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Entrevista: Dieter Zetsche
A toda a velocidade
O presidente mundial da DaimlerChrysler
diz que falta pouco para as fábricas
de carros do Ocidente conseguirem
enfrentar os asiáticos com sucesso
Ronaldo França
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Juergen Schwarz/Getty Images

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"Não é uma exclusividade
japonesa ter disciplina ou processos de produção
perfeitos. Uma empresa alemã pode fazer isso" |
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Aos 53 anos, o engenheiro Dieter
Zetsche já inscreveu seu nome na galeria dos superexecutivos
da indústria automobilística. Quando a Chrysler, a
porção americana do grupo DaimlerChrysler, estava
quase quebrada, no início desta década, ele a consertou.
No ano passado, foi a Mercedes que se viu em apuros e ele
foi chamado de volta à Alemanha, mas para se tornar o presidente
mundial do grupo DaimlerChrysler. Foi direto ao topo da organização
de 370 000 funcionários e faturamento anual de 150 bilhões
de euros, equivalentes a 428 bilhões de reais. Paralelamente,
tornou-se o responsável direto pela divisão de carros
Mercedes, a jóia da coroa. Sua tarefa agora é atravessar
a crise que está corroendo todas as gigantes do setor e,
de quebra, dar um polimento na estrela da Mercedes, arranhada por
um gigantesco recall de automóveis, no ano passado. Não
bastasse tanta adrenalina, Zetsche gosta de velocidade. Quando pode,
acelera até os 300 quilômetros por hora. "Nunca faria
isso se não estivesse em um carro seguro, o que um Mercedes
é por definição", diz. Há duas semanas,
esteve no Brasil, onde trabalhou vinte anos atrás, como chefe
de engenharia da Mercedes. Veio para as comemorações
dos cinqüenta anos da montadora no país. Na fábrica
de São Bernardo do Campo, concedeu a seguinte entrevista
a VEJA.
Veja Como as
empresas americanas e européias podem sair da crise atual
e virar o jogo contra as marcas asiáticas?
Zetsche As melhores empresas asiáticas focaram
com precisão no negócio. Fizeram o dever de casa,
buscaram a excelência operacional, boa qualidade, e os consumidores
perceberam isso. É o caso da Toyota, uma empresa muito poderosa,
de muito sucesso atualmente. Vários concorrentes, como nós,
não conseguiram manter o foco, vacilando em alguns momentos.
Especialmente no que diz respeito à excelência operacional.
Tivemos de fazer agora o que os concorrentes já haviam feito
antes. Mas não é uma exclusividade japonesa ter disciplina
ou processos produtivos perfeitos. Uma empresa alemã certamente
pode fazer o mesmo. Vamos alcançá-los e isso
não vai demorar muito.
Veja A saída
está em acelerar o processo de fusões?
Zetsche É possível, mas eu não
espero grandes mudanças. Está se tornando cada vez
mais complexa a tarefa de administrar essas empresas muito grandes.
É mais difícil para os administradores conseguir transparência
total, processos bem definidos, em um negócio global com
muitas marcas e regras diferentes. É por isso que não
vejo muitas companhias indo nessa direção. É
possível que ocorram novas fusões, mas isso, provavelmente,
acontecerá entre empresas menores tentando se defender no
mercado juntando-se a uma família maior em busca de proteção.
Por outro lado, veremos novas companhias surgir na competição
global, especialmente da China e mais tarde da Índia.
Veja Lee Iacocca
salvou a Chrysler nos anos 80. O senhor salvou-a de novo há
cinco anos. Agora, ela teve um prejuízo de 1,5 bilhão
de dólares no terceiro trimestre deste ano. Tem conserto?
Zetsche A Chrysler hoje é muito mais competitiva
do que era há cinco ou seis anos, tanto em qualidade quanto
em produtividade. Seus produtos têm qualidade e são
vistos assim pelo mercado. Mas, ao mesmo tempo, a situação
mudou. O preço do petróleo e da gasolina triplicou
nos últimos três anos e isso mudou o comportamento
dos consumidores de carros grandes. A Chrysler é muito forte
nesse segmento. As melhorias na competitividade ainda não
foram fortes o suficiente para enfrentar essas circunstâncias.
Estamos atentos a isso. Mas o mercado mundial de automóveis
só terá competição justa quando os países
asiáticos deixarem suas moedas flutuar livremente. Eles não
jogam pelas regras de mercado nesse particular e se beneficiam do
câmbio para baratear seus carros. Esperamos que, com o tempo,
os governos asiáticos parem com essa política cambial
irreal. Quando isso acontecer, a vantagem dos carros asiáticos
será reduzida e a concorrência vai ser mais justa.
