O admirável
mundo
cão
Tudo
vai mal na sociedade, mas os
cachorros têm a solução. É o que
diz uma autora de Harvard
Flávio Moura
Cortesia de Harry N. Abrams, Inc. e William
Wegman Studios
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| Um
weimaraner do fotógrafo William Wegman: cada vez mais os cães
vivem como seres humanos. Os de raça, é claro |
Se
há uma coisa de que a crítica cultural americana Marjorie
Garber não pode ser acusada é de falta de coragem
e de inibição. Tempos atrás, ela resolveu afrontar
a sociedade dos Estados Unidos ao mudar de sexo. Nascida William
Kenan Jr., fez operações e assumiu a identidade que
ostenta hoje. Pelos anos seguintes, ela também provou sua
coragem no campo intelectual. Professora da prestigiosa Universidade
Harvard, nos Estados Unidos, quase todos os anos ela aparece com
um livro novo, com teorias das mais inusitadas. Em 1996, por exemplo,
Marjorie concluiu que o mundo ocidental vive uma crise de valores.
Exaurido pela luta econômica e pela divisão social,
o homem de hoje simplesmente não saberia mais que referências
seguir. Depois de muito refletir, ela chegou à conclusão
de que havia uma saída. A salvação, disse ela,
está nos cães. Isso mesmo. Observar o modo de vida
dos cachorros seria, veja você, a melhor maneira de se humanizar.
E, para defender essa tese, Marjorie escreveu o estudo Amor
de Cão (tradução de Flávia Villas-Boas;
Record; 388 páginas; 39 reais). O livro, é claro,
não convence. Mas isso não importa muito. Sem querer,
Marjorie Garber acabou criando um divertidíssimo compêndio
de anedotas caninas. Só por isso, merece um latido de aprovação.
Logo
no começo do livro, a autora faz um inventário detalhado
dos grandes cachorros da ficção. Ela dedica algumas
linhas densas aos seriados de TV Lassie e Rin Tin Tin,
dizendo que seus protagonistas encarnam valores básicos da
sociedade americana, como a fidelidade e a eficiência. Voltando-se
para o desenho animado A Dama e o Vagabundo, Marjorie também
conclui que o herói vira-lata do filme representa a resistência
e a energia na superação de obstáculos. Depois
disso, o tema passa a ser a afeição que escritores
famosos nutriram por cães. Virginia Woolf, por exemplo, escreveu
a biografia do cocker spaniel de sua conterrânea, a poeta
inglesa Elizabeth Browning. O alemão Thomas Mann escreveu
um livro de memórias chamado Um Homem e Seu Cão.
E o americano John Steinbeck, autor de As Vinhas da Ira,
era obcecado por seu cãozinho Charley. Segundo ele, em vez
de latir, Charley pronunciava "fft".
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| Vera
Loyola e a cadela Pepezinha: a obsessão por animais em versão
nacional |
Outro
caso curioso citado pela autora é o de Fala, o mascote do
ex-presidente americano Franklin Roosevelt. Em 1941, Fala estava
presente a um compromisso de Roosevelt a bordo de um navio. Anos
depois, circulou um boato de que Fala teria sido esquecido e que
outra embarcação fora enviada, a expensas do contribuinte,
somente para buscá-lo. Em seu programa no rádio, Roosevelt
se pronunciou. "É claro que não me magôo com
tais ataques", disse ele. "Mas Fala, sim. Sua alma escocesa ficou
furiosa. Ele não é o mesmo cachorro desde então."
A obsessão por cães, sabemos, vem ganhando terreno
por aqui. Recentemente, a emergente carioca Vera Loyola deu uma
festa para comemorar o aniversário da cadela Pepezinha. Teve
bolo, caldo de carne enlatado, presentes e au-au-au com melodia
de Parabéns a Você. É a comprovação
de uma das teses de Marjorie: a de que os cães, cada vez
mais, estão vivendo como os homens. Os de raça, é
claro. Só que eles estão aprendendo que vida de humano
também não é fácil. Muitos andam tomando
Prozac e alguns padecem dos terríveis males da linóleo-fobia
o medo de escorregar em assoalhos forrados com linóleo.
Walt Disney
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Walt Disney
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| Lassie:
segundo Marjorie, a cadela encarna valores caros aos americanos
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Cena
de A Dama e o Vagabundo: o vira-lata simbolizaria o poder
de superar obstáculos |
Os
sociologismos da autora são de fazer uivar. Ela afirma, por
exemplo, que o cachorro é um modelo de gentileza que pode
substituir o "homem sensível", ícone imaginado pelo
feminismo da década de 70. Trata-se de um enfoque teórico
típico dos "estudos culturais", uma vertente acadêmica
que se consolidou nos últimos trinta anos. Com um fraco por
tudo que seja pós-alguma-coisa, os teóricos dessa
linhagem tendem a focar aspectos comezinhos do cotidiano. Padecem
da mania de procurar pêlo em ovo e sofrem de um arraigado
fetichismo intelectual. Marjorie é um exemplo vivo disso
tudo. Depois de Amor de Cão, ela já lançou
dois livros, Symptoms of Culture e Sex and Real Estate.
O primeiro fala de uma miscelânea de assuntos, tais como lubrificantes
e orgasmos fingidos. O segundo é um estudo sobre o papel
da casa. Segundo Marjorie, a casa desempenha na vida do ser humano
funções análogas às de mãe, amante,
corpo, fantasia, troféu, história e refúgio.
Enfim, talvez a autora tenha mesmo razão ao dizer que o mundo
vive uma crise de valores. Seus livros estão aí para
comprovar.
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