Luiz
Felipe de Alencastro
O desafio
do Carandiru
"O
presidente Fernando Henrique Cardoso tem todos os motivos para
considerar que a missão de levar a júri os réus
do massacre do Carandiru constitui um desafio à democracia
brasileira e
a sua própria palavra de homem público"
Ilustração Ale Setti
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No dia 2 de outubro de 1992, uma briga entre presos do Pavilhão
9 da Casa de Detenção de São Paulo degenerou
numa tragédia de enormes proporções. Sob
o fogo das metralhadoras e das pistolas da PM paulista, 111 detentos,
em boa parte negros e mulatos, foram assassinados. Conhecido como
o "massacre do Carandiru", o drama instalou-se na memória
coletiva brasileira. Além do noticiário e das análises
publicadas pela imprensa, três livros conhecidos tratam
do assunto. História de um Massacre, de João
Benedito de Azevedo Marques e Marcello Lavenere Machado, Pavilhão
9: o Massacre do Carandiru, de Elói Pietá e
Justino Pereira, e, sobretudo, três capítulos específicos
do best-seller Estação Carandiru, de Dráuzio
Varella.
Depois de oito anos de dilações, o caso foi a julgamento
em 29 de novembro, no 2º Tribunal do Júri de São
Paulo, encarregado do processo do coronel da reserva Ubiratan
Guimarães, comandante das forças da PM que perpetraram
o massacre. Deputado estadual, o coronel não escondeu sua
ação no presídio e teve a asquerosa idéia
de usar o número 111 em suas campanhas eleitorais. Num
depoimento, o diretor da Casa de Detenção na época
dos fatos afirma que a PM iniciou o tiroteio sem tentar negociar
a rendição dos amotinados. A perícia oficial
demonstrou que uma parte dos detentos foi morta deitada e à
queima-roupa. Porém, apenas iniciado, o julgamento foi
adiado em razão da saída de um dos jurados por motivo
de doença. Nova data será marcada para o reinício
do julgamento. A delonga junta-se aos atrasos nos processos de
outros 120 réus que deverão ir a júri, provavelmente
em 2002, pela morte dos 111 detentos, tentativa de homicídio
de outros cinco e lesões a bala em mais 85 presos.
No plano internacional, o processo segue um ritmo mais acelerado.
Logo que a extensão do massacre ficou conhecida, em 1992,
a Organização dos Estados Americanos (OEA) iniciou
um processo para condenar o governo brasileiro. A ação
foi interrompida por uma vibrante intervenção do
ministro das Relações Exteriores. No documento enviado
à OEA, Fernando Henrique Cardoso, que assumira o cargo
de chanceler do governo Itamar Franco três dias após
o massacre, lembrava o período sinistro da ditadura, quando
nosso país era acusado de violação de direitos
humanos, assinalava sua atuação na luta democrática
e exprimia sua confiança na Justiça brasileira.
Esse documento teve papel determinante no abandono da condenação
projetada pela OEA. Com o passar dos anos, a seqüência
de adiamentos deixou patentes as manobras para postergar o processo.
Em fevereiro de 1994, o relatório sobre direitos humanos
do governo dos EUA citou os atrasos no julgamento do massacre
do Carandiru como prova da incapacidade do governo brasileiro
em assegurar os direitos elementares de seus próprios cidadãos.
O relatório recebeu uma resposta irritada do governo Itamar
Franco, do qual FHC ainda fazia parte, agora como ministro da
Fazenda, sob o argumento de que um governo estrangeiro não
devia "opinar unilateralmente" sobre direitos humanos em outros
países, porquanto existiam organismos internacionais habilitados
a essa função.
O argumento caiu em maio deste ano, quando a Comissão Interamericana
de Direitos Humanos, da OEA, rejeitando os pedidos do governo
brasileiro para o arquivamento do caso, julgou oficialmente que
houve um massacre em 1992 no presídio do Carandiru. A decisão
abre a via para o julgamento do governo brasileiro pelas cortes
de Justiça internacionais.
Pessoalmente engajado nesse processo melindroso desde seu início,
tendo sido o primeiro presidente brasileiro a proclamar que os
direitos humanos são o fundamento do Estado democrático,
Fernando Henrique Cardoso tem todos os motivos para considerar
que a missão de levar a júri os réus do massacre
do Carandiru constitui um desafio à democracia brasileira
e a sua própria palavra de homem público.
Luiz
Felipe de Alencastro é historiador (lfa@workmail.com)