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Televisão
Biscoito
fino
A Globo se esmera na reconstituição
de época
para trazer à vida a São
Paulo dos grã-finos e dos modernistas
na minissérie Um Só Coração

Ricardo
Valladares
TV Globo/Renato Rocha Miranda
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| Ana
Paula Arosio e Erik Marmo: heroína real e galã
inventado |
Desde
que passou a produzir minisséries de maneira regular, em
meados dos anos 80, a Rede Globo transformou a ficção
histórica num dos gêneros mais importantes de sua dramaturgia.
O lançamento mais recente é Um Só Coração,
que estreou na última terça-feira com roteiro de Maria
Adelaide Amaral e Alcides Nogueira. O tema desta vez é a
cidade de São Paulo, no período em que o município
deu seu grande salto de crescimento e transformou-se em metrópole.
A trama começa nos "anos loucos" da década de 1920
e vai até 1954, quando São Paulo já havia se
tornado o maior centro urbano do Brasil. A vida de uma mulher ilustre
serve de fio condutor: Yolanda Penteado (1903-1983), que pertenceu
a uma família tradicional de cafeicultores, casou-se com
o industrial de origem italiana Francisco "Ciccillo" Matarazzo e
foi uma grande incentivadora das artes. Personagens reais como Yolanda,
interpretada pela esfuziante Ana Paula Arosio, dividem a cena com
personagens inventados, como o estudante vivido por um desenxabido
Erik Marmo. Os dois formam o par romântico nos primeiros capítulos.
Há duas maneiras de fazer ficção histórica.
A mais segura é caprichar na reconstituição
de época e povoar os cenários com personagens de faz-de-conta.
Anos Dourados, uma das primeiras minisséries produzidas
pela Globo, em 1986, era assim. Os ambientes e figurinos da década
de 50 foram refeitos com cuidado, mas nenhum dos protagonistas pertencia
aos livros de história. A maneira mais arriscada de trabalhar
esse gênero é tentar voltar no tempo usando figuras
reais. Trata-se de um desafio duplo. Além de ser fiel à
época escolhida, ainda é preciso respeitar a história
individual do personagem. E, convenhamos, a vida real nem sempre
se presta às necessidades de um folhetim, que pede paixões
derramadas, vilões pérfidos e exageros cômicos.
Quando O Quinto dos Infernos foi ao ar, em 2002, um grupo
de historiadores se ergueu em coro para reclamar que um episódio
crucial da história brasileira, a vinda da família
real portuguesa ao Brasil, fora transformado em chanchada. No ano
passado, a representação do revolucionário
gaúcho Bento Gonçalves em A Casa das Sete Mulheres
(outra série de Maria Adelaide Amaral) deixou especialistas
irritados com a excessiva idealização do líder
farroupilha.
No caso de Um Só Coração, o foco potencial
de discórdia é o núcleo de modernistas que
aparece na trama. Grandes ícones culturais brasileiros, como
os escritores Mário de Andrade e Oswald de Andrade, marcaram
presença já no primeiro capítulo. O desafio
é transformá-los em algo mais do que coadjuvantes
que, de tempos em tempos, vão pontuar as cenas matraqueando
alguns versos ou com tiradas literárias. Um outro brasileiro
célebre dos anos 20 também aparece em Um Só
Coração de maneira que pode causar surpresa: é
o inventor Santos Dumont, pai da aviação, que entra
em cena cheio de sustos e tiques. Para compor esses papéis,
autores e atores muitas vezes contaram com a ajuda de parentes dos
personagens reais, que puseram à sua disposição
memórias e documentos. Uma sobrinha-bisneta de Yolanda Penteado,
a atriz Gabriela Hess, acabou fazendo o papel de irmã de
Yolanda na minissérie. "Só a filha de um dos amantes
de Yolanda, um homem casado da sociedade paulistana, se recusou
a ajudar", conta Maria Adelaide Amaral.
Ao comentar a possibilidade de que o grande público viesse
um dia a apreciar suas obras, Oswald de Andrade disse: "A massa
ainda comerá o biscoito fino que eu fabrico". Em certos aspectos,
a São Paulo modernista apresentada pela Globo na primeira
semana da série é um biscoito dos mais refinados.
A emissora gastou 10,5 milhões de reais na produção
de Um Só Coração. A caracterização
física dos personagens reais é impecável. Atores
como Pascoal da Conceição e Cassio Scapin, que interpretam
Mário de Andrade e Santos Dumont, estão a cara dos
originais (veja quadro abaixo). O esmero se repete em reconstituições
como a da Semana de Arte Moderna de 1922, no Teatro Municipal de
São Paulo. Cerca de 300 pessoas participaram das gravações
e mais de trinta obras de arte foram reproduzidas para a ocasião,
de esculturas como Pietá, de Victor Brecheret, a pinturas
como O Homem Amarelo e Mulher com Chapéu, de
Anita Malfatti e Di Cavalcanti, respectivamente. Uma atenção
considerável foi dada à arquitetura na produção
da série. Algumas fachadas de casarões são
reais, outras foram erguidas na cidade cenográfica da Globo.
É o caso da mansão do autoritário Coronel Totonho
(muito bem interpretado por Tarcísio Meira). Suntuosa no
começo da série, a mansão vai virar bordel
quando a família perder tudo na crise econômica de
1929, passará a abrigo de imigrantes num período posterior
e finalmente a cortiço de migrantes nordestinos nos anos
50. "Foi isso o que aconteceu com muitos casarões de antigos
bairros nobres de São Paulo, como os Campos Elíseos",
conta o autor Alcides Nogueira.
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| Scapin
como
Santos Dumont: sustos e tiques |
Divulgação
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Reprodução/Alice
Hattori
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| Betty
Gofman como
Anita Malfatti: quadros reproduzidos |
Divulgação
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Claudio Rossi
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| Pascoal
da Conceição
como Mário de Andrade: ícone cultural |
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