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Internacional
Um Fidel com petróleo
Fidel está à morte. Com ele será
enterrada a ruinosa experiência do socialismo caribenho. Com
petrodólares
e planos de expandir sua revolução, Hugo Chávez
já se
apresenta como novo líder da esquerda latino-americana. Fidel
teve a história ao lado dele e muito carisma.
Fracassou. Chávez tem petróleo e nenhuma autocensura.
Vai fracassar também. Mas a que preço?
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O FILHOTE DO DITADOR
O presidente venezuelano
está seguindo
os passos do cubano moribundo
Juan Barreto/AFP
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| O presidente Chávez: ele
quer se reeleger indefinidamente, criar partido
único e pôr sua ideologia no currículo
escolar |
CHÁVEZ
META DE SE PERPETUAR
NO PODER
No poder há oito anos e reeleito para mais
seis, Chávez anunciou a intenção
de criar a reeleição contínua,
sem limite
DESEJO DE EXPORTAR
A REVOLUÇÃO
Usa o dinheiro da venda de petróleo para
bancar aventureiros esquerdistas em outros países
NARCISISTA E PROLIXO
Tem um programa dominical na televisão em
que canta, discursa durante horas e faz palhaçadas
INVENÇÃO
DE UM INIMIGO EXTERNO
Escolheu os Estados Unidos como desafeto, apesar
de o país ser o principal parceiro comercial
da Venezuela
AFP
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| Nesta foto publicada em setembro
no jornal oficial Granma, Fidel aparece no
quarto do hospital: Cuba já prepara seu funeral
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FIDEL
META
DE SE PERPETUAR NO PODER
Está no poder desde 1959
DESEJO
DE EXPORTAR A REVOLUÇÃO
Tentou exportar a Revolução Cubana para
outros países da América Latina e a África
NARCISISTA E PROLIXO
Dono de retórica magnética, usou a TV
e o rádio para intermináveis discursos
INVENÇÃO DE
UM INIMIGO EXTERNO
Pôs no embargo americano a culpa pela pobreza
de Cuba
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Diogo Schelp e Denise Dweck
Com o cubano Fidel Castro no leito de morte,
o coronel Hugo Chávez, ditador eleito da Venezuela, está
se apresentando como o novo farol da esquerda revolucionária
na América Latina. "Ninguém vai me impedir agora de
construir o socialismo", disse Chávez, na semana passada,
depois de reeleito para mais seis anos no poder. Ninguém
impediu Fidel. Deu no que deu. Cuba tornou-se hoje uma nação
pária no mundo, com uma população faminta,
despreparada para os rigores da economia globalizada e, mesmo que
alfabetizada no jargão marxista, iletrada nas questões
que determinam a riqueza das nações. Aparentemente,
ninguém vai impedir Chávez de continuar sua tarefa
de construção do socialismo na Venezuela. Tanto em
Cuba quanto na Venezuela e de resto em todos os outros lugares
onde a experiência foi testada a construção
do socialismo coincide sempre com a destruição dos
países nos quais o sistema é implantado. Cubanos e
venezuelanos são hoje povos com horizonte menor do que tinham
antes de ser submetidos a ditaduras socialistas.
Com o respaldo das urnas, o presidente da
Venezuela viu-se à vontade para anunciar a intenção
de torcer mais uma vez a Constituição, escrita por
ele próprio, de forma a se manter no poder por quanto tempo
quiser. No mesmo fim de semana, as circunstâncias anunciaram-lhe
outra oportunidade a de ocupar o papel que há décadas
é de Fidel. Diplomatas sediados em Cuba dão como certo
que o ditador está morrendo de câncer intestinal. Aos
80 anos, afastado do poder desde agosto, ele faltou até às
comemorações públicas do próprio aniversário,
no sábado 2. Faltam ao coronel venezuelano a respeitabilidade
e as circunstâncias históricas que deram transcendência
a Fidel Castro mas sobra-lhe dinheiro. "Em termos de idéias,
de capacidade para elaborar um conceito ideológico, Chávez
não conseguiria suceder a Fidel", disse a VEJA o historiador
venezuelano Elias Piño, da Universidade Andrés Bello,
em Caracas. "No entanto, Chávez tem o que Fidel nunca teve:
o dinheiro farto do petróleo, com o qual está se tornando
o banqueiro continental da revolução bolivariana",
diz Piño.
