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| Foto Digital Domain |
| O Titanic do filme: fachada de 236 metros criada em estúdio |
Titanic,
que estréia nesta sexta-feira no Brasil, é um fenômeno
quase tão espantoso quanto a tragédia em que foi
inspirado. Dirigida por James Cameron, um mestre dos
filmes de ação que tem em seu currículo O
Exterminador do Futuro e True Lies, a fita é
a mais cara produzida em Hollywood em todos os tempos.
Numa estimativa conservadora, consumiu 200 milhões de
dólares. Na história do cinema, só perde para uma
produção soviética de 1968, uma adaptação de oito
horas de duração do romance Guerra e Paz, de
Leon Tolstoi, que consumiu 482 milhões de dólares
e
que, bancada pelo governo comunista, não precisava
recuperar o investimento na bilheteria. Surge a pergunta:
por que Hollywood, que não é subsidiada pelo ouro de
Moscou, gastaria tanto dinheiro para recontar uma
história que ocorreu há 85 anos, que já inspirou uma
dezena de filmes e cerca de 100 livros e cujo final é
conhecido por quase todo mundo? A resposta mais óbvia é
esta: Hollywood confiou no fascínio inesgotável dessa
velha história de naufrágio. E a prova de que
Hollywood, mais uma vez, estava certa foi dada nas três
últimas semanas, desde que o filme estreou em 2.660
salas de exibição dos Estados Unidos. As pessoas fazem
filas de dobrar quarteirão na porta dos cinemas. Nos
primeiros seis dias de exibição, o filme arrecadou 52
milhões de dólares. Nas primeiras três semanas, a
renda alcançou 165 milhões. Nesse ritmo, Titanic
avança, em velocidade de cruzeiro, para bater os dois
maiores sucessos do ano passado
Homens
de Preto, com 243 milhões de dólares, e O Mundo
Perdido, continuação de O Parque dos
Dinossauros, que arrecadou 229 milhões.
É um desempenho e
tanto para um filme que, dados os problemas de
produção, parecia caminhar para bater o recorde oposto
o
de o fracasso mais retumbante da história do cinema.
Enquanto Titanic engolia 45.000 dólares por hora
de trabalho, o diretor Cameron, estressado, perdia tempo
em brigas com os produtores e atores, inclusive os dois
protagonistas, o galã Leonardo DiCaprio
símbolo sexual adolescente desde que estrelou uma
adaptação modernosa de Romeu e Julieta
e
a talentosa jovem atriz inglesa Kate Winslet, indicada
para um Oscar por Razão e Sensibilidadeelogiadíssima
por sua Ofélia no Hamlet de e Kenneth Branagh.
DiCaprio gritava para quem quisesse ouvir que gostaria de
afogar o diretor no tanque de água construído para as
filmagens na Praia de Rosarito, no México. Kate Winslet
pediu uma folga, não foi atendida, e seus advogados
tiveram de arrumar um atestado médico para livrá-la de
uma estafa. Tudo isso atrasou o filme, que deveria ficar
pronto para as férias de verão americanas, em julho.
Depois de fazer uma reportagem no set de filmagem, o
jornal americano The New York Timesespécie de
obituário artístico de Cameron. escreveu uma Achava-se
que o diretor teria o segundo fracasso de sua carreira. O
primeiro, coincidência ou não, fora num filme
igualmente náutico
o chatíssimo 1989, que
custou 50 milhões de O Segredo do Abismo, de
dólares na época e não se pagou.
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| Fotos: Merie W. Wallace | ||
| Detalhes da reconstituição do navio: cópias de móveis e louças absolutamente fiéis aos originais. No Titanic, havia réplicas da decoração de cafés parisienses e os camarotes eram equipados com salas no estilo elizabetano | ||
Chegou o inverno e
Cameron saboreou sua vingança no frio. Diante da
grandiosidade do filme, o mesmo The New York Times
o elegeu como o melhor de 1997. Chegou a comparar Titanic
a ...E o Vento Levou, escrevendo que desde o
lançamento da adaptação do romance de Margaret
Mitchell a indústria hollywoodiana não colocava no
mercado uma produção de tanto impacto. A comparação
com ...E o Vento Levou levou em consideração
também o enredo do filme. Grande parte do sucesso de Titanic
se deve ao apelo do par romântico principal. Cameron,
que além de dirigir o filme também escreveu o roteiro,
criou, tendo como pano de fundo o desastre, uma história
de amor envolvendo uma menina mimada, com muito de
Scarlett O'Hara
ela gosta de pintura
moderna e lê Sigmund Freud numa época em que ambas as
coisas eram consideradas escandalosas
,
e um rapaz criado no submundo. Ambos são mal saídos da
adolescência, o que faz da história de amor que se
desenvolve no navio uma espécie de Romeu e Julieta sobre
as ondas, potencializada pelo fato de que eles não se
amam na plácida cidade italiana de Verona, mas num navio
que
todos sabem desde o começo
irá
a pique no final do filme.
