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Ensaio:
Roberto
Pompeu de Toledo
Casa-grande
e senzala, versão USA
Lá
como cá, senhores
e senhorzinhos
pulavam
a
cerca para satisfazer
os
impulsos sexuais
com as negras
Na galeria dos personagens que saem do armário para entrar
na história dos Estados Unidos, Carrie Butler veio ultimamente
se juntar a Sally Hemings. Sally Hemings (1773-1835) fez esse percurso
em 1998. Nesse ano ficou comprovado, pelo competente exame de DNA,
163 anos depois de sua morte, que ela teve pelo menos um filho com
o terceiro presidente dos Estados Unidos, Thomas Jefferson. Sally
Hemings era escrava de Jefferson. Prestou serviços em Monticello,
a propriedade de seu senhor na Virgínia, e também
em Paris, quando ele serviu como embaixador na França. Ainda
em vida de Jefferson, corria a história de que ele tinha
um caso com uma escrava. Mas foi preciso esperar os modernos recursos
de investigação da paternidade para que a história
se comprovasse. Talvez todos os seis filhos de Sally Hemings tenham
sido de Jefferson. O exame comprovou que pelo menos um era.
Carrie Butler saiu do armário no mês passado. Carrie,
uma empregada doméstica negra, tinha 16 anos quando, nos
idos de 1925, teve uma filha com o filho do patrão, então
com 22. O tal filho do patrão viria a se tornar um homem
importante. Foi governador de seu Estado, a Carolina do Sul, e depois,
por não menos de 48 anos, senador. Strom Thurmond, este o
seu nome, foi o parlamentar que por mais longo período ocupou
uma cadeira na história do Congresso americano. Também
foi longevo na vida. Morreu aos 100 anos, em junho do ano passado.
Em dezembro, a filha que ele teve com Carrie Butler, Essie Mae Washington-Williams,
já com 78 anos, veio a público para declarar-se filha
de Thurmond. O senador nunca a renegou. Recebia-a, em segredo, e
patrocinou-lhe os estudos. Essie Mae, como filha boazinha, não
quis prejudicar a carreira política do pai. Manteve-se quieta
enquanto ele viveu.
O caso da filha de Strom Thurmond com uma negra ganha dramaticidade
quando se acrescenta que ele foi um dos principais líderes
segregacionistas dos Estados Unidos. Em 1948 rompeu com o Partido
Democrata, por discordar da plataforma de defesa dos direitos civis
dos negros que então se esboçava, e lançou-se
candidato independente à Presidência. Sua causa era
a discriminação. Disse, uma vez: "Nem todas as baionetas
do Exército podem forçar os negros a entrar nas nossas
casas". Que declaração extraordinária! Os negros,
ou, no caso, a negra, já estava, ou estivera, em sua casa.
E ele, não contente em partilhar com ela o teto, partilhara
os lençóis.
Tais histórias, tanto a de Jefferson quanto a de Thurmond,
mostram uma relação entre a casa-grande e a senzala,
nos Estados Unidos, muito familiar aos brasileiros. Então
era assim também lá? As teses de Gilberto Freyre passam
a soar menos originais. Desde Freyre, prevalece a visão de
que os anglo-saxões, conscientes e orgulhosos de raça
as expressões são dele , não se
misturavam com os povos colonizados, ou escravizados. Já
os portugueses, mais plásticos outra expressão
do autor de Casa Grande & Senzala , não
teriam escrúpulos em fazê-lo. Segundo o escritor negro
americano e colunista do New York Times Brent Staples, uma
história como a de Strom Thurmond não tem nada de
excepcional. "Afro-americanos e americanos brancos estão
tão misturados pelo sangue que se tornou sem sentido falar
em categorias raciais", escreveu ele, num artigo recente. Até
parece que estava falando do Brasil.
Numerosas seriam as famílias, em especial no sul dos Estados
Unidos, com um ramo branco e outro negro. Oposta, segundo Staples,
seria a maneira de uma e outra encarar a questão. "As famílias
negras sempre falaram abertamente de seus ancestrais ou parentes
brancos", escreveu ele. "As famílias brancas, ao contrário,
se terrificavam com a negritude em sua árvore genealógica."
O caso de Jefferson ilustra tal oposição entre um
ramo e outro. Anualmente, seus descendentes se reúnem na
casa que foi do ilustre patriarca. Quando ficou comprovado que Jefferson
tivera um filho com Sally Hemings, os descendentes do casal foram
convidados, por um membro mais arejado da família, a participar
da festa. Eles assim o fizeram, um par de vezes. No ano passado,
porém, arrumou-se um modo de impedir-lhes a entrada. Também
lhes foi negado o direito de ser enterrados no cemitério
familiar. Um dos membros da facção branca da família
disse que não tinha interesse em conviver com os descendentes
de Sally Hemings, "nem em vida nem na morte".
Sim, há semelhanças entre cá e lá, mas
também diferenças. O Brasil nunca teve linha divisória
tão explícita. Nas famílias, a misturada foi
tal que dificilmente se distinguirá o ramo negro do branco.
E esteve longe de conhecer legislação como a que em
certa época, nos Estados Unidos, separou escolas, hospitais
e bairros de um e outro. Em compensação, os negros
americanos tiveram oportunidades, desconhecidas dos negros brasileiros,
de cursar universidade, abrir negócios e consolidar-se em
grupos de classe média. Cá como lá, para voltar
aos pontos comuns, os negros sofreram, e sofrem. Difícil
escolher o jeito mais cruel.
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