Celso Junior/AE
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Dario Lopez/AP
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| Chávez visita Lula, na
semana passada, à esquerda, e Kirchner comemora sua eleição
em 2003: nem todas as esquerdas são iguais |
Fidel tentou exportar sua revolução,
mas carecia dos recursos para impô-la a povos que, como os
bolivianos de então, rejeitavam as ditaduras comunistas.
Cuba dependia da mesada soviética e passou fome depois que
a União Soviética virou fumaça. Aliás,
sua sobrevivência se deve, hoje, à ajuda enviada por
Chávez. Estima-se que o coronel venezuelano já tenha
torrado 25 bilhões de dólares na tentativa de aumentar
sua influência no exterior. Jorge Castañeda, ex-ministro
de Relações Exteriores do México e estudioso
da esquerda latino-americana, prefere colocar as analogias em outro
patamar. Para ele, Chávez é um Domingos Perón
com petróleo. Da mesma forma, seu mais notório pupilo,
o boliviano Evo Morales, não deve ser visto como um Che Guevara
indígena. Ele é apenas um populista habilidoso e totalmente
irresponsável.
O argentino Perón é o protótipo
do caudilho populista, na tradição latino-americana,
que acaba por conquistar a lealdade da esquerda. Para esse tipo
de governante, o desempenho econômico, os valores democráticos,
os objetivos programáticos e as boas relações
com os Estados Unidos são apenas aborrecimentos. Só
interessa manter a popularidade a qualquer custo. Há dois
recursos básicos no arsenal populista: o nacionalismo desavergonhado
(que é alimentado pela entrada em quantas brigas for possível
com Washington) e a distribuição assistencialista.
Para manterem o poder e obterem dinheiro para sustentar o clientelismo,
os caudilhos populistas precisam assumir o controle das fontes de
receita disponíveis no caso da Venezuela, o petróleo;
no da Bolívia, o gás natural. Em geral, dão
à usurpação das riquezas nacionais o nome de
"construção do socialismo". Na semana passada, Chávez
anunciou sua intenção de construir o "socialismo do
século XXI". Pelo que adiantou até agora, significa,
para começar, limitar a propriedade privada e a liberdade
de imprensa.
Juan Mabromata/AFP
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| Acima, partidários de Chávez
comemoram a reeleição. O presidente criou 1 milhão
de empregos públicos e distribui dinheiro entre aqueles
que freqüentam os centros bolivarianos, sua base de poder
na periferia. Abaixo, Mercal de Caracas, supermercado que vende
alimentos a preços subsidiados: a pressão inflacionária
e o controle de preços esvaziaram as prateleiras e aumentaram
as filas |
Paulo Vitale
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A experiência cubana, e agora a venezuelana,
comprova que a "construção do socialismo" é
o caminho mais curto para a destruição de um país.
Quando Fidel tomou o poder, Cuba exibia índices socioeconômicos
invejáveis. Sua renda per capita era a quarta maior da América
Latina e o país exportava em dólares o mesmo que o
México, país cinco vezes mais populoso. A ilha era
o terceiro em uma lista de onze países latino-americanos
com o maior consumo de alimentos por habitante, com média
diária de 2.730 calorias. O socialismo foi estabelecido formalmente
em abril de 1961. A economia planificada mostrou-se um desastre
imediato. O racionamento de alimentos foi estabelecido antes do
fim do ano. Hoje, a renda per capita cubana é a 29ª
da América Latina. A queda no consumo diário de alimentos,
hoje em 2 417 calorias, jogou Cuba para o último lugar na
lista de onze países. Os cubanos sabem ler e escrever, mas
são praticamente analfabetos digitais. Apenas 2% da população
tem acesso (censurado) à internet, contra 25% na Costa Rica.
"Os governos socialistas queriam atingir o
mesmo desenvolvimento de uma economia de mercado por meio de um
planejamento centralizado nas mãos do governo. Isso é
impossível porque o Estado não é um bom piloto
do motor que produz a riqueza de uma nação. A iniciativa
privada desempenha melhor esse papel", disse a VEJA Vladimir Kontorovich,
economista ucraniano estudioso dos sistemas socialistas do Haverford
College, na Pensilvânia, Estados Unidos. "Por isso, a economia
controlada pelo governo é inimiga do bem-estar da população."
