O peso dos
anos
No
fim da vida, Hemingway tentou
preservar o
mito de sua virilidade.
Não deu certo
Flávio
Moura
O
escritor americano Ernest Hemingway (1899-1961) tinha aversão
a livros póstumos. Chegou a dizer que a pior coisa que lhe
poderia acontecer era ter um livro publicado sem autorização.
O recém-lançado Verdade ao Amanhecer
(tradução de Mario Pontes; Bertrand Brasil; 378 páginas;
36 reais) mostra que seus temores tinham fundamento. O romance foi
organizado por Patrick Hemingway, filho do autor, a partir de um
calhamaço sem título que o pai deixou inacabado. Reduzido
à metade, o texto foi lançado nos Estados Unidos no
ano passado. O enredo tem origem num safári que ele fez no
Quênia, em 1953, ao lado de Mary, sua quarta mulher. As tentativas
de Mary de caçar um leão e o envolvimento do narrador
com uma jovem africana são o centro da história. O
tema é típico do autor: o embate do homem com a natureza
e as situações extremas que põem à prova
sua honra e masculinidade.
Embora
Patrick Hemingway afirme no prefácio que não se trata
de um diário, as biografias de seu pai mostram que grande
parte dos eventos do romance corresponde à realidade. A ficção
fica por conta das proezas de Hemingway como caçador e de
tudo o mais que implique a exaltação de sua "hombridade".
Esse é o problema central do livro. No final de sua vida,
o escritor não era mais o beberrão conquistador e
onipotente de outrora, mas um sujeito às voltas com as limitações
da idade. Daí a tentativa de alimentar a todo custo a mitologia
que havia criado em torno de si. A prosa, naturalmente, reflete
essa ansiedade. Seu célebre estilo "enxuto" aqui parece hesitante.
Por mais que Patrick se tenha empenhado na edição
do romance, não conseguiu remediar essa falha. É claro.
Apenas um Hemingway no auge do talento seria capaz disso. Mas, no
final dos anos 50, o escritor, assim como o homem, já se
sentia esgotado. Ele mesmo resumiria tudo, horas antes de se matar
com um tiro: "Não funciona mais".
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