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Diogo
Mainardi
Abraão
e os brasileiros
"Lula
apostou na fé. Não por acaso, insistiu
tanto no lema da esperança. No primeiro
ano de seu governo, a esperança de fato
venceu o medo. Pena. A gente é menos
ludibriado quando
tem medo"
O
bispo Macedo, da Igreja Universal, discorrendo sobre a fé
de Abraão, comparou Deus a He-Man. Eu nunca acreditei em
Deus e Ele nunca acreditou em mim. Mas se o bispo Macedo está
certo, e Deus realmente é igual ao desenho animado de He-Man,
sou obrigado a rever todos os meus conceitos. Estou pronto para
o batismo. Pelos poderes de Greyskull: eu tenho a força!
Uma dúvida: se Deus é He-Man, quem é Orko?
Quem é Teela? Quem é o Leão maricas?
Os pastores da Igreja Universal promovem neste mês uma Fogueira
Santa no Monte Moriá, em Jerusalém. Segundo a Bíblia,
Moriá foi onde Abraão ofereceu seu filho Isaque em
sacrifício. A Fogueira Santa da Igreja Universal também
impõe um sacrifício. Para provar sua fé em
Deus, o devoto oferece à Igreja Universal o que tem de mais
valioso, como um salário, um carro ou uma casa. Depois escreve
um pedido num pedaço de papel, que é levado a Jerusalém
e queimado numa fogueira no Monte Moriá. O pastor Clodomir
parte para Israel na próxima terça-feira. Não
perca. Faça logo o seu pedido. Veja o testemunho do doutor
Affonso. Numa Fogueira Santa precedente, no Monte Sinai, ele desenhou
a planta da casa de seus sonhos e, em pouco tempo, ela se tornou
realidade. Não sei o que o doutor Affonso teve de sacrificar
para obter a graça divina. Não sei qual foi o seu
Isaque, para usar o jargão da Igreja Universal. O pastor
Clodomir garante, porém, que, quanto maior o sacrifício,
maior a recompensa.
O mito de Abraão é muito apropriado para o Brasil.
Entre nós, a fé sempre implicou alguma forma de sacrifício.
Quando acreditamos em algo, acabamos por perder o salário,
o carro, a casa. O pico de popularidade do presidente José
Sarney foi durante o congelamento de preços. Os brasileiros
acreditaram que era a melhor receita para acabar com a inflação.
Quando José Sarney entregou o poder, a inflação
tendencial estava em 80% ao mês. Com Fernando Collor foi igual.
O Congresso Nacional, o Judiciário e a imprensa apoiaram
com entusiasmo o confisco financeiro. Dois meses mais tarde, de
acordo com as pesquisas de opinião, 69% da população
ainda acreditava no presidente, apesar do sacrifício de todo
o seu dinheiro. Na história mais recente, Fernando Henrique
Cardoso foi reeleito porque o eleitor acreditou na paridade cambial.
Como se sabe, ela estourou imediatamente depois da posse.
Lula também apostou na fé dos brasileiros. Não
por acaso, insistiu tanto no lema da esperança. Como Abraão
e o doutor Affonso, estamos dispostos a praticar qualquer sacrifício,
inclusive o de nossos filhos, desde que nos prometam uma futura
e impalpável recompensa. Em 2003, o Brasil teve o sétimo
pior crescimento da história. Despencou para o 15° lugar
entre as maiores economias do mundo. Mas continuamos a esperar.
Até o Hino Nacional trata o Brasil como a terra da
esperança, como um sonho intenso. No primeiro ano de governo
Lula, a esperança de fato venceu o medo. Pena. A gente é
menos ludibriado quando tem medo.
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