Edição 1836 . 14 de janeiro de 2004

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Diogo Mainardi
Abraão e os brasileiros

"Lula apostou na fé. Não por acaso, insistiu
tanto no lema da esperança. No primeiro
ano de seu governo, a esperança de fato
venceu o medo. Pena. A gente é menos
ludibriado
quando tem medo"

O bispo Macedo, da Igreja Universal, discorrendo sobre a fé de Abraão, comparou Deus a He-Man. Eu nunca acreditei em Deus e Ele nunca acreditou em mim. Mas se o bispo Macedo está certo, e Deus realmente é igual ao desenho animado de He-Man, sou obrigado a rever todos os meus conceitos. Estou pronto para o batismo. Pelos poderes de Greyskull: eu tenho a força! Uma dúvida: se Deus é He-Man, quem é Orko? Quem é Teela? Quem é o Leão maricas?

Os pastores da Igreja Universal promovem neste mês uma Fogueira Santa no Monte Moriá, em Jerusalém. Segundo a Bíblia, Moriá foi onde Abraão ofereceu seu filho Isaque em sacrifício. A Fogueira Santa da Igreja Universal também impõe um sacrifício. Para provar sua fé em Deus, o devoto oferece à Igreja Universal o que tem de mais valioso, como um salário, um carro ou uma casa. Depois escreve um pedido num pedaço de papel, que é levado a Jerusalém e queimado numa fogueira no Monte Moriá. O pastor Clodomir parte para Israel na próxima terça-feira. Não perca. Faça logo o seu pedido. Veja o testemunho do doutor Affonso. Numa Fogueira Santa precedente, no Monte Sinai, ele desenhou a planta da casa de seus sonhos e, em pouco tempo, ela se tornou realidade. Não sei o que o doutor Affonso teve de sacrificar para obter a graça divina. Não sei qual foi o seu Isaque, para usar o jargão da Igreja Universal. O pastor Clodomir garante, porém, que, quanto maior o sacrifício, maior a recompensa.

O mito de Abraão é muito apropriado para o Brasil. Entre nós, a fé sempre implicou alguma forma de sacrifício. Quando acreditamos em algo, acabamos por perder o salário, o carro, a casa. O pico de popularidade do presidente José Sarney foi durante o congelamento de preços. Os brasileiros acreditaram que era a melhor receita para acabar com a inflação. Quando José Sarney entregou o poder, a inflação tendencial estava em 80% ao mês. Com Fernando Collor foi igual. O Congresso Nacional, o Judiciário e a imprensa apoiaram com entusiasmo o confisco financeiro. Dois meses mais tarde, de acordo com as pesquisas de opinião, 69% da população ainda acreditava no presidente, apesar do sacrifício de todo o seu dinheiro. Na história mais recente, Fernando Henrique Cardoso foi reeleito porque o eleitor acreditou na paridade cambial. Como se sabe, ela estourou imediatamente depois da posse.

Lula também apostou na fé dos brasileiros. Não por acaso, insistiu tanto no lema da esperança. Como Abraão e o doutor Affonso, estamos dispostos a praticar qualquer sacrifício, inclusive o de nossos filhos, desde que nos prometam uma futura e impalpável recompensa. Em 2003, o Brasil teve o sétimo pior crescimento da história. Despencou para o 15° lugar entre as maiores economias do mundo. Mas continuamos a esperar. Até o Hino Nacional trata o Brasil como a terra da esperança, como um sonho intenso. No primeiro ano de governo Lula, a esperança de fato venceu o medo. Pena. A gente é menos ludibriado quando tem medo.

 
 
 
 
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