A construção do socialismo à moda chavista
está levando a Venezuela ao mesmo destino de Cuba. O modelo
adotado por Chávez não tem por base um programa sistemático
ou organizado. Trata-se de uma mistura de clichês socialistas
e da repetição de erros já cometidos por governos
venezuelanos do passado. "Em matéria econômica, não
há grande diferença entre Chávez e seus antecessores:
todos, basicamente, sustentaram o crescimento da economia no aumento
dos gastos públicos, desperdiçando a receita do petróleo",
declarou a VEJA o economista venezuelano Hugo Faría, do Instituto
de Estudos Superiores de Administração, de Caracas.
No caso de Chávez, o dinheiro da venda
do petróleo a Venezuela tem a sétima maior
reserva mundial do produto fóssil é direcionado
para projetos assistencialistas. Conhecidos como misiones,
esses programas estabelecem uma dependência direta entre a
população mais pobre e a Presidência da República.
Há misiones de alfabetização de adultos,
de cooperativas agrícolas, de atendimento médico e
de venda de alimentos subsidiados, entre outras. Mas não
criam empregos ou condições para que os pobres saiam
definitivamente da miséria. "Ao governo interessa que haja
muitos pobres, porque são eles que lhe garantem o triunfo
eleitoral", diz Faría. Em outra frente, Chávez hostiliza
a propriedade privada e cria uma sensação de insegurança
jurídica que desestimula os empresários a investir
em seus negócios a forma mais segura para gerar empregos
e um crescimento sustentado.
Eis um balanço parcial da destruição
causada por Chávez:
Apesar do aumento nos gastos estatais com saúde, a mortalidade
infantil elevou-se 9% nos cinco primeiros anos do governo Chávez.
Isso ocorre porque o governo gasta mal o dinheiro.
A classe média encolheu 30% desde 1998.
A insegurança jurídica e a desapropriação
de empresas fizeram com que o investimento direto externo caísse
86% no primeiro trimestre deste ano, comparado com o mesmo período
do ano passado. O número de empresas caiu de 17.000 para
8.000 nos oito anos de governo bolivariano.
A inflação está em elevação e
deve fechar o ano em 17%. Só não foi maior porque
o governo mantém um rígido controle de preços
e de câmbio. A razão para a pressão inflacionária
é que há dinheiro demais circulando na Venezuela.
Chávez é perdulário com a receita do petróleo:
os gastos públicos em 2006 cresceram 124% em relação
a 2005 e devem aumentar mais 32% no ano que vem. O excesso de bolívares
alimentou o consumo e fez crescer os depósitos bancários
em 84%, só neste ano. Como ninguém tem coragem de
tomar empréstimos para projetos de longo prazo, todo o poder
de compra é despejado no consumo. Resultado: inflação
de demanda. Já estão faltando nas prateleiras venezuelanas
alimentos básicos como leite e carne.
A produtividade dos trabalhadores venezuelanos caiu 36% entre 1978
e 2004. No Chile, esse índice melhorou 98%.
Ao concentrar os gastos públicos nos programas assistencialistas,
Chávez descuidou da infra-estrutura do país, que está
desmoronando. Literalmente. No início do ano, a ponte que
levava ao aeroporto de Caracas foi abaixo por falta de manutenção.
Nem a maior fonte de renda do governo chavista escapa do descaso:
entre 1998 e hoje, a produção de barris de petróleo
caiu 30% na Venezuela, por falta de investimentos na manutenção
dos equipamentos.
De acordo com a ONU, a Venezuela passou o Brasil no índice
de violência com arma de fogo. Em Caracas, o crime incontrolado
reflete a anarquia e a falta de infra-estrutura da cidade.
Dado Galdieri/AP
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| Evo Morales: estatização da economia |
Boa parte desses problemas se deve ao caos da administração
pública bolivariana, provocado pela centralização
do poder em Chávez. Entre outras medidas, ele subordinou
as misiones diretamente ao seu gabinete, fazendo dos ministérios
meros coadjuvantes. Isso torna a tarefa de controlar os gastos muito
mais complicada. Conta-se que na mesa do presidente há pilhas
de contratos de fornecedores do governo esperando sua assinatura.
"Até o direito de comprar divisas para fazer importação
depende da aprovação do governo, e Chávez usa
esse controle como forma de pressão política", disse
a VEJA o economista venezuelano Ricardo Hausmann, da Universidade
Harvard, nos Estados Unidos. Chávez aprendeu com Fidel Castro
a não confiar em ninguém, a não ser em si mesmo.
