Edição 1836 . 14 de janeiro de 2004

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Carta ao leitor
Um bom uso para a euforia

 
Helvio Romero/AE
Pregão da bolsa paulista na semana passada: surto

A bolsa bate recorde atrás de recorde. Os mercados abrem um largo sorriso para o Brasil, derrubando os indicadores de risco de investimento no país para o menor valor desde 1997. Na semana passada, os títulos da dívida brasileira chegaram ao recorde de 100,2% do valor de face. Não podia haver demonstração mais cabal de sucesso da política de estabilização e saneamento financeiro do Estado iniciada no governo FHC e consolidada na administração Lula pelo ministro Antonio Palocci. Não podia haver também oportunidade melhor para corrigir as distorções estruturais que ainda minam a prosperidade do país e, no passado, foram responsáveis pela vida curta dos episódios de euforia como os vividos nas últimas semanas. A começar por reformas que não sejam meros paliativos para os problemas que visavam a resolver, agora que o sol brilha é a melhor hora para consertar os buracos no telhado. Este bom momento, no entanto, está sendo perdido em ação política miúda.

Lamentavelmente, a bonança produzida pelo apego do ministro Palocci às regras consagradas de condução financeira do país está sendo usada não para aprofundar os acertos recentes da política econômica, mas para reviver erros antigos de gestão. Na comentada reforma ministerial do presidente Luiz Inácio Lula da Silva ouve-se de tudo, menos uma coisa: competência. Tudo vem funcionando à base de conveniências políticas e pessoais. Em outro episódio da semana passada, o Planalto conseguiu o afastamento de Luiz Schymura da presidência da Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel). Para seu lugar foi nomeado Pedro Ziller, um ex-sindicalista conhecido por seu horror à privatização. Uma agência reguladora existe para ser independente do ministério a que está associada, e Schymura incomodava porque aplicava corretamente esse mandamento, para desgosto de altas figuras do governo que querem interferir em áreas vitais como energia e telecomunicações. Com todas as suas imperfeições, as agências funcionam bem em outros países justamente para proteger das interferências políticas desestabilizadoras os setores produtivos como o energético e o de telecomunicações, que exigem investimentos pesados. Em Brasília, tem muita gente querendo abafar a independência das agências.

 
 
 
 
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