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Edição 2095

14 de janeiro de 2009
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A doce vingança do nerd

Com A Favorita, João Emanuel Carneiro,
um sujeito tímido com 7,5 graus de miopia,
ascende à elite dos noveleiros da Globo


Marcelo Marthe

Oscar Cabral

LAÇOS DE SANGUE
Carneiro em seu novo apartamento, na Vieira Souto: pai de Flora e meio-irmão de Claudia Ohana

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A construção de uma vilã


Durante os oito meses de exibição de A Favorita, o carioca João Emanuel Carneiro sentiu na pele o que é pilotar o "Boeing" da programação da Globo. Talento da nova geração de autores da emissora, ele vinha de dois sucessos do horário das 7, Da Cor do Pecado e Cobras & Lagartos. Mas manter no ar uma novela das 8 é uma operação mais complexa – e nervosa. "Eu me preparei como se fosse para a guerra", diz. O que não quer dizer exercícios pesados. Em vez de perder calorias, Carneiro engordou 8 quilos por causa da ansiedade (está com 97). Ele também passou a enfrentar uma insônia renitente, domada à base de remédios ("Tomo um quartinho de Frontal por noite"). Preso ao computador por mais de dez horas diárias, ele abdicou da vida social, deixou de ir ao cinema e até mesmo de ver TV – tudo a que tinha tempo de assistir era sua própria trama. "Escrever novela emburrece", afirma. O sedentarismo teve outro efeito: Carneiro foi acometido por uma trombose na perna esquerda. Volta e meia, tinha de interromper os trabalhos para usar um aparelho que massageia as pernas. No início da novela, todo esse esforço parecia ser por uma batalha perdida. Lançada em junho, A Favorita amargou o pior ibope de estreia de uma novela das 8, de 35 pontos. Nas primeiras semanas, chegou a desabar para menos de 30 pontos. Apenas em agosto, depois da virada espetacular em que se revelou a vilania de Flora, é que o jogo ganhou outra dinâmica. A arrancada final no ibope não consagrou apenas Patrícia Pillar. Em seu batismo de fogo, Carneiro foi aprovado.

Até A Favorita, ele era o jovem autor mais promissor da Globo. Agora, ascende de vez, aos 38 anos, à elite de noveleiros aos quais a emissora confia seu carro-chefe. E o fez com personalidade. Se havia se consagrado no horário das 7 com comédias leves e amalucadas, em A Favorita investiu num melodrama rasgado. Fez ainda opções que vários de seus colegas considerariam temerárias – como manter o espectador confuso sobre a identidade da mocinha e da vilã por dois meses. Desprezou, por fim, expedientes como o merchandising social, tão ao gosto de Glória Perez e Manoel Carlos. "As novelas viraram uma cartilha de exemplos edificantes. É pena que se siga esse caminho em detrimento de contar uma boa história", opina.

Carneiro descobriu quanto é dura a vida de um autor de novela das 8 – mas, a partir da semana que vem, usufruirá em tempo integral as recompensas desse trabalho. Com salário de 120 000 reais mensais, ele pretende se dar um longo período de férias na Bahia e na Europa. E curtir o novo apartamento de 350 metros quadrados na Avenida Vieira Souto, num ponto de agito da Praia de Ipanema. Como verificou VEJA durante entrevista com o noveleiro na semana passada, o refúgio vem sendo decorado com cuidado. Nas paredes, já se encontra um quadro do americano Richard Serra, nome badalado da arte contemporânea. Nas estantes, ganham destaque a coleção de DVDs, com filmes do espanhol Pedro Almodóvar e séries americanas como Desperate Housewives, e a biblioteca que vai dos romances de Dostoievski ao The Big Penis Book ("O Livro do Pênis Grande"), volume da editora alemã Taschen que traz imagens de – bem, você já entendeu de quê. A rotina do noveleiro se inicia por volta das 13 horas, horário em que acorda, e segue até a madrugada. Nessas jornadas, ele consome um maço de cigarros e se dá o direito a um uisquinho de fim de noite (uma garrafa por semana). Várias reviravoltas da trama surgiram nessas horas. "O reencontro de Donatela e Flora no rancho dos Fontini, nesta semana, foi uma ideia do uísque", diz.

Carneiro é filho único por parte de mãe, a crítica de arte Lélia Coelho Frota. Mas tem uma meia-irmã pelo lado paterno. Quem é ela? Ninguém menos do que a atriz Claudia Ohana. "Não tivemos contato até minha adolescência, mas hoje somos muito ligados", afirma. Tímido e com 7,5 graus de miopia, Carneiro foi na juventude um nerd que passava os dias em casa vendo TV. Formado em letras, lançou-se na profissão de roteirista ao ser premiado por um curta-metragem. O prestígio veio como um dos criadores do filme Central do Brasil, de Walter Salles. E a troca do cinema pela TV deu-se por uma razão existencial: "No cinema brasileiro, o roteirista vai ser sempre um infeliz, pois os diretores mandam. Só a TV nos realiza".

Ao compor o elenco de suas novelas, Carneiro tem seus eleitos. A irmã ganhou um lugarzinho em A Favorita. "Com aquela cara brejeira, pensei logo nela para o papel de caminhoneira." Taís Araújo é um talismã que não falta em suas tramas. E há, claro, Carmo Dalla Vecchia. Antes pouco conhecido, o ator ganhou destaque em Cobras & Lagartos e, agora, como o repórter Zé Bob de A Favorita. Um grande amigo – e ator-fetiche de Carneiro.



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