Edição 1836 . 14 de janeiro de 2004

Índice
Brasil
Internacional
Economia e Negócios
Geral
Guia
Artes e Espetáculos
Stephen Kanitz
Sérgio Abranches
Diogo Mainardi
Roberto Pompeu de Toledo
Carta ao leitor
Entrevista
Cartas
Radar
Holofote
Contexto
Veja essa
Gente
Datas
VEJA Recomenda
Os livros mais vendidos
 
 

Ensaio: Roberto Pompeu de Toledo
Casa-grande e senzala, versão USA

Lá como cá, senhores e senhorzinhos
pulavam a cerca para satisfazer os
impulsos
sexuais com as negras

Na galeria dos personagens que saem do armário para entrar na história dos Estados Unidos, Carrie Butler veio ultimamente se juntar a Sally Hemings. Sally Hemings (1773-1835) fez esse percurso em 1998. Nesse ano ficou comprovado, pelo competente exame de DNA, 163 anos depois de sua morte, que ela teve pelo menos um filho com o terceiro presidente dos Estados Unidos, Thomas Jefferson. Sally Hemings era escrava de Jefferson. Prestou serviços em Monticello, a propriedade de seu senhor na Virgínia, e também em Paris, quando ele serviu como embaixador na França. Ainda em vida de Jefferson, corria a história de que ele tinha um caso com uma escrava. Mas foi preciso esperar os modernos recursos de investigação da paternidade para que a história se comprovasse. Talvez todos os seis filhos de Sally Hemings tenham sido de Jefferson. O exame comprovou que pelo menos um era.

Carrie Butler saiu do armário no mês passado. Carrie, uma empregada doméstica negra, tinha 16 anos quando, nos idos de 1925, teve uma filha com o filho do patrão, então com 22. O tal filho do patrão viria a se tornar um homem importante. Foi governador de seu Estado, a Carolina do Sul, e depois, por não menos de 48 anos, senador. Strom Thurmond, este o seu nome, foi o parlamentar que por mais longo período ocupou uma cadeira na história do Congresso americano. Também foi longevo na vida. Morreu aos 100 anos, em junho do ano passado. Em dezembro, a filha que ele teve com Carrie Butler, Essie Mae Washington-Williams, já com 78 anos, veio a público para declarar-se filha de Thurmond. O senador nunca a renegou. Recebia-a, em segredo, e patrocinou-lhe os estudos. Essie Mae, como filha boazinha, não quis prejudicar a carreira política do pai. Manteve-se quieta enquanto ele viveu.

O caso da filha de Strom Thurmond com uma negra ganha dramaticidade quando se acrescenta que ele foi um dos principais líderes segregacionistas dos Estados Unidos. Em 1948 rompeu com o Partido Democrata, por discordar da plataforma de defesa dos direitos civis dos negros que então se esboçava, e lançou-se candidato independente à Presidência. Sua causa era a discriminação. Disse, uma vez: "Nem todas as baionetas do Exército podem forçar os negros a entrar nas nossas casas". Que declaração extraordinária! Os negros, ou, no caso, a negra, já estava, ou estivera, em sua casa. E ele, não contente em partilhar com ela o teto, partilhara os lençóis.

Tais histórias, tanto a de Jefferson quanto a de Thurmond, mostram uma relação entre a casa-grande e a senzala, nos Estados Unidos, muito familiar aos brasileiros. Então era assim também lá? As teses de Gilberto Freyre passam a soar menos originais. Desde Freyre, prevalece a visão de que os anglo-saxões, conscientes e orgulhosos de raça – as expressões são dele –, não se misturavam com os povos colonizados, ou escravizados. Já os portugueses, mais plásticos – outra expressão do autor de Casa Grande & Senzala –, não teriam escrúpulos em fazê-lo. Segundo o escritor negro americano e colunista do New York Times Brent Staples, uma história como a de Strom Thurmond não tem nada de excepcional. "Afro-americanos e americanos brancos estão tão misturados pelo sangue que se tornou sem sentido falar em categorias raciais", escreveu ele, num artigo recente. Até parece que estava falando do Brasil.

Numerosas seriam as famílias, em especial no sul dos Estados Unidos, com um ramo branco e outro negro. Oposta, segundo Staples, seria a maneira de uma e outra encarar a questão. "As famílias negras sempre falaram abertamente de seus ancestrais ou parentes brancos", escreveu ele. "As famílias brancas, ao contrário, se terrificavam com a negritude em sua árvore genealógica." O caso de Jefferson ilustra tal oposição entre um ramo e outro. Anualmente, seus descendentes se reúnem na casa que foi do ilustre patriarca. Quando ficou comprovado que Jefferson tivera um filho com Sally Hemings, os descendentes do casal foram convidados, por um membro mais arejado da família, a participar da festa. Eles assim o fizeram, um par de vezes. No ano passado, porém, arrumou-se um modo de impedir-lhes a entrada. Também lhes foi negado o direito de ser enterrados no cemitério familiar. Um dos membros da facção branca da família disse que não tinha interesse em conviver com os descendentes de Sally Hemings, "nem em vida nem na morte".

Sim, há semelhanças entre cá e lá, mas também diferenças. O Brasil nunca teve linha divisória tão explícita. Nas famílias, a misturada foi tal que dificilmente se distinguirá o ramo negro do branco. E esteve longe de conhecer legislação como a que em certa época, nos Estados Unidos, separou escolas, hospitais e bairros de um e outro. Em compensação, os negros americanos tiveram oportunidades, desconhecidas dos negros brasileiros, de cursar universidade, abrir negócios e consolidar-se em grupos de classe média. Cá como lá, para voltar aos pontos comuns, os negros sofreram, e sofrem. Difícil escolher o jeito mais cruel.

 
 
 
 
topo voltar