O espectador
americano enfrenta o frio nas filas na porta do cinema
não apenas por causa de uma história de amor fictícia,
mas principalmente devido ao apelo da tragédia original.
No século XX, a humanidade viu vários desastres navais
e aéreos, muitos deles de grande impacto visual
como o do dirigível Hindenburg, que virou uma
bola de fogo no céu em 1937, para terror dos que
acompanhavam o espetáculo em terra
ou de elevada carga dramática
como a queda de um avião uruguaio nos Andes em 1972,
quando os dezesseis sobreviventes, incomunicáveis na
cordilheira, tiveram de se alimentar da carne dos 29 que
morreram. Nenhum deles, no entanto, se compara à
tragédia do Titanic, a maior máquina construída
até então, com 46000 toneladas, 260 metros de
comprimento
em pé, teria a altura de
um prédio de dez andares
,
e para a qual se criou até um neologismo de gosto
duvidoso: o "insubmergível" (unsinkable,
em inglês). Pois esse símbolo da pujança da melhor
tecnologia desenvolvida até então pelo homem nem
precisou colidir com a natureza para que a supremacia
desta última ficasse clara. Bastou um esbarrão do casco
com um iceberg para provocar o naufrágio do navio, de
maneira espetacular. Primeiro submergiu a proa, depois o
navio rachou em duas partes e a metade da popa ficou em
posição vertical, para depois também ir para o fundo
como uma flecha furando o oceano. Enquanto isso, pessoas
desesperadas mergulhavam no mar gelado, numa espécie de
suicídio coletivo. Todo o processo
do esbarrão no bloco de gelo à submersão final
durou apenas duas horas e quarenta minutos. Menos que a
duração do filme de Cameron, que tem três horas e
catorze minutos. Dos 2.228 passageiros a bordo, 1.523
morreram.
Um mundo
recriado
O impacto visual não seria
suficiente para manter o Titanic vivo na memória
da humanidade por quase um século não fosse também a
pompa que cercou o navio. A bordo havia um resumo da
sociedade da época. Na primeira classe, viajando do
porto de Southampton, Inglaterra, para Nova York, já a
maior cidade dos Estados Unidos, estavam figuras
eminentes dos dois países. Entre elas, o banqueiro
Martin Rothschild, o magnata do petróleo Howard Case e
Alfred Vanderbilt, dono de uma das maiores redes de
ferrovias dos Estados Unidos. A primeira viagem do Titanic
foi uma espécie de acontecimento, numa época em que os
homens de posses vestiam casaca para jantar, tinham
criados pessoais e suas mulheres viajavam levando enormes
baús abarrotados com suas melhores roupas e jóias
caríssimas. O interior do Titanic, decorado como
um hotel de alta classe, foi cuidadosamente preparado
para servir de cenário a esse festival de ostentação.
Dentro, havia a reprodução de um luxuosíssimo café
parisiense, o banho turco era decorado com lâmpadas
mouriscas e cada camarote tinha uma sala de estar em
estilo elizabetano. Na segunda e terceira classes, cujas
passagens custavam mais barato, viajavam pessoas pobres
do sul e leste europeus com um sonho típico do século
XX: fazer a América.
