Edição 1836 . 14 de janeiro de 2004

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Em foco: Sérgio Abranches
O ano inacabado

"2003, como acontece ciclicamente,
foi um ano sem fim, abriu veredas
cujo destino só se elucidará no futuro"

O ano de 2003 deixou inacabados vários processos que marcarão a dinâmica política futura. No plano internacional, a invasão do Iraque redefiniu o padrão de ação estratégica dos Estados Unidos e de seus aliados e pôs a nu a precariedade dos fundamentos da governança global.

Na Europa, o afastamento da França e da Alemanha dos limites fiscais e monetários do Tratado de Maastricht, o plebiscito na Suécia, que impediu a união do país ao euro, o conflito aberto sobre temas constitucionais centrais relativos à governança européia mostram as dificuldades de uma união monetária e comercial entre nações soberanas. Os países não admitem abrir mão de sua soberania política para um Estado supranacional, federado. Mas é uma delegação que a união monetária de fato requer.

Na Ásia, o acirramento do confronto entre China e Taiwan, com a proximidade de eleições na ilha e a possibilidade de um plebiscito sobre sua independência, lança dúvidas sobre uma solução não truculenta para o desejo chinês de restauração de sua integridade territorial. Em Taiwan, muitos defendem sua identidade autônoma, marcada pelo esforço de construção de uma economia moderna e dinâmica.

Ilustração Ale Setti


Na América Latina, o México assiste ao ressurgimento do PRI, não apenas incensado pelo voto obtido nas últimas eleições parlamentares e estaduais, mas fortalecido por uma aliança com o velho inimigo, o PRD, a oposição à esquerda. Juntos, derrotaram o indispensável programa de ajuste fiscal proposto pelo governo. A aliança entre esquerdas e oligarquias não é inédita no continente. Sempre vitimou a maioria da população do país onde se materializa, condenando-a, também, à prorrogação de seus sonhos de progresso. O presidente da Venezuela ameaça com a força a oposição, que tenta usar um mecanismo constitucional inventado pelo próprio Chávez, o de confirmação do mandato presidencial via referendo. Na Argentina, o peronismo, que é parte da oligarquia e, em grande medida, responsável pela trajetória trágica de seu país, firma-se como força hegemônica. A oposição se fragmenta em facções miniaturizadas, muitas meramente personalistas. A Unión Cívica Radical, sua alternativa histórica, definha, com o empobrecimento da classe média e o ônus de dois governos fracassados: Alfonsín e De La Rúa. No Brasil, o PT chega ao poder, para implementar um programa de governo que contraria as teses partidárias. Para fazê-lo, pune políticos petistas, alia-se com parte da oligarquia e, na aprovação das duas reformas que propõe, fica na dependência dos votos de uma oposição cooperativa.

Todos esses eventos transcendem o ano de 2003, como risco e oportunidade. A invasão do Iraque, que atropelou o Conselho de Segurança da ONU e se provou desnecessária – um ataque maciço à ameaça de um boneco de palha –, expôs o mundo ao risco de uma hegemonia beligerante e incontrastável. Mas criou a oportunidade para um debate sério sobre a revisão radical dos mecanismos de governança e segurança globais. A resistência política à ação unilateral dos EUA pode resultar em um movimento de reforma das instituições globais, para que garantam paz e segurança futuras.

Na Europa, desequilíbrios macroeconômicos e desencontros políticos já estimulam grande esforço intelectual e de pesquisa na busca de soluções para a governança regional, preservando a identidade e a soberania – ainda que mais limitada – dos Estados nacionais. O sucesso contribuirá para a consolidação da Europa, para o avanço de experiências regionais similares e para a constituição de nova governança global democrática.

Na Ásia, a China é a chave do imponderável. Sua força descomunal na região cria o risco de soluções unilaterais, com uso de violência, interna e externamente. O fato de colocar seus valores geopolíticos à frente da busca do bem-estar geral aumenta o risco. Mas seu sucesso recente no capitalismo global é um incentivo para que busque soluções menos primitivas e mais contemporâneas a seu novo status.

Na América Latina, o desafio é o da governança democrática estável e da reforma institucional das economias. O Brasil avançou décadas nesse primeiro ano de governo PT. Venceu a batalha da confiança. Em 2004 travará a da sustentabilidade: das escolhas feitas, do crescimento e do concertamento plural para desatar os nós institucionais, econômicos e sociais do país. Os outros ainda enfrentam maiores riscos e encontram oportunidades mais estreitas.

2003, como acontece ciclicamente, foi um ano sem fim, abriu veredas cujo destino só se elucidará no futuro.


Sérgio Abranches é cientista político
(sergioabranches@sda.com.br)

 
 
 
 
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