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Ponto
de vista: Lya Luft
Inevitáveis transições
"Nem todas as perdas são vida
jogada fora. Algumas são necessárias"
Não queremos perder nada e, se pudéssemos,
teríamos amarradas em nós todas as coisas positivas,
os momentos felizes e as pessoas amadas levando-as conosco
feito um tesouro sufocante, pois o que é bom, quando agarrado
com unhas e dentes, aprisiona.
Viver é perder, viver é ganhar,
e, quando escrevi um pequeno ensaio chamado Perdas & Ganhos,
eu falava nisso. Embora no mais recente, Em Outras Palavras,
eu mais uma vez deixe a ficção reunindo crônicas
sobre os assuntos mais gerais, alguém comentou que escrevo
sempre sobre as mesmas coisas: pode ser. Todo artista tem seus temas
viscerais, dos quais não quer se livrar. Ao contrário,
ele os repete, exorciza e transfigura de muitos modos, não
repetindo por pobreza, mas intensificando para melhor expressar.
Ilustração Atômica
Studio |
Porque é assim que se faz. Ou é assim que eu faço,
e falo da vida. Quando falo da morte, também falo da vida.
Quando falo de vida e morte, falo em relações amorosas
ou rancorosas. Quando escrevo sobre palavras ou linguagem,
escrevo sobre silêncio e incomunicabilidade.
Esta é, aliás, uma das marcas
do ser humano: não saber se comunicar.
Quanta dor, quanto mal-entendido, quanta calúnia,
quanto abandono e incompreensão devidos a palavras e emoções
mal expressas, mal ouvidas, mal sentidas, insuficientes ou excessivas.
Quanta perda, ou melhor: quanto desperdício.
Mas nem todas as perdas são vida jogada
fora: algumas são necessárias. É preciso saber
alternar as perdas com novos ganhos. Alguns deles, aliás,
dependem da anterior perda. Somos contraditórios como tudo
o mais.
Trabalho de momento em dois projetos, um ensaio
sobre silêncio e incomunicabilidade e um livro de contos.
Percebo, porém, nessa singular autonomia que a obra tem em
relação ao autor, que talvez ambos acabem se fundindo
num romance. Muitas vezes foi assim, muitas vezes será. O
artista precisa de boa escuta: seguir o sopro do vento interior,
que não é o dos elogios, críticas, vendagem
ou fracasso, mas acontece num outro registro, que só ele
percebe. É dele, ninguém mais tem acesso nem
deve ter.
Nesse novo trabalho ainda indefinido, ainda
emergindo das águas profundas, escrevo sobre relacionamentos
deteriorados, ou delicados amores. Sobre a nossa dificuldade em
ser mais felizes, sobre a luta eterna entre pulsão de alegria
e desejo de término e morte.
Por erro de momento e cálculo, podemos
perder tempo e vida mas podemos ter novos ganhos, se não
formos nem tolos nem rígidos demais, se o vício da
autoflagelação não superar o de realização.
Podemos ter um amor bom porque perdemos o que estava distorcido
e ruim. Podemos ter uma vida nova porque superamos a outra, que
era tormentosa e falsa. Podemos ter novo projeto de trabalho porque
o outro não nos satisfazia mais. Isso é que chamo
de arrojo, audácia positiva, salvação.
Repito, muitas coisas é preciso perder.
É preciso saber perder. A criança tem de perder de
certa forma a mãe para a reconquistar em outra maneira, não
mais a mãe todo-poderosa, sem a qual não sobrevivemos
nos primeiros anos, mas a que estimula e concilia, que empurra para
cima e para diante, nos respeita no que somos e podemos fazer
e assim também nos perde um pouco, para nos ganhar melhor.
Quando adultos, temos de ratificar essa perda, tornando-nos mais
autônomos, menos rebeldes porque mais seguros, mais amorosos
talvez porque mais tranqüilos. As naturais implicâncias
entre pais e filhos, sobretudo mães e filhos, cedem lugar
a uma nova camaradagem, mais alegria e apoio mútuos.
Só quem não quiser botar rédeas
e algemas poderá sabendo perder ganhar parceiro
ou parceira carinhosos e alegres, em lugar de relações
que parecem câmaras de tortura óbvias ou, pior, sutis.
O que é esse perder? É, de novo,
olhar o outro, abrir-lhe os necessários espaços, permitir
que o bom senso fale mais alto que o egoísmo. E, se algum
dia houver uma real separação, nada mais digno, mais
respeitável, do que deixar o outro ir, preservando os momentos
bons que houve, para que não se envenene isso que um dia
foi amor e compromisso mútuo.
Se não formos demasiado neuróticos,
os belos momentos estarão em nós como fundamento de
uma nova experiência.
O que não podemos perder de verdade
é a capacidade de contemplar e curtir a beleza e os afetos,
de manter a compostura, o orgulho e a esperança. Se os deuses
nos ajudarem a tanto, porque às vezes isso é dura
tarefa.
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