'
 


    

 
Edição 1986 . 13 de dezembro de 2006

Índice
Millôr
Lya Luft
Diogo Mainardi
André Petry
Roberto Pompeu de Toledo
Carta ao leitor
Entrevista
Cartas
Radar
Holofote
Contexto
Datas
Gente
VEJA.com
Veja essa
VEJA Recomenda
Os livros mais vendidos
 
 

Música
Perversão na ópera

Fascinado por meninos, Benjamin Britten
foi o Michael Jackson da composição erudita


Sérgio Martins


Luludi/Ag. Luz
Cena da ópera Albert Herring, que será encenada em São Paulo: herói casto

Benjamin Britten (1913-1976) foi o Michael Jackson da música erudita. Sob esse prisma, a ópera Albert Herring, escrita em 1947, poderá ser vista a partir do próximo sábado em São Paulo, numa montagem do Centro de Estudos Tom Jobim. É a segunda vez que uma ópera do maior compositor inglês de todos os tempos é produzida no Brasil. A montagem anterior aconteceu em 1967. Nesse período de quarenta anos, diversos estudos lançaram luz sobre um aspecto perturbador da biografia de Britten: o seu fascínio por meninos. O uso da voz de garotos é marca registrada na música desse autor. Mas ele também viveu cercado de adolescentes e dedicou a muitos deles uma amizade intensa. "Eu ainda tenho 13 anos", disse Britten certa vez, tentando explicar não apenas a presença constante de um séquito infantil ao seu redor, mas aspectos técnicos de suas composições. A infância e a inocência o obcecavam. Mas ele não as respeitou.

Dois livros sobre a sexualidade de Britten foram lançados nos últimos meses. Um deles é uma coletânea de ensaios eruditos. O outro é uma biografia assinada pelo inglês John Bridcut, que já havia produzido um documentário sobre o compositor. Britten's Children (As Crianças de Britten) mapeia os muitos relacionamentos que o inglês manteve com meninos. Entre os garotos, ele tanto podia ser um companheiro de jogos, que entretinha com piadas e passeios de carro, quanto uma espécie de figura paterna. O livro sugere que Britten lutou para manter seu envolvimento afetivo com crianças apartado de sua vida sexual, mas nem sempre conseguiu. O ator David Hemmings, que mais tarde se tornaria protagonista do filme Blow Up, de Michelangelo Antonioni, contou que na infância, quando foi protegido de Britten, dormiu abraçado a ele diversas vezes "sem que nada acontecesse". Um depoimento colhido por Bridcut fala explicitamente de abuso sexual. O compositor tocou o pênis de um de seus alunos enquanto ele dormia. O menino o repeliu e nunca mais voltou a cantar – ou sequer a pisar numa sala de concertos.

Britten foi um compositor engenhoso. Conquistou seu espaço no panteão moderno – e não apenas como representante da Inglaterra ("uma terra sem música", nas palavras do alemão Johannes Brahms). Suas obras principais são óperas como Peter Grimes e A Volta do Parafuso, na qual é explícita a idéia do adulto que seduz um menino. Albert Herring é um trabalho cômico, menor, baseado numa história do escritor francês Guy de Maupassant (1850-1893). Fala de um aldeão que se vê alçado à condição de "rei da primavera" porque manteve a virgindade enquanto todas as moças de seu lugarejo a perdiam. Quando estreou, em 1947, Albert Herring teve o amante de Britten, Peter Pears, no papel principal. Mas havia também meninos cantores na representação. Um deles teria servido de inspiração a Britten durante o período de criação. Chamava-se David Spenser e tinha 13 anos – a "idade mágica" para o compositor.

 
 
 
 
topovoltar