Isso explica por que são cubanos que fazem a segurança
do presidente venezuelano e por que ele criou uma milícia
civil que responde diretamente a ele e não ao comando
das Forças Armadas. "Desde o princípio, Fidel sempre
foi muito narcisista e não queria que nenhuma outra pessoa
ofuscasse sua liderança", disse a VEJA o americano Brian
Latell, autor do livro After Fidel (Depois de Fidel). A descrição
casa perfeitamente com a personalidade de Chávez e está
de acordo com o caudilhismo latino-americano.
Para ser estável, o poder nos Estados
autoritários deve se concentrar nas mãos de um indivíduo
ou de um pequeno grupo dirigente. São as personalidades
não as instituições que importam em
tais países. Como Cuba, a Venezuela tem um presidente, mas
não uma Presidência. Chávez, como Fidel, é
a revolução. Em ambos os casos, a lealdade ao Estado
é a lealdade ao líder. Não há na Venezuela
vestígio da independência dos poderes, a pedra fundamental
da democracia moderna. Além do Executivo, Chávez controla
100% do Legislativo, o Judiciário, o comitê eleitoral
e a PDVSA, a estatal do petróleo. Seu plano agora é
reunir todos os grupos da base aliada em um único partido.
"Líder único, partido único e ideologia única
só falta instituir uma imprensa única para
vivermos sob o regime cubano", disse a VEJA o analista político
venezuelano Alberto Garrido, de Caracas. Ele acredita que o único
freio a impedir a censura à imprensa e a abolição
da propriedade privada é o desejo de Chávez de manter
as aparências diante da comunidade internacional.
Nos últimos doze meses, Chávez
aproveitou a onda de eleições presidenciais na América
Latina para ajudar candidatos amigos. A ofensiva vai bem. Venceu
na Nicarágua e no Equador. Perdeu no Peru e no México,
é verdade, mas o triunfo na Bolívia compensa qualquer
revés. Fiel ao receituário chavista, o presidente
Evo Morales está reescrevendo a Constituição
para ampliar o próprio poder, expropriou os recursos minerais
(tungando a Petrobras) e anunciou o direito de revogar a seu bel-prazer
o direito de propriedade. Os efeitos nefastos já são
visíveis: no primeiro semestre deste ano, os investimentos
no setor de petróleo e gás da Bolívia caíram
40% em relação ao mesmo período do ano passado.
O tributo que a esquerda latino-americana
rende a Fidel Castro é difícil de ser transferido.
Chávez tem dinheiro para comprar muita gente e, com seu antiamericanismo,
atrai outros tantos. Mas está longe de liderar uma guinada
à esquerda no continente. Há, melhor dizer, dois tipos
de governos esquerdistas, que não devem ser confundidos.
Um deles é de corte moderno, mantém a mente aberta,
respeita a democracia e a realidade econômica. Essa centro-esquerda,
que inclui o Brasil, o Chile, o Uruguai, é a maioria. Seus
presidentes podem subir no mesmo palanque, mas não se deixam
influenciar pelo histriônico coronel de Caracas. Néstor
Kirchner, da Argentina, é um digno herdeiro de Perón
mas seu esquerdismo é mais idiossincrático
do que radical. Chávez lidera um número reduzido de
governos de mente fechada, reconhecíveis pelos arroubos nacionalistas
e populistas. Com a morte de Fidel, o poder passa às mãos
de figuras cinzentas, ao estilo de um politburo soviético,
e a ilha deixa de ter relevância ou influência geopolítica.
Se o que acontecerá em Cuba daqui em diante interessa, basicamente,
apenas aos cubanos, os rumos políticos da Venezuela trazem
risco para toda a região. A partir desse momento, a esquerda
revolucionária, órfã de pai e mãe, só
pode se voltar para Chávez. Diz o americano William Ratliff,
do Instituto Hoover, nos Estados Unidos: "O pior é que a
revolução de Chávez é ainda mais irreal
que a cubana: ele passa o tempo todo misturando Simon Bolívar
com Mao Tsé-tung". Os venezuelanos já perderam a guerra
contra Chávez. Ele precisa agora ser contido antes que consiga
"construir o socialismo" e destruir mais países na América
Latina.
Com reportagem de
Thomaz Favaro
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