tem números sobre isso?
Glina – De acordo com as estatísticas americanas, metade dos homens tem alguma dúvida em relação a problemas sexuais. É sempre falta de informação. Causas orgânicas não são comuns em jovens. Em meu consultório, entre os pacientes abaixo de 50 anos, 90% têm problemas de natureza psíquica. Acima dessa idade, as causas orgânicas representam 65% e as psíquicas, 35%.

Veja – O que a medicina e a psicologia têm a oferecer atualmente?
Glina – Há dois tipos básicos de tratamento. Para aqueles que têm impotência de fundo emocional, é possível fazer uma terapia de natureza psicológica. Se ele tem um problema orgânico, por exemplo – foi submetido a uma extração cirúrgica da próstata ou tem problemas decorrentes do diabetes –, é possível colocar uma prótese. Nesses casos, você curou o paciente, ele voltou a ter ereção, não precisa voltar a tomar mais nenhum remédio. Por outro lado, há o tratamento paliativo. Toda vez que o indivíduo vai ter uma relação sexual, ele tem de usar o remédio. São os comprimidos orais e as injeções penianas. O paciente tem dificuldades psicológicas? Toma o medicamento oral. Se tem problema orgânico, ele vai usar uma injeção.

Veja – Quais são os principais fatores psicológicos e orgânicos que afetam o homem?
Glina – Há um estudo clássico nos EUA, com homens de 40 a 70 anos de idade, que revelou que o principal fator de risco para o indivíduo ficar impotente é a depressão. Ela acaba com todas as vontades: de trabalhar, de comer e de ter sexo. Há também a ansiedade, que influencia muito. Na população em geral, respondem por 30% dos casos os fatores orgânicos, como diabetes, aterosclerose, cirurgias pélvicas, problemas hormonais, remédios e cigarro. Metade dos indivíduos que ficam com diabetes durante seis anos sem compensar, ou compensando mal, tem impotência.

Veja – Há quem aponte o trabalho em excesso e o stress na vida profissional como causas também.
Glina – Depende de como o indivíduo encara a sexualidade. Quem trabalha muito pode vir a ter poucas relações sexuais, pois em geral não tem tempo ou está sempre cansado. Se ele olhar para isso e encarar como normal, tudo bem. O problema começa quando o indivíduo que não tem tempo para a relação sexual começa a achar que está impotente ou que tem algum problema orgânico e precisa se tratar.

Veja – Nesse caso, como age o desejo sexual?
Glina – Vou fazer uma comparação em vez de dar uma definição rebuscada. Tenho um paciente que estava no meio do ato sexual quando foi interrompido e recebeu a notícia de que sua firma havia sido assaltada. É claro que não dava para continuar. Por outro lado, tenho um caso de um paciente que tinha dificuldades na cama com a esposa. Mas, num caso extraconjugal, no qual ele se encontrava com a namorada ao meio-dia, o pênis funcionava, mesmo se a bolsa de valores estivesse caindo e ele corresse o risco de perder o emprego. O homem acha que o pênis é um máquina, mas não é. O pênis funciona de acordo com o prazer.

Veja – Muitas mulheres acompanham os maridos ao seu consultório?
Glina – Ainda são poucas. Talvez o homem encare isso como um assunto exclusivamente dele. Mas há casos de paciente mandado pela mulher, que chega até a marcar a consulta. De uma maneira geral, elas podem ajudar sendo mais colaboradoras e entendendo o problema. Afinal, ninguém quer ficar impotente. Pelo contrário, a impotência é coisa extremamente frustrante, desgastante para o homem. Quanto mais cobrança, pior. Muitas vezes, a primeira sensação que a mulher tem é de estar sendo traída – por ter "outra", ele não consegue a ereção com ela. E aí só piora o clima e a tendência é de ele passar a fugir da relação sexual.

Veja – Com três anos nas prateleiras das farmácias, qual o balanço que o senhor faz do Viagra?
Glina – A grande vantagem é que esse remédio está sendo aprovado pelo teste do tempo. Os trabalhos científicos iniciais falavam em 80% dos que têm impotência de causas emocionais ou devido a problemas orgânicos leves. O Viagra funciona mesmo. Além disso, teve um efeito colateral positivo ao promover um debate enorme sobre a sexualidade. Isso é muito importante porque a principal causa da impotência de fundo psicológico é a falta de informação, é o tabu, é o mito.

Veja – Não há um pouco de hipocrisia em como isso passou a ser quebrado?
Glina – Pode ser. Até em novela começou a aparecer gente impotente, o que antes não existia. Com a venda indiscriminada do medicamento, o Viagra se tornou algo como uma droga social. Agora o indivíduo vai para a farmácia e compra o Viagra para uma festinha. Perdeu-se um pouco da vergonha e isso é positivo. No começo do Viagra, muitos pacientes pediam para a minha secretária comprar. Hoje, o Brasil já é o segundo país do mundo em termos de venda de Viagra e só perde para os Estados Unidos. Mas comprar sem receita é um uso negativo, pois corre-se o risco de tomar o remédio junto com outros que contenham nitrato, e essa associação pode causar da tontura ao infarto.

