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Em
foco: Sérgio Abranches
O
ano inacabado
"2003,
como acontece ciclicamente,
foi um ano sem fim, abriu veredas
cujo destino só se elucidará no futuro"
O
ano de 2003 deixou inacabados vários processos que marcarão
a dinâmica política futura. No plano internacional,
a invasão do Iraque redefiniu o padrão de ação
estratégica dos Estados Unidos e de seus aliados e pôs
a nu a precariedade dos fundamentos da governança global.
Na Europa, o afastamento da França e da Alemanha dos limites
fiscais e monetários do Tratado de Maastricht, o plebiscito
na Suécia, que impediu a união do país ao euro,
o conflito aberto sobre temas constitucionais centrais relativos
à governança européia mostram as dificuldades
de uma união monetária e comercial entre nações
soberanas. Os países não admitem abrir mão
de sua soberania política para um Estado supranacional, federado.
Mas é uma delegação que a união monetária
de fato requer.
Na Ásia, o acirramento do confronto entre China e Taiwan,
com a proximidade de eleições na ilha e a possibilidade
de um plebiscito sobre sua independência, lança dúvidas
sobre uma solução não truculenta para o desejo
chinês de restauração de sua integridade territorial.
Em Taiwan, muitos defendem sua identidade autônoma, marcada
pelo esforço de construção de uma economia
moderna e dinâmica.
Ilustração Ale Setti
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Na América Latina, o México assiste ao ressurgimento
do PRI, não apenas incensado pelo voto obtido nas últimas
eleições parlamentares e estaduais, mas fortalecido
por uma aliança com o velho inimigo, o PRD, a oposição
à esquerda. Juntos, derrotaram o indispensável programa
de ajuste fiscal proposto pelo governo. A aliança entre esquerdas
e oligarquias não é inédita no continente.
Sempre vitimou a maioria da população do país
onde se materializa, condenando-a, também, à prorrogação
de seus sonhos de progresso. O presidente da Venezuela ameaça
com a força a oposição, que tenta usar um mecanismo
constitucional inventado pelo próprio Chávez, o de
confirmação do mandato presidencial via referendo.
Na Argentina, o peronismo, que é parte da oligarquia e, em
grande medida, responsável pela trajetória trágica
de seu país, firma-se como força hegemônica.
A oposição se fragmenta em facções miniaturizadas,
muitas meramente personalistas. A Unión Cívica Radical,
sua alternativa histórica, definha, com o empobrecimento
da classe média e o ônus de dois governos fracassados:
Alfonsín e De La Rúa. No Brasil, o PT chega ao poder,
para implementar um programa de governo que contraria as teses partidárias.
Para fazê-lo, pune políticos petistas, alia-se com
parte da oligarquia e, na aprovação das duas reformas
que propõe, fica na dependência dos votos de uma oposição
cooperativa.
Todos esses eventos transcendem o ano de 2003, como risco e oportunidade.
A invasão do Iraque, que atropelou o Conselho de Segurança
da ONU e se provou desnecessária um ataque maciço
à ameaça de um boneco de palha , expôs
o mundo ao risco de uma hegemonia beligerante e incontrastável.
Mas criou a oportunidade para um debate sério sobre a revisão
radical dos mecanismos de governança e segurança globais.
A resistência política à ação
unilateral dos EUA pode resultar em um movimento de reforma das
instituições globais, para que garantam paz e segurança
futuras.
Na Europa, desequilíbrios macroeconômicos e desencontros
políticos já estimulam grande esforço intelectual
e de pesquisa na busca de soluções para a governança
regional, preservando a identidade e a soberania ainda que
mais limitada dos Estados nacionais. O sucesso contribuirá
para a consolidação da Europa, para o avanço
de experiências regionais similares e para a constituição
de nova governança global democrática.
Na Ásia, a China é a chave do imponderável.
Sua força descomunal na região cria o risco de soluções
unilaterais, com uso de violência, interna e externamente.
O fato de colocar seus valores geopolíticos à frente
da busca do bem-estar geral aumenta o risco. Mas seu sucesso recente
no capitalismo global é um incentivo para que busque soluções
menos primitivas e mais contemporâneas a seu novo status.
Na América Latina, o desafio é o da governança
democrática estável e da reforma institucional das
economias. O Brasil avançou décadas nesse primeiro
ano de governo PT. Venceu a batalha da confiança. Em 2004
travará a da sustentabilidade: das escolhas feitas, do crescimento
e do concertamento plural para desatar os nós institucionais,
econômicos e sociais do país. Os outros ainda enfrentam
maiores riscos e encontram oportunidades mais estreitas.
2003, como acontece ciclicamente, foi um ano sem fim, abriu veredas
cujo destino só se elucidará no futuro.
Sérgio Abranches é cientista político
(sergioabranches@sda.com.br)
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