Edição 1836 . 14 de janeiro de 2004

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Biscoito fino

A Globo se esmera na reconstituição
de época
para trazer à vida a São
Paulo dos grã-finos e dos modernistas
na minissérie Um Só Coração


Ricardo Valladares

 
TV Globo/Renato Rocha Miranda
Ana Paula Arosio e Erik Marmo: heroína real e galã inventado

Desde que passou a produzir minisséries de maneira regular, em meados dos anos 80, a Rede Globo transformou a ficção histórica num dos gêneros mais importantes de sua dramaturgia. O lançamento mais recente é Um Só Coração, que estreou na última terça-feira com roteiro de Maria Adelaide Amaral e Alcides Nogueira. O tema desta vez é a cidade de São Paulo, no período em que o município deu seu grande salto de crescimento e transformou-se em metrópole. A trama começa nos "anos loucos" da década de 1920 e vai até 1954, quando São Paulo já havia se tornado o maior centro urbano do Brasil. A vida de uma mulher ilustre serve de fio condutor: Yolanda Penteado (1903-1983), que pertenceu a uma família tradicional de cafeicultores, casou-se com o industrial de origem italiana Francisco "Ciccillo" Matarazzo e foi uma grande incentivadora das artes. Personagens reais como Yolanda, interpretada pela esfuziante Ana Paula Arosio, dividem a cena com personagens inventados, como o estudante vivido por um desenxabido Erik Marmo. Os dois formam o par romântico nos primeiros capítulos.

Há duas maneiras de fazer ficção histórica. A mais segura é caprichar na reconstituição de época e povoar os cenários com personagens de faz-de-conta. Anos Dourados, uma das primeiras minisséries produzidas pela Globo, em 1986, era assim. Os ambientes e figurinos da década de 50 foram refeitos com cuidado, mas nenhum dos protagonistas pertencia aos livros de história. A maneira mais arriscada de trabalhar esse gênero é tentar voltar no tempo usando figuras reais. Trata-se de um desafio duplo. Além de ser fiel à época escolhida, ainda é preciso respeitar a história individual do personagem. E, convenhamos, a vida real nem sempre se presta às necessidades de um folhetim, que pede paixões derramadas, vilões pérfidos e exageros cômicos. Quando O Quinto dos Infernos foi ao ar, em 2002, um grupo de historiadores se ergueu em coro para reclamar que um episódio crucial da história brasileira, a vinda da família real portuguesa ao Brasil, fora transformado em chanchada. No ano passado, a representação do revolucionário gaúcho Bento Gonçalves em A Casa das Sete Mulheres (outra série de Maria Adelaide Amaral) deixou especialistas irritados com a excessiva idealização do líder farroupilha.

No caso de Um Só Coração, o foco potencial de discórdia é o núcleo de modernistas que aparece na trama. Grandes ícones culturais brasileiros, como os escritores Mário de Andrade e Oswald de Andrade, marcaram presença já no primeiro capítulo. O desafio é transformá-los em algo mais do que coadjuvantes que, de tempos em tempos, vão pontuar as cenas matraqueando alguns versos ou com tiradas literárias. Um outro brasileiro célebre dos anos 20 também aparece em Um Só Coração de maneira que pode causar surpresa: é o inventor Santos Dumont, pai da aviação, que entra em cena cheio de sustos e tiques. Para compor esses papéis, autores e atores muitas vezes contaram com a ajuda de parentes dos personagens reais, que puseram à sua disposição memórias e documentos. Uma sobrinha-bisneta de Yolanda Penteado, a atriz Gabriela Hess, acabou fazendo o papel de irmã de Yolanda na minissérie. "Só a filha de um dos amantes de Yolanda, um homem casado da sociedade paulistana, se recusou a ajudar", conta Maria Adelaide Amaral.

Ao comentar a possibilidade de que o grande público viesse um dia a apreciar suas obras, Oswald de Andrade disse: "A massa ainda comerá o biscoito fino que eu fabrico". Em certos aspectos, a São Paulo modernista apresentada pela Globo na primeira semana da série é um biscoito dos mais refinados. A emissora gastou 10,5 milhões de reais na produção de Um Só Coração. A caracterização física dos personagens reais é impecável. Atores como Pascoal da Conceição e Cassio Scapin, que interpretam Mário de Andrade e Santos Dumont, estão a cara dos originais (veja quadro abaixo). O esmero se repete em reconstituições como a da Semana de Arte Moderna de 1922, no Teatro Municipal de São Paulo. Cerca de 300 pessoas participaram das gravações e mais de trinta obras de arte foram reproduzidas para a ocasião, de esculturas como Pietá, de Victor Brecheret, a pinturas como O Homem Amarelo e Mulher com Chapéu, de Anita Malfatti e Di Cavalcanti, respectivamente. Uma atenção considerável foi dada à arquitetura na produção da série. Algumas fachadas de casarões são reais, outras foram erguidas na cidade cenográfica da Globo. É o caso da mansão do autoritário Coronel Totonho (muito bem interpretado por Tarcísio Meira). Suntuosa no começo da série, a mansão vai virar bordel quando a família perder tudo na crise econômica de 1929, passará a abrigo de imigrantes num período posterior e finalmente a cortiço de migrantes nordestinos nos anos 50. "Foi isso o que aconteceu com muitos casarões de antigos bairros nobres de São Paulo, como os Campos Elíseos", conta o autor Alcides Nogueira.

 
Scapin como Santos Dumont: sustos e tiques

Divulgação
Reprodução/Alice Hattori
Betty Gofman como Anita Malfatti: quadros reproduzidos

Divulgação
Claudio Rossi
Pascoal da Conceição como Mário de Andrade: ícone cultural

 
 
 
 
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