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Leonardo
DiCaprio e Kate Winslet: James Cameron criou um Romeu e Julieta sobre as ondas para fazer contraponto às cenas de catástrofe |
Para reproduzir na tela esse episódio espetacular, o diretor James Cameron não economizou recursos. Encomendou cópias de louças e móveis absolutamente fiéis aos originais para espatifá-los no momento certo. Mandou fazer uma réplica da fachada do navio para as cenas externas (só a fachada; as cenas internas e do convés foram realizadas em estúdio), seguindo o projeto original do navio, desenvolvido num estaleiro de Belfast, hoje capital da Irlanda do Norte. Para filmar a cena do naufrágio, não recorreu a programas de computador, como Spielberg faria. Mandou construir um tanque de 64 milhões de litros de água, o equivalente a 33 piscinas olímpicas cheias. Engenheiros hidráulicos planejaram cuidadosamente a cena em que a carcaça submergiria no tanque. Se não desse certo, não haveria uma segunda chance para fazer a filmagem porque toda a estrutura se esfrangalharia no primeiro mergulho. Obsessivo, o próprio Cameron mergulhou doze vezes na costa da Nova Escócia, local onde o navio submergiu e sua carcaça foi encontrada há doze anos pelo navegador Robert Ballard. Dessa aventura, tirou inspiração para escrever as cenas iniciais do filme, que mostram um time de mergulhadores escarafunchando os destroços do navio em busca de jóias perdidas. A partir daí, a história é contada em flashback pela dona de uma dessas jóias, uma sobrevivente de 102 anos que, no passado, era a menina mimada interpretada pela bela Kate Winslet. Para representar a personagem idosa, Cameron recorreu à atriz Gloria Stuart, de 87 anos, uma veterana de filmes de John Ford que estava aposentada havia cinqüenta anos.
Cantilena
racista
Ocorrida à noite, a 700
quilômetros de distância da cidade mais próxima, numa
época em que não existia televisão e a fotografia
ainda era rudimentar, a tragédia do Titanic foi
emergindo aos poucos, na forma dos relatos dos 705
sobreviventes. Uma história com tantas versões e tantos
lances dramáticos poderia ser contada de várias
maneiras. Esses enfoques diferentes do mesmo
acontecimento acabaram por conferir um interesse especial
ao caso Titanic e são uma das razões que ajudam
a explicar a permanência da imagem do navio na mente das
pessoas. Cada época contou a história a seu jeito e
extraiu dali uma moral diferente. Em três momentos do
século a tragédia do Titanic foi exaustivamente
explorada pela literatura e pelo cinema. O primeiro,
claro, logo após o desastre. O primeiro filme sobre o Titanic
foi lançado apenas um mês depois do naufrágio.
Chamava-se Saved from the Titanic (Salva do
Titanic) e baseava-se no relato de uma das
sobreviventes, a atriz Dorothy Gibson, que, para dar
credibilidade à produção, interpretava a si própria.
O segundo momento foi o pós-guerra, quando começou a
surgir no mundo uma nostalgia dos tempos em que os homens
davam lugar às mulheres. E o terceiro, nos dias de hoje,
motivado pela descoberta dos destroços do navio, em
1985.
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Cena
do naufrágio: para reproduzi-lo com precisão, o navio foi mergulhado num tanque com 64 milhões de litros de água |
Na obra A
Cultural History of the Titanic Disaster (Uma
História Cultural do Desastre do Titanic),
lançada em 1996 nos Estados Unidos e ainda não
traduzida para o português, o historiador americano
Steven Biel se propõe a mostrar como cada época extraiu
uma lição diferente do mesmo drama. Nos tempos do
naufrágio, a história serviu para alimentar debates
sobre racismo e feminismo. O ano em que o navio bateu num
iceberg, 1912, foi o da maior passeata nos Estados Unidos
das chamadas "sufragistas"
as mulheres que defendiam o voto feminino. Usou-se o Titanic
para atacá-las porque, no momento do naufrágio,
prevaleceu a chamada "lei do mar"
ou seja, numa situação de perigo, as mulheres e
crianças são salvas em primeiro lugar. "Se as tais
sufragistas estivessem no convés do Titanic, não
clamariam por igualdade. Com certeza recorreriam, isto
sim, à antiga instituição do cavalheirismo para ser
salvas", escreveu um leitor do Baltimore Sun,
jornal que atacava as feministas em editoriais. Claro que
as mulheres não ficaram caladas. Lembraram que o navio
era dirigido por homens, e acabou indo a pique. Uma
charge publicada em jornais feministas sugere que o Titanic
seria como os Estados Unidos
se os homens continuassem em seu comando, sem a
influência que as mulheres poderiam exercer pelo voto,
poderiam bater num iceberg.
O ano de 1912 foi também de tensões raciais, com o surgimento de vários movimentos protestando contra o linchamento de 61 negros nos Estados Unidos. O Titanic acabou servindo de mote à cantilena racista, embasada em números que, examinados com olhos de hoje, dão a sensação de que a morte acabou sobrando para o lado mais fraco. Sessenta por cento dos integrantes da primeira classe sobreviveram, contra 44% da segunda e 25% da terceira. Os jornais da época viram esses números através de uma lente peculiar. O San Francisco Examiner lamentou em editorial que grandes personagens da elite americana como o banqueiro Benjamin Guggenheim, patriarca da família que hoje batiza uma griffe de museus, tivessem perecido para salvar a vida de "mulheres analfabetas do leste europeu".