Veja A DaimlerChrysler
anunciou um investimento global de 19 bilhões de euros até
2008. Quanto disso está reservado ao Brasil?
Zetsche Já investimos muito no Brasil. Temos
lançado caminhões modernos e estamos fazendo o mesmo
com chassis para ônibus. Manteremos atualizados os modelos
comerciais e decidimos lançar o novo Mercedes Classe C Sports
Coupé em Juiz de Fora. Os carros serão destinados
à exportação, o que obviamente exigirá
novos investimentos. Então, seguiremos com nossa operação
no Brasil muito competitiva, para que possamos garantir ou aumentar
a nossa atual fatia de mercado. Hoje exportamos do Brasil para mais
de quinze mercados. Seremos ainda melhores se o câmbio nos
for mais favorável.
Veja Qual será
a próxima fronteira para a indústria automobilística?
Zetsche A China é um mercado muito desafiador.
Em poucos anos será o segundo maior mercado de automóveis,
atrás apenas dos Estados Unidos. Mas a Índia está
no mesmo caminho, apenas alguns poucos anos atrás da China.
Tem quase a mesma população, 1,1 bilhão de
habitantes, contra 1,3 bilhão da China. O número de
pessoas que podem comprar um carro na Índia ainda é
pequeno, mas a classe média daquele país está
crescendo rapidamente. A Índia será o segundo mercado
mais atraente, logo depois da China. Também estamos procurando
parceiros para fabricar veículos pequenos, de padrão
B, para vender nos Estados Unidos e em outros mercados. Começamos
a conversar com os chineses em busca de uma parceria para esse projeto.
Veja A imagem
de qualidade da Mercedes-Benz foi afetada no início do ano
passado por um recall (convocação de clientes para
troca de peças defeituosas), um dos maiores da história
da empresa no segmento de automóveis. Foi convocado mais
de 1 milhão de proprietários dos modelos Classe E
e Classe C. O que os levou a isso?
Zetsche Não foi muito maior do que o de outras
companhias, incluindo a Toyota, cujo recall no setor de luxo foi
maior do que o nosso. Para a Mercedes foi um choque. Mas isso é
passado.
Veja Alguns analistas
do setor afirmam que a empresa ainda não se recuperou totalmente
dos danos à imagem...
Zetsche Os carros atuais da Mercedes têm mais
qualidade hoje do que os fabricados em qualquer período.
Estamos trabalhando para tentar melhorá-los ainda mais. Levou
algum tempo para que nos déssemos conta do que estava acontecendo,
e é inegável que isso acabou afetando a marca. Agora
os carros estão perfeitos novamente. Mesmo assim, algumas
pessoas ainda se referem a esses problemas como se fossem atuais.
É natural que demore um pouco para que percebam que o problema
não existe mais. Vai levar ainda um ano ou dois até
que o episódio seja totalmente esquecido.
Veja Adiantou
alguma coisa a famosa carta que o senhor escreveu aos executivos
da companhia dizendo que não toleraria lutas políticas,
jogos e intrigas?
Zetsche Provavelmente no topo de todas as empresas
existem mais jogos políticos e mais agendas pessoais do que
seria ideal para os negócios. Na nossa empresa não
seria diferente. Mas definitivamente não gosto disso. As
pessoas precisam entender que não terão sucesso nessas
empreitadas. O sucesso individual depende dos resultados de cada
um, mas também da capacidade de trabalhar em equipe. Minha
intenção foi deixar isso bem claro desde o começo.
Por isso, defini as regras do jogo e, assim, cada um pôde
concluir se seria capaz de segui-las.
Veja Atribui-se
aos problemas com a marca Mercedes-Benz a conquista da liderança
de mercado pela BMW. Será possível alcançá-la
outra vez?
Zetsche A BMW vendeu mais unidades do que nós
por algum tempo. Em outros meses, mais recentemente, nós
vendemos mais. Até o fim do ano, a BMW deve estar novamente
à frente. Isso não é decisivo para mim. Existem
outros indicadores para medir o sucesso de uma companhia. Sempre
estivemos à frente em faturamento. Se você perguntar
pelo mundo qual é a melhor marca de carro, muito mais pessoas
vão dizer que é a Mercedes. Obviamente passamos por
momentos difíceis em rentabilidade. Tivemos até prejuízo
no passado, mas estamos nos recuperando muito rápido. Em
breve teremos uma rentabilidade melhor do que a da BMW.
Veja Dizem que
o senhor dirige carros tão ousadamente quanto dirige as empresas...
Zetsche Adoro dirigir carros. Um benefício
de ser o presidente mundial da DaimlerChrysler é que isso
faz parte do meu trabalho. Freqüentemente vou aos nossos test-drives
e aos dos concorrentes. Assim posso comparar e ver o que podemos
melhorar e o que temos de melhor.
