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Ensaio:
Roberto Pompeu de Toledo
A arte de não
levar a nada
Escândalos de mais de cinco anos
continuam sem desfecho; no Brasil
as coisas não acabam definham
O processo pelo qual o Ministério
Público de São Paulo tenta recuperar o dinheiro alegadamente
desviado pelo ex-prefeito Paulo Maluf para contas no exterior teve
início em 2001. Fernando Henrique Cardoso era o presidente
do Brasil, Fernando de la Rúa o da Argentina e não
havia ocorrido ainda o ataque às torres gêmeas de Nova
York. De 2002 são o seqüestro e o assassinato do prefeito
de Santo André, Celso Daniel. O Brasil era só tetracampeão
mundial de futebol. O penta ainda estava por vir. De 2004 é
o caso Waldomiro Diniz, o ex-assessor da Casa Civil filmado ao tentar
arrancar uns trocados de um operador do jogo do bicho. O papa era
João Paulo II e os EUA ainda achavam que iam estabelecer
uma "democracia" no Iraque. De 2005 é o escândalo do
mensalão. Evo Morales era apenas o líder dos índios
da Bolívia e Plutão ainda era considerado um planeta.
O que há de comum nos
escândalos brasileiros elencados acima é que nenhum
deles encontrou um desfecho. O mais velho o de Maluf
já completou cinco anos. Presidentes se sucedem mundo afora,
muda o papa, até o sistema solar sofre um desfalque
e nada de os escândalos no Brasil avançarem rumo a
um final, com as devidas condenações, outras tantas
absolvições, esclarecimentos acima de qualquer dúvida
e uma conclusão digna desse nome, uma conclusão verdadeiramente
conclusiva. O Brasil inventou uma química pela qual os escândalos,
depois de estourar, se transmudam em bolhas suspensas no ar, por
muitos e muitos anos, até se evaporar.
Quando o Coelho Branco, titubeante,
disse não saber como começar seu depoimento, o Rei
de Copas aconselhou: "Comece pelo começo, em seguida prossiga
até o fim, e então pare". O conselho, proferido num
momento crítico de Alice no País das Maravilhas,
de Lewis Carroll, cabe como uma luva aos brasileiros. Uma das características
nacionais é não saber começar as coisas no
começo, perder-se no meio e, dificilmente, como mostra o
sistemático emperramento da máquina de apurar escândalos,
chegar a um fim. O antropólogo Roberto DaMatta, que conhece
como poucos a alma nacional, já diagnosticou o problema,
ao comparar os hábitos em vigor nos Estados Unidos e no Brasil:
"... lá (nos EUA) as coisas quase sempre têm
um início, um meio e um fim, ao passo que aqui temos uma
imensa dificuldade em fechar etapas e acontecimentos".
DaMatta escreveu isso num artigo
intitulado "Da incapacidade de concluir". Para exemplificar, citou
sua própria experiência como aluno calouro da Universidade
Harvard, em 1963. Num dos primeiros dias, chegou às 8h30
para uma aula que começaria às 9 horas. Queria conversar
com colegas sobre o curso. Ficou olhando para as paredes, sozinho
na sala. Quando faltavam três minutos para as 9 horas, os
colegas chegaram todos juntos. Terminada a aula, foram embora todos
juntos. "Atônito", escreve DaMatta, "eu, que esperava um evento
a ser construído por etapas, vivi a experiência 'calvinista'
de um encontro com início, meio e fim algo iniludivelmente
bem marcado."
Se a característica nacional
já é a de ter dificuldades de encarar com decisão
e objetividade o roteiro a seguir, as coisas pioram para valer no
terreno da política. Agora, aos naturais titubeios e desnorteamentos,
acrescenta-se a malícia de quem quer protelar para enganar,
confundir para melar. Regra geral, para o comum dos brasileiros,
as coisas não são para começar no começo.
Se a reunião está marcada para as 8 horas, começará
às 9 horas. E sem hora para terminar, e muito menos com o
compromisso de terminar com algo conclusivo. As reuniões
terminam com a marcação de nova reunião.
Se é assim para o comum
dos brasileiros, no mundo político é mais assim ainda.
Do começo tatibitate, marcado por vacilos, remanchos e escamoteios,
um começo sem começo, a regra é avançar
para um meio tumultuado, aberto a múltiplas e contraditórias
trilhas, recheado de armadilhas, sem método a reger os procedimentos
ou, quando há método, sem disposição
de obedecer a eles, e com apenas uma frouxa idéia de aonde
se quer chegar. É o que ocorre nas CPIs. O Brasil teve uma
overdose de CPIs nestes últimos anos. Já se sabe como
é: o reinado das sessões que não têm
hora para começar nem para acabar, dos inquisidores que não
sabem o que inquirir, das pessoas que conversam ou falam ao celular
enquanto outras depõem, da montanha de sigilos quebrados
que se acumulam até não se saber o que fazer com eles,
das testemunhas protegidas pelo direito sagrado e inalienável
de mentir.
Neste ano de 2006 outros dois
casos graúdos se juntaram à lista: o escândalo
das ambulâncias superfaturadas, também conhecido como
escândalo dos sanguessugas, e a conexa tentativa de compra,
por uma turma de petistas, de um dossiê contra os adversários
do PSDB. Neste último caso, continua de pé a tão
repetida pergunta: de onde veio o dinheiro? O retrospecto indica
que ela ainda estará de pé ao fim do ano que vem.
E do outro, e do outro. No Brasil as coisas não acabam. Definham.
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