Roberto
Pompeu de Toledo
Ouviram do
Ipiranga
com que
roupa?
Os
encontros de Noel Rosa com o Hino
Nacional
e
o que eles apresentam de
mais sugestivo
Duas
vezes, Noel Rosa esbarrou com o Hino Nacional. A primeira
foi com a composição que inaugura sua grande fase,
Com que Roupa?, datada de fins de 1929, quando tinha 19 anos.
Ao levá-la a Homero Dornellas, um músico que costumava
prestar aos compositores populares o serviço de lhes passar
as criações para o papel, mal entoou o primeiro verso,
"Agora vou mudar minha conduta", e o outro estranhou. "Repete isso",
pediu. Noel repetiu, acompanhando-se ao violão. "Essa música
não pode ser publicada", informou o outro. "Isso não
é samba, é o Hino Nacional." Os dois versos,
ambos decassílabos, "Agora vou mudar minha conduta" e "Ouviram
do Ipiranga às margens plácidas", percorriam três
compassos idênticos. O próprio Dornellas acabou resolvendo
o problema, mudando ligeiramente as notas.
A
outra vez foi com O X do Problema, de 1936, na fase final
do compositor. A melodia que vai acompanhando a exaltação
do bairro do Estácio ("Nasci no Estácio/ Eu fui educada
na roda de bamba/ E fui diplomada na escola de samba") parece a
introdução do Hino Nacional. O jornal Ação,
órgão do movimento integralista, a versão brasileira
do fascismo, acusou o compositor de plágio.
Noel
vem ao caso porque neste 11 de dezembro estaria completando 90 anos.
E também porque a efeméride se faz acompanhar de um
especial lançamento, o da coleção Noel pela
Primeira Vez. Trata-se de uma caixa com catorze CDs que, produzida
pela Funarte, reúne as primeiras gravações
de cada uma das composições do autor. A coleção
resulta de um trabalho de garimpagem, em velhos discos e fitas,
do pesquisador Omar Jubran e vem complementar, na parte sonora,
outro trabalho precioso a biografia publicada por João
Máximo e Carlos Didier em 1990, quando se completavam os
oitenta anos do nascimento de Noel (Noel Rosa Uma Biografia;
Linha Gráfica Editora/Editora UnB).
O
fato de Noel ter esbarrado duas vezes com o Hino Nacional,
e quase trombado, é sugestivo. Fica-se a pensar em um e outro.
Mesmo considerando que os gêneros e propósitos são
totalmente diversos, as letras de Noel, simples, cotidianas, maliciosas,
engraçadas, líricas ou doloridas... seu garçom
faça o favor de me trazer depressa... meu Deus do céu
que palpite infeliz... por que você não atende ao grito
tão aflito da buzina do meu carro?..., são muito melhores
do que a versalhada pernóstica e obscura do Hino Nacional.
E se fosse para escolher uma canção... quem nasce
lá na Vila nem sequer vacila..., nosso amor que eu não
esqueço e que teve o seu começo numa festa de São
João..., meu cortinado é o vasto céu de anil
e meu despertador é o guarda-civil..., se fosse para escolher
uma canção que perdura na memória nacional
tanto quanto o Hino, e ainda com mais méritos porque
ninguém é obrigado a aprendê-la na escola, difícil
seria escolher qual.
Mas
isso não é o principal. O principal a extrair dos
encontros de Noel com o Hino é que cada um deles representa
atitudes opostas com relação à pátria.
Com que Roupa? embute uma crítica social. Era a época
do craque da Bolsa de Nova York. Novas dificuldades vinham se acrescentar
às antigas, a pobreza e a miséria ameaçavam
aumentar e o samba, como Noel disse a um parente, retratava
"o Brasil de tanga". Ele acrescentou que não seria "bobo
de ficar dizendo essas coisas por aí", mas será
indagam João Máximo e Carlos Didier, no livro
que foi por acaso que se deu a coincidência com o Hino
Nacional ? Já O X do Problema, inversamente, pode
ser lido como um louvor ao conformismo. A história é
a de uma mulher que, convidada "prá ser a rainha de um grande
palácio, e dar um banquete uma vez por semana", recusa-se
porque não quer sair do Estácio. Até já
a haviam convidado para ser estrela de cinema, mas ela não
quis: "Ser estrela é bem fácil/ Sair do Estácio
é que é/ O X do problema". Depois dessa espantosa
assertiva, em que a ascensão social é tida como fichinha,
conclui, pobre mas orgulhosa: "Palmeira do Mangue não vive
na areia de Copacabana".
Noel
viveu só 26 anos. Sete anos de fúria criativa, dos
19 aos 26, bastaram-lhe para produzir mais de 200 composições.
Ele morreu há tanto tempo (em 1937) que custa acreditar que
ainda poderia estar vivo. O presidente das Organizações
Globo, Roberto Marinho, que fez 96 anos, é mais velho. O
arquiteto Oscar Niemeyer, que está fazendo 93, também.
O movimento pendular descrito entre a crítica de Com que
Roupa? e o conformismo de O X do Problema é um
pouco o que nos divide a todos, mas, na verdade, Noel nunca foi
um autor de contestar ou desafiar. Seu olhar sobre Vila Isabel,
o Rio de Janeiro e o Brasil era antes de terna cumplicidade em torno
do samba, da prontidão e outras bossas. Seu maior inimigo,
freqüentador de várias canções, era o
"prestamista". Os tempos eram outros. O Brasil era mais pobre e
talvez mais injusto. Quando Noel nasceu, em 1910, tínhamos
vinte e poucos anos de abolição da escravidão.
Multidões de deserdados se concentravam no campo, e a grande
massa era analfabeta. Em compensação, o país
era mais manso. O Brasil era infeliz e não sabia.
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