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Alto-relevo
do período ptolomaico |
| Fotos: Dagli Orti |
Há novidades de arrepiar, como os 24 metros de papiros do célebre Livro dos Mortos, uma espécie de breviário das almas para a vida além-túmulo, compilado cerca de 1600 anos antes de Cristo, ou a reconstituição detalhada de algumas tumbas de dinastias variadas, permitindo ao visitante sentir-se um pouco como um arqueólogo. Também estão expostas as obras-primas tradicionais do acervo, como a estátua de bronze incrustada de ouro e prata da rainha Karomana (1000 a.C.); a estátua da rainha Hatshepsut, a única mulher-faraó do Egito, que viveu por volta de 1500 a.C. (cujo templo, na região da atual cidade de Luxor, foi alvo do atentado terrorista em novembro que matou 58 turistas); ou ainda a escultura com os traços amargos do rosto de Sesóstris III (1850 a.C.), faraó que ampliou o império para o sul do Egito e foi um notável fazedor de obras. O fascínio francês diante dos cinco milênios de civilização egípcia está estampado espetacularmente em seu museu mais famoso: nos anos 80, quando o Louvre passou por uma reforma geral, o arquiteto encarregado de bolar uma nova fachada para o museu, o sino-americano I.M. Pei, recorreu justamente a uma pirâmide de vidro. Num resultado inusitado, a forma mais faraônica fundiu-se num conjunto harmônico com a austera arquitetura neoclássica do Louvre.
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| Estátua de bronze e ouro da rainha Karomana: obra-prima tradicional |
Quando
invadiu o Egito, Napoleão Bonaparte ambicionava
equiparar-se aos grandes conquistadores da Antiguidade.
Foi malsucedido militarmente, mas gerou a obra que
inaugurou a egiptologia, Descrição do Egito, uma
enciclopédia de vinte volumes editada entre 1809 e 1828
pela equipe de 150 naturalistas, engenheiros,
matemáticos e desenhistas que Napoleão levou ao Egito.
A França é também o berço da egiptomania, uma versão
popular e ligeira do estudo da civilização dos faraós,
consagrada inicialmente com o estilo "retorno do
Egito", ou império, moda do século passado que
tomou de assalto a arquitetura, o mobiliário e a
joalheria da época. A mania cresceu sem parar, varando o
século e transbordando fronteiras, até revestir-se de
sua forma mais glamourizada
e
rigorosamente falsificada
em duas superproduções de Hollywood dirigidas por Cecil
B. De Mille, Os Dez Mandamentos (1956) e Cleópatra
(1963).
O segredo
da pedra
A egiptologia é marcada por dois
saltos espetaculares em sua trajetória científica: a
decifração dos hieróglifos gravados na Pedra de
Roseta, em 1822, que permitiu ler os textos deixados
pelos antigos egípcios, e a escavação que trouxe ao
mundo os tesouros do faraó-menino Tutankamon, em 1922.
Os dois eventos impulsionaram notavelmente o interesse
popular pelo antigo Egito. A Descrição do Egito
é um marco da egiptologia porque recenseou pela primeira
vez, em textos e ilustrações perfeitos, grande parte do
material arqueológico e dos documentos antigos então
disponíveis no Egito. Daí para a frente, a cada salto
importante da egiptologia sempre correspondeu uma onda de
egiptomania.
Foram versões de
um mesmo texto em grego, hieróglifo e demótico (a
escrita egípcia de uso popular, mais simplificada) na
pedra de basalto negro encontrada em Roseta (hoje Rachid,
no delta do Nilo) que permitiram ao historiador e
lingüista francês Jean-François Champollion desvendar
o quebra-cabeça da escrita antiga. Champollion virou
patrono dos egiptólogos, fundador e primeiro curador da
seção de antiguidades egípcias do Louvre, em 1826.
