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Estranho amor

Cartas revelam detalhes do relacionamento
entre Hannah Arendt e Martin Heidegger

O alemão Martin Heidegger foi um dos mais originais filósofos do século XX. Foi também um nazista, e uma figura patética em sua vida privada. Sobre os dois primeiros fatos, há provas bem conhecidas. Centenas de livros, escritos em várias línguas, atestam a profunda e duradoura influência cultural do autor de Ser e Tempo. Da mesma forma, a ligação de Heidegger com o nacional-socialismo está fartamente documentada. Ele filiou-se ao partido de Hitler no começo dos anos 30. Em 1933, como reitor da Universidade de Freiburg, proferiu um discurso inflamado sobre o papel da ciência nos novos tempos, e encerrou a noite com a suástica na lapela e o braço erguido, proferindo a saudação "Sieg Heil!". Embora pouco depois tenha se desiludido com o movimento, jamais revelou em público sinais de arrependimento. Manteve até o final da vida um silêncio orgulhoso – e imperdoável – a respeito de seu passado político. Muito mais escassas foram até agora, no entanto, as informações sobre a intimidade de Heidegger. Só nos últimos anos as primeiras biografias alentadas vieram à luz. E mesmo esses estudos tiveram de ser redigidos sem o conhecimento adequado de documentos importantes, como parte da correspondência do filósofo. Dentre essas cartas fundamentais, encontram-se as que Heidegger trocou com Hannah Arendt, a brilhante pensadora judia que escreveu Origens do Totalitarismo e explicou ao século XX o lado mais sombrio de sua história política. Editadas na Alemanha no ano passado e agora publicadas no Brasil, as cartas de Hannah Arendt e Martin Heidegger (tradução de Marco Antonio Casa Nova; Relume Dumará; 330 páginas; 35 reais) revelam os detalhes de um intrigante caso de amor, cultivado pelos dois ao longo de cinqüenta anos.

A correspondência divide-se em três períodos. O primeiro, que vai de 1925 a 1933, é aquele em que um romance propriamente dito se desenvolveu. O término dessa fase coincide com a ascensão de Hitler ao poder e com o início da perseguição aos judeus na Alemanha. Nesse momento, Hannah foge para a França – não sem antes ouvir os primeiros rumores sobre uma possível conversão de Heidegger ao nazismo. Durante os anos 30 e toda a década de 40, os antigos amantes não mais se falaram. O segundo período da correspondência começa em 1950 – data em que Hannah, que vivia exilada nos Estados Unidos, visita a Europa pela primeira vez depois da II Guerra Mundial. Ela se reencontra com Heidegger e, até 1965, os dois tratam de recompor seu relacionamento, agora sem contato físico, mas com base na convicção de que foram e continuarão sendo almas gêmeas. Por fim, o último grupo de cartas circula entre 1966 e 1975, ano da morte da filósofa. Destaca-se aí o esforço empreendido por ela para tornar conhecida a obra de Heidegger na América.

As cartas revelam que ao longo dessas várias décadas uma mesma história sempre se repetiu: a da dedicação de Hannah, contraposta ao egoísmo de Heidegger. No período inicial do namoro, por exemplo, foi ele – um homem já casado e pai de dois filhos – quem impôs todas as regras, tendo em vista a preservação de sua "dignidade". Mas talvez tenha sido na segunda fase do relacionamento, aquela iniciada em 1950, que o caráter pusilânime do filósofo se manifestou com maior clareza. Pois aí foi tanto a Hannah quanto a sua mulher, Elfride, que ele impôs sua conveniência. Às duas mulheres, profundamente diferentes entre si, ele impingiu a humilhação de conviver e se tornar "amigas". Vale notar ainda que nesse mesmo período Heidegger sempre esperou de Hannah a devoção de uma antiga aluna, mas demonstrou-se incapaz de dedicar aos belos livros que ela própria escreveu um átimo sequer de atenção. Talvez seja incorreto dizer que o amor de Heidegger por Hannah Arendt não foi um sentimento autêntico. Mas o filósofo jamais permitiu que esse sentimento se sobrepusesse a seus interesses. Ao contrário do que disse o poeta Fernando Pessoa, a correspondência entre Hannah e Heidegger demonstra que nem todas as cartas de amor são ridículas. Ao expor o lado mais íntimo dos "grandes homens", há aquelas que provocam um melancólico desapontamento, em vez de riso.

 

"Caro Martin,

Dirijo-me a você com a antiga certeza e com o velho pedido: não se esqueça de mim e não esqueça o quão profundamente sei que o nosso amor foi a bênção da minha vida. Nada é capaz de abalar esse saber – e isso mesmo agora, no momento em que encontrei uma pátria e um porto seguro para o meu desespero (...) Escuto às vezes algo sobre você. No entanto, tudo envolto em um tom particularmente estranho e indireto: no tom que sempre está presente na elocução dos nomes famosos. De um modo quase torturante, gostaria tanto de saber como você está, em que está trabalhando e como Freiburg o está recebendo!

Um beijo meu em sua fronte e em seus olhos.

Sua Hannah"

Trecho de carta de 1929



"Cara Hannah!

A insinuação de que não cumprimento judeus é uma difamação tão baixa que a anotarei aliás para mim futuramente. Como esclarecimento de como me comporto em relação aos judeus, cito apenas os seguintes fatos: quem me enviou há algumas semanas um trabalho extenso para uma leitura urgente é um judeu. Os dois bolsistas da sociedade beneficente que foram alocados por mim são judeus. Quem conseguiu através de mim uma bolsa para Roma é um judeu. Quem quiser chamar isso de 'anti-semitismo furioso' pode fazê-lo. De resto, sou tão anti-semita hoje em relação a questões universitárias quanto há dez anos.

Saudações cordiais.

M."

Trecho de carta de 1932

 

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