Veja O senhor
gosta de velocidade?
Zetsche Isso depende muito de onde eu dirijo e do
tipo de trânsito que enfrento, porque a segurança tem
de ser a prioridade, não necessariamente para mim, mas para
as outras pessoas. Mas gosto de dirigir em velocidade, gosto de
descobrir quais são os limites do carro.
Veja O senhor
já dirigiu a mais de 200 quilômetros por hora?
Zetsche Já dirigi mais rápido do que
isso, mas nas Autobahn (auto-estradas alemãs sem limite
de velocidade em alguns trechos). Se você quer saber mesmo,
já cheguei a dirigir a quase 300 quilômetros por hora.
Veja Nos test-drives
dos concorrentes já encontrou algum carro que lhe deu vontade
de ser o senhor o fabricante daquele modelo?
Zetsche Claro que existem outras companhias que fabricam
carros competitivos. Outro dia dirigi um Aston Martin Vantage (modelo
esportivo fabricado pela Aston Martin, uma das marcas da Ford).
É um carro muito bom. A meu ver o Aston é o melhor,
depois dos Mercedes, é claro.
Veja Qual foi
o melhor Mercedes que o senhor dirigiu em sua vida?
Zetsche O carro com o qual mais me diverti foi,
e ainda é, o Mercedes 300 SL, fabricado de 1954 a 1957. Ainda
é o meu favorito, o mais divertido de todos.
Veja O brasileiro
é apaixonado por carros. Em que outros países do mundo
os carros são uma paixão nacional?
Zetsche O Brasil é um desses lugares, com certeza.
Na Itália, "la bella macchina" é cultuada. Nos Estados
Unidos, de um lado você tem as pessoas que apenas querem o
carro mais barato para ir do ponto A ao B, sem se molhar na chuva.
De outro tem as pessoas que amam carros e através deles vão
aos limites da racionalidade para expressar suas emoções.
Os alemães também são grandes amantes de carros.
Veja O trânsito
nas maiores cidades do mundo caminha para o caos irreversível.
Produzir mais e mais carros não ajuda em nada a resolver
o problema, certo?
Zetsche É preciso lembrar que um carro oferece
ao indivíduo uma série de benefícios, como
liberdade, mobilidade, individualidade e a chance de estar entre
as suas próprias quatro paredes mesmo numa área repleta
de gente, como um engarrafamento. Você tem o seu pequeno compartimento
onde pode ouvir música, onde pode fazer o que quiser. Isso
é algo muito valorizado pela maioria. Nada menos do que 57
milhões de pessoas por ano no mundo decidem investir uma
quantia razoável para comprar um novo carro. É claro
que, somados aos 570 milhões já existentes, os novos
carros geram engarrafamentos crescentes, o que é um problema.
Continuará sendo um problema mesmo quando os carros tiverem
motores que não emitam gases danosos para o meio ambiente.
Ou seja, não há como negar que isso é um desafio,
e desafios precisam ser enfrentados.
Veja A produção
em massa de carros não poluentes é ainda uma realidade
muito distante?
Zetsche Estamos reduzindo a emissão de gases
ao mínimo. Desenvolvemos uma nova tecnologia, chamada BlueTec,
que reduz muito a emissão de gases nos motores. Existem também
os biocombustíveis, uma coisa bem desenvolvida aqui no Brasil.
Nós apoiamos essa solução plenamente. A própria
planta que serve de insumo ao combustível, enquanto cresce,
tanto absorve o gás carbônico quanto produz oxigênio.
Como é basicamente um círculo fechado, representa
pouca ameaça ao meio ambiente. O hidrogênio é
outra fonte muito limpa. O problema é como produzir hidrogênio
sem poluir.
Veja Carlos
Ghosn, presidente mundial da Renault-Nissan, é o único
brasileiro entre os executivos no topo da indústria mundial
de automóveis. Como o senhor o avalia?
Zetsche Ghosn fez um excelente trabalho na Nissan
no Japão. A companhia vivia uma situação muito
crítica e hoje desfruta boa rentabilidade. Ele merece meus
cumprimentos. Agora Ghosn tem a chance de mostrar que pode operar
milagres similares com a Renault, na França. Só o
futuro vai mostrar se isso é possível. Certamente
ele é um dos mais respeitados executivos da indústria
automobilística. Mas, pelo que sei, ele é libanês
e foi apenas criado no Brasil...
Veja Ele nasceu
aqui e, mesmo tendo passado tanto tempo fora, para nós ele
é brasileiro.
Zetsche Se é assim, também sou. Trabalhei
no Brasil e tenho uma filha que nasceu aqui. Então sou brasileiro
também. Em pensamento.
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