Graças a ele, o rei Carlos X soltou a verba para que o
museu adquirisse as coleções de diplomatas europeus que
tinham servido, ou ainda serviam, no Egito. Durante
décadas sucessivas, o Museu do Louvre acumulou a maior
coleção de antiguidades egípcias fora do Egito, com um
total de 55.000 objetos, entre murais, peças de
estatuária e arquitetura. A título de comparação: a
famosa ala egípcia do Museu Britânico, em Londres,
reúne 30000 peças. A egiptomania gerou também
exposições memoráveis
apenas uma delas, a das riquezas de Tutankamon, atraiu
mais de 1,2 milhão de visitantes ao Petit Palais de
Paris, em 1967.
Nas décadas de 20
e 30 do século passado, a pilhagem de monumentos e
templos fúnebres no Egito, sob o reinado corrupto de
Mohammed Ali, era moeda corrente. Quem podia tirar
proveito da situação, caso específico dos diplomatas
das potências européias mais influentes na época,
Inglaterra e França, se locupletou. O exemplo mais
concreto desse saque está fincado desde 1836 no
coração da Place de la Concorde, em Paris
um obelisco de 230 toneladas que o aventureiro francês
Léon-Daniel Joannis retirou das ruínas de Luxor, a
antiga Tebas dos faraós, e transportou para a França de
navio. A pilhagem sistemática foi a base do acervo de
muitos museus europeus. Houve casos em que até o
pilhador era pilhado: todos os objetos e peças
surrupiados por Napoleão dos egípcios foram confiscados
como butim de guerra pelos ingleses. (Em 1798, a frota
naval britânica, comandada pelo almirante Nelson, pôs a
pique todos os navios que tinham transportado os soldados
franceses ao Egito.) A própria Pedra de Roseta repousa,
magnífica, numa das salas do Museu Britânico.
Porta
selada
A segunda onda da egiptomania ocorreu neste século,
graças à perseverança de um arqueólogo inglês
chamado Howard Carter e ao tesouro incomparável que
retirou do fundo das areias do deserto. Financiado por
lorde Carnarvon, um rico colecionador de antiguidades,
Carter realizava escavações na região do Vale dos
Reis, perto da antiga Tebas, em 1922, quando topou com
uma escada que descia para baixo do solo, na direção de
uma porta selada. A porta, descobriu-se, levava a uma
antecâmara que, por sua vez, dava para o túmulo ainda
intacto de Tutankamon, o faraó-menino que morreu com 18
anos, cerca de 1323 a.C. Nos dez anos seguintes, Carter
supervisionou a retirada e catalogação de milhares de
objetos da tumba, todos removidos para o Museu do Cairo,
inclusive o sarcófago com a múmia de Tutankamon. A
descoberta injetou uma formidável dose de adrenalina no
imaginário popular e revelou-se um sarcófago cheio para
a literatura, o cinema e o baixo esoterismo, alimentado
pelas lendas sobre "a maldição de
Tutankamon".
O novo circuito preparado pelos curadores do Louvre permitirá ao visitante uma compreensão mais abrangente e racional da arte e da civilização egípcias. As salas antigas simplesmente enfileiravam as peças mais famosas, sem maior preocupação cronológica, confundindo o espectador leigo.
Agora, criou-se um percurso simples, cronológico e temático, da pré-história da arte egípcia, 4.000 anos a.C., até o fim do período ptolomaico, correspondente ao reinado de Cleópatra, a rainha que seduziu Júlio César e Marco Antônio e se matou com o veneno de uma serpente, em 30 a.C. (O suicídio marca o fim da civilização egípcia antiga.)
Os recursos da museologia moderna não alteram o imutável: o deslumbramento diante da efígie do chanceler Nakhti (2000 a.C.), esculpida num tronco de acácia, encontrada por arqueólogos franceses em Assiut em 1903. Ou do torso de linhas delicadamente sensuais da rainha Nefertite, esposa de Akhenaton, o faraó que instaurou o culto de um deus único, Aton. O mundo que se descortina aos visitantes na nova ala do Louvre cabe perfeitamente na resposta de Howard Carter a lorde Carnarvon quando vislumbrou pela primeira vez as peças e jóias de ouro maciço de Tutankamon, num sítio do Vale dos Reis: "Estou vendo maravilhas".
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