Romance
arrebatador
Outros foram mais fundo
no racismo, escrevendo que os "cavalheiros" da
primeira classe mantiveram a calma até o final, enquanto
os eslavos e latinos da terceira "se rendiam ao
pânico e gritavam como cães ou porcos" (esquecendo
de mencionar, claro, que em todo navio que afunda são os
compartimentos de baixo que inundam primeiro). Baseados
nesse detalhe, vários escritores
entre eles Conan Doyle, criador do personagem Sherlock
Holmes
redigiram textos exaltando a
superioridade do homem anglo-saxão, com seu
autodomínio, sobre o latino e o eslavo. Quem chamou a
atenção para o absurdo desses artigos foi outro homem
de letras, o irlandês George Bernard Shaw, que escreveu:
"Um fato (o acidente) que deveria ferir seriamente o
orgulho britânico acabou tendo o efeito oposto, ou seja,
serviu de pretexto para a exaltação da raça
anglo-saxã". E arrematou: "Em vez de
envergonhados, os ingleses se tornaram insolentes e
mentirosos, além de mostrar que acreditam em bobagens
românticas".
Na política, o Titanic
serviu de combustível a panfletos de todas as
colorações ideológicas. Os socialistas bateram na
tecla da prioridade dada aos ricos no salvamento para
clamar contra a "injustiça social" e a
"ganância do capitalismo". Até os nazistas
deram um jeito de se aproveitar da história para
construir uma fábula edificante a seu modo. Fizeram um
filme em 1943 em que incluíram no naufrágio um oficial
alemão, sábio e ponderado
além, é claro, de fictício
,
que alertava os ingleses para o perigo que corriam com
sua arrogância. No plano da ficção, o desastre
forneceu combustível para dezenas de romances, o mais
recente da festejada escritora britânica Beryl
Bainbridge, que escreveu um livro com o sugestivo título
de Every Man for Himself (Cada Um por Si). A
autora de livros açucarados Danielle Steel, em Amor
sem Igual (1991), usou a história do Titanic
como pano de fundo para uma mescla de sacarose com a
ideologia dos dias atuais. Sua heroína Edwina Winfield
viaja com o homem de sua vida para se casar nos Estados
Unidos, mas o navio afunda e ela permanece virgem (nada
mais Danielle Steel). Depois de aportar no Novo Mundo, a
donzela resolve reagir e se transforma em bem-sucedida
mulher de negócios (nada mais "mulher anos 90"
numa história do princípio do século).
O filme de James Cameron faz uma súmula de todas essas representações do Titanic através dos tempos. Há ali cavalheirismo (reproduz-se na tela a famosa história segundo a qual Benjamin Guggenheim teria dispensado o colete salva-vidas e se paramentado com cartola e casaca para "morrer como um cavalheiro"), uma pitada de crítica social (são dramáticas as cenas em que os portões que dão à terceira classe acesso ao convés são fechados no momento do naufrágio) e também a condenação da arrogância, representada pelo capitão do navio, que teria aumentado a velocidade com o intuito de chegar mais cedo ao seu destino, sem ligar para os alertas da presença de icebergs. Nada disso, isoladamente, garantiria o sucesso do filme. É a combinação desses ingredientes com os impressionantes efeitos especiais na hora do naufrágio, sem esquecer o romance arrebatador dos dois personagens centrais, que faz de Titanic um programa de primeira. O sucesso do inverno americano tem tudo para ser o filme do verão brasileiro.
...nos tempos da belle époqueOs relatos
sobre o naufrágio serviram para fazer propaganda
racista e antifeminista. O escritor George
Bernard Shaw observou que a tragédia, em vez de
golpear o orgulho inglês, teria servido para
exaltar a raça anglo-saxã ...depois da II GuerraO best-seller A Night to Remember, de Walter Lord, ponto de partida para filmes e especiais de TV, vendia a idéia de que o Titanic seria "o fim de uma era" cheia de valores positivos, como a nobreza e o cavalheirismo. O tom nostálgico comoveu um mundo recém-saído de uma convulsão ...nos dias de hojeHá uma
fornada de livros sobre o assunto, a maioria
deles de arte, com mapas e desenhos. Escritores,
de Beryl Bainbridge a Danielle Steel, usam a
tragédia como matéria-prima para a ficção. O
cineasta James Cameron não se satisfez com a
história original |
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