Veja – O que há de novo para chegar ao mercado?
Glina – Há três lançamentos. O remédio do laboratório Abbott (o Uprima, com a substância apomorfina) acabou de ser aprovado na Europa e deve chegar ao Brasil até o fim do ano. A principal promessa do Uprima é provocar a ereção em apenas quinze minutos. O Viagra leva de quarenta minutos a uma hora e muitos reclamam que é necessário planejar o ato sexual com antecedência. O Uprima tem uma ação diferente do Viagra, pois funciona numa outra via, atuando pelo sistema nervoso central. O Viagra e os outros remédios são periféricos, agem no pênis. A apomorfina age no cérebro, depende menos do desejo sexual e, teoricamente, poderia garantir mais a ereção.

Veja – Mas fala-se em fortes efeitos colaterais.
Glina – O problema é o que o Uprima provoca náusea – no passado, seu princípio ativo foi usado para estimular o vômito. Se o Uprima funcionar bem, pode até ser uma boa opção para quem não pode tomar Viagra, como os cardíacos que consomem remédios à base de nitrato. A Comissão Européia tramitará agora a parte burocrática e o remédio deve ser lançado em dois ou três meses na Europa. Além do Uprima, há o Vardenafil, da Bayer, que é uma espécie de primo do Viagra, pela semelhança de funcionamento. E, ainda, o Cialis, da Lilly, com segredo em torno. Ambos estão previstos para 2002.

Veja – Por que os jovens sofrem mais de ejaculação precoce?
Glina –
Por ansiedade, 99% das causas da ejaculação precoce são psicológicas. É um quadro que pode evoluir para a impotência. Quem tem ejaculação precoce de longa data acaba ficando impotente. O comportamento é muito frustrante e pode vir a bloquear a ereção. A frustração vem do fato de não conseguir satisfazer a parceira. Ou a parceira reclama mesmo.

Veja – A ejaculação é involuntária?
Glina – É como um espirro. Experimente olhar para o sol e na hora em que for espirrar tente segurar. O homem normal começa do zero e vai subir até o dez para ejacular. O homem que tem ejaculação precoce já sai do cinco. O que demora é o tempo que leva, pois a ejaculação acontece sempre no mesmo lugar. Há mulheres que passam dez anos do casamento e um dia dizem: "Nunca tive um orgasmo e agora quero um". Por outro lado, há homens que acham que a mulher é que demora para chegar lá.

Veja – Até que idade é possível ter relações sexuais?
Glina – Um homem saudável, com uma parceira participativa, pode ter relações sexuais até perto da morte. Tenho paciente com 82 anos que tem relações normais. Óbvio que não é todo dia, que não é como era quando ele tinha 18 anos. Mas ele tem uma atividade satisfatória para o casal. A sexualidade do homem, à medida que envelhece, muda. A ereção não é mais tão rígida, mas suficiente para penetrar, que é o que importa para o pênis, pois afinal ele não foi feito para pendurar toalha. Demora mais tempo para haver a ejaculação e também a segunda relação. O jato de esperma não vai tão longe como o de um adolescente. Nada disso, entretanto, atrapalha a essência do ato.

Veja – As próteses no pênis continuarão a ser indicadas em quais casos?
Glina – Para quem tem uma impotência orgânica. Por exemplo, dos indivíduos que se submetem à retirada total da próstata, de 50% a 80% ficam impotentes. Eles têm duas opções: ou injetar remédio no pênis ou usar a prótese.

Veja – Por que os homens geralmente são tão preocupados com o tamanho do pênis?
Glina – Isso é uma coisa impressionante. Há um mercado emergente de pessoas que solicitam cirurgias e fisioterapias para aumentar o tamanho do pênis, mas isso não funciona. Vejo um ou dois pacientes por semana com essa preocupação. Entretanto, 99% deles têm o comprimento normal. A média do brasileiro, em ereção, é de 13 ou 14 centímetros. Pequeno é considerado abaixo de 7 centímetros em ereção. Por que não aumentar a orelha?

Veja – A técnica dos extensores funciona mesmo para aumentar?
Glina – Não tenho preconceito contra, mas até agora não há nenhum trabalho científico que mostre que o extensor seja efetivo. Existe uma supervalorização do tamanho do pênis em toda cultura: maior é mais poder, mas o funcionamento é o mesmo.

Veja – É possível alguma iniciativa para prevenir a impotência?
Glina – Sim, como nos casos das doenças do coração. Exercício, dieta saudável, controlar o colesterol e os triglicérides, pouco stress e muita educação sexual.

Veja – De zero a 10, que nota o senhor daria para o desempenho sexual do brasileiro?
Glina – Eu nunca tive relação com nenhum brasileiro (risos). Já vi estatística de que o brasileiro é um homem quente. Na verdade, ele é um grande desinformado. A vantagem que o brasileiro tem sobre homens de outros povos é a atitude mais tranqüila em relação ao sexo.

Veja – E o senhor já chegou a ter algum tipo de disfunção erétil?
Glina – Não, graças a Deus! Lidar com isso, o fato de entender todas a nuances, pelo menos conhecer quais são as premissas para uma vida sexual razoável, facilita muito.

 

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