|
André
Petry
Meu Brasil brasileiro
"Enquanto Daniele perdia sua filha, era
acusada de assassina, presa e espancada,
a Justiça brasileira discutia o tamanho de
suas férias e tentava aumentar os próprios salários"
Num período de pouco mais
de um mês, de 29 de outubro a 5 de dezembro, Daniele Toledo
do Prado, 21 anos, moradora de um bairro pobre de Taubaté,
no interior de São Paulo, encarnou uma tragédia brasileira:
Sua filha, de 1 ano e 3 meses de idade, morreu, vítima de
uma doença que os médicos não conseguiram identificar.
Ela foi acusada de matar a própria filha colocando cocaína
dentro da mamadeira da criança.
Foi presa, pois um laudo preliminar indicou que o pó branco
da mamadeira parecia mesmo ser cocaína.
Detida, foi espancada por dezoito presas. Enfiaram-lhe meia caneta
no ouvido, quebraram-lhe a mandíbula, deixaram-lhe hematomas
pelo corpo e lesões na cabeça. Ao ser socorrida, duas
horas depois, Daniele estava inconsciente.
Na semana passada, Daniele deixou
a cadeia onde ficou por 37 dias. Um laudo, definitivo, mostrou que
o laudo anterior cometera um equívoco: o pó branco
encontrado na mamadeira e na língua da criança
não era cocaína. Daniele saiu da prisão,
abraçou familiares, chorou e, pela primeira vez, visitou
o túmulo da filha morta. "Nunca vi um caso como esse", escandaliza-se
sua advogada Gladiwa de Almeida Ribeiro, nove anos de profissão.
Mesmo que a história de
Daniele não esteja completamente esclarecida, mesmo que se
venha a descobrir que sua inocência não é completa,
seu caso chama atenção: tratada como culpada e impedida
de velar a filha, foi presa e brutalmente espancada na cadeia, onde
era chamada de "monstro da mamadeira". Daniele diz que vai recorrer
à Justiça. Quer saber a causa da morte de sua filha,
já que a suspeita de cocaína foi descartada, e quer
indenização do Estado pelo espancamento de que foi
vítima na cadeia.
Como seu caso acabará
nos tribunais, é didático dar uma olhada no que acontecia
na alta cúpula da Justiça brasileira no período
em que Daniele mergulhava no inferno:
No fim de outubro, os membros do Conselho Nacional de Justiça
decidiram que tinham direito a receber um jeton de 6.000 reais para
participar de duas reuniões mensais, mesmo que o pagamento
estourasse o teto salarial do funcionalismo, de 24.500 reais.
No dia 24 de outubro, os membros do mesmo Conselho Nacional de Justiça
decidiram que os juízes brasileiros tinham direito a férias
coletivas. (Na semana passada, o Supremo Tribunal Federal cortou-lhes
o barato.)
No dia 7 de novembro, o Conselho Nacional de Justiça mandou
um projeto para o Congresso autorizando o tal pagamento dos 6.000
reais mesmo furando o teto salarial. (A pressão da opinião
pública engavetou o projeto, mas ele segue lá, esperando
uma distração nacional para dar o bote.)
No dia 4 de dezembro, um outro conselho, o do Ministério
Público, decidiu que os salários de procuradores e
promotores não tinham de ser limitados a 22.000 reais. Podiam
ser tão altos quanto o teto nacional de 24.500 reais.
Resumindo, para eliminar qualquer
réstia de dúvida sobre a natureza de uma das tragédias
brasileiras: enquanto Dani perdia sua filha, era acusada de assassina,
presa e espancada, a Justiça brasileira discutia o tamanho
de suas férias e tentava aumentar os próprios salários.
Nada mais a comentar.
|