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Gustavo Franco

Os subsídios esquecidos


Alguns megassubsídios
não são definidos
como
tal. Um exemplo é o das aposentadorias
do setor
público. Outro é o dos filhos de famílias
abastadas que estudam gratuitamente nas
universidades públicas



Em muitas instâncias a intervenção do Estado na economia resulta em ampliar a desigualdade e frustrar seus próprios propósitos. Muitos subsídios, por exemplo, são concedidos a quem não deveria recebê-los, e nem sempre a sociedade tem clareza da real natureza do benefício. Com a intenção louvável de iniciar uma discussão sobre esse assunto, a Secretaria de Política Econômica (SPE) do Ministério da Fazenda publicou um extenso e controverso relatório sobre "renúncias fiscais e subsídios". O estudo foi muito criticado por ter incluído nesse rol os impostos não cobrados das exportações e das lojas francas, por exemplo, dando a impressão de que essas "liberalidades" deveriam ser revistas. O estudo não foi propriamente um sucesso de bilheteria, mas acabou, a meu juízo, acertando no que não viu. Existem alguns megassubsídios que não costumam ser definidos como tal, e por isso escapam mais ou menos ilesos do julgamento da opinião pública. Um exemplo importante é o das aposentadorias pagas pelo setor público para as quais o beneficiário pouco ou nada contribuiu no decorrer de sua vida laboral. Outro é o subsídio dado aos filhos das famílias abastadas que estudam gratuitamente nas universidades públicas. Nenhum dos dois aparece no estudo.

Como é bem sabido, nosso sistema de previdência social é fortemente deficitário, e o problema reside principalmente nos aposentados do setor público, cujas contribuições não chegam sequer perto da despesa. Como quem banca a diferença é o contribuinte, a grande pergunta é por que nosso dinheiro tem de financiar a aposentadoria, por exemplo, de um ex-parlamentar, que ganhou esse direito trabalhando durante dois mandatos apenas?

A questão aqui é simples: a aposentadoria do "barnabé" deve ser financiada pelas contribuições de ativos e inativos ou pelas poupanças passadas (capitalizadas) dos próprios "barnabés"? Portanto, quando o dinheiro dos impostos é usado para cobrir essa conta temos subsídio na veia.

Justiça seja feita, foi exatamente contra isso que se insurgiu o governo Fernando Henrique ao formular suas propostas de reforma da Previdência, as quais, infelizmente, acabaram aprovadas somente pela metade. O "rombo" continua, e o relatório da SPE não apenas silencia sobre o assunto como registra que existem muitas "renúncias previdenciárias", dando a impressão absolutamente errada de que o problema ficaria menor com a extinção do Simples ou com a cobrança das contribuições de entidades filantrópicas e de clubes de futebol.

No ensino superior a questão é semelhante, na medida em que a maior parte do dinheiro público é gasta com as universidades federais. Elas custam 6,2 bilhões de reais anuais (1997) para 442.000 alunos, 404.000 dos quais de graduação, ou seja, 14.027 reais per capita. Pesquisas mostram que cerca de 60% dos alunos pertencem às classes A e B, proporção que deve ser maior em São Paulo e menor no resto do país.

As estimativas para a receita que se poderia obter da cobrança de mensalidades são muito variáveis. Se 70% dos alunos pudessem pagar um salário mínimo mensal, chegaríamos a 600 milhões de reais anuais. Há cálculos extra-oficiais do próprio MEC que levariam as receitas (ou as renúncias) ao triplo desse valor, mesmo livrando aqueles que não podem pagar. Muita coisa pode ser feita com esse dinheiro dentro da própria universidade: o seqüenciamento da Xylella fastidiosa, por exemplo, uma das maiores vitórias da pesquisa científica nacional, custou pouco mais de 20 milhões de reais.

O verdadeiro problema aqui, todavia, é reconhecer que a gratuidade para o ensino universitário público implica um enorme subsídio, várias vezes maior que a "renúncia", esta sim reconhecida pela SPE, ensejada pelas deduções da base de cálculo do imposto de renda para gastos com instrução.

Em conclusão, um subsídio de grandes dimensões pode permanecer oculto ou ileso durante muitos anos quando a hipocrisia conceitual é trabalhada com competência pelos beneficiados.


Gustavo Franco é economista da PUC-RJ e ex-presidente do Banco Central (gfranco@palavra.inf.br)

 

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