Bonitinho,
mas...
Aos
poucos, Reynaldo Gianecchini descobre
que
para ser ator é preciso representar
Ricardo
Valladares
Dez
dias atrás, a novela Laços de Família chegou
a um momento crítico. Camila (Carolina Dieckmann) acabava
de ter sua gravidez interrompida e aguardava, no hospital, os resultados
de uma série de exames. Em vez de entregar a ela os primeiros
laudos, é com seu marido, Edu (Reynaldo Gianecchini), que
os médicos vão conversar. Eles lhe entregam um hemograma
e relatam sua suspeita: leucemia. No script distribuído pela
Rede Globo aos atores, a cena tem a seguinte marcação:
"Edu fecha os olhos, desesperado, com o exame na mão. Música
forte. Fim do capítulo". Pois é. Edu tinha de mostrar
desespero. E foi aí que os problemas começaram.
Fechar os olhos até que não foi difícil. Mas
a angústia essa não houve meio de o ator expressar.
Nos dias seguintes, a mesma situação se repetiu. Confrontado
com a necessidade de representar de verdade, o jovem e apolíneo
Gianecchini exibe sintomas do que se poderia chamar de síndrome
de Igor. Como o ator Ricardo Macchi, que se tornou célebre
anos atrás ao destroçar seu personagem cigano na novela
Explode Coração, Gianecchini simplesmente não
consegue atuar de maneira convincente. Aliás, seria mais
exato dizer que ele não consegue atuar nem mesmo de forma
inconvincente. "Está sendo difícil", reconhece o rapaz,
com admirável humildade. "Mas aos poucos eu vou melhorar."
Nos bastidores, no entanto, corre um certo nervosismo. Se o galã
não disser logo a que veio, terá provavelmente sua
participação na trama diminuída. Ele seria
afastado de Camila, sob o argumento de que a tristeza do marido
só faria a menina piorar.
A
essa altura, a história de Reynaldo Gianecchini já
é bastante conhecida. Modelo com experiência internacional,
ele chegou à novela das 8 meio por acaso. Sua experiência
dramática anterior limitava-se a duas peças com o
diretor teatral José Celso Martinez Correa, que tem opiniões
firmes sobre o ex-pupilo. "O Gianecchini é um sujeito promissor",
afirma Zé Celso. "O problema é que ainda não
perdeu a virgindade como artista." Na televisão, o porte
atlético e o rosto perfeito bastaram para transformá-lo
em celebridade. Ciente das limitações dramáticas
de seu novo ídolo, porém, a Globo tratou de precaver-se.
Escaldada pelo fracasso de Ricardo Macchi como o cigano Igor, ela
contratou para Gianecchini um personal trainer de interpretação,
Moacyr Chaves. "Ele é muito esforçado e tem disciplina
férrea", diz Chaves. O único problema é que
o próprio ritmo das gravações de Laços
de Família vem prejudicando os planos da emissora. "Alguns
atrasos nos capítulos estão fazendo os atores trabalhar
dobrado", conta Chaves. "Por causa disso, está difícil
ensaiar."
Apesar
de tudo, a Globo nem pensa em desistir de Gianecchini. O salário
atual do galã é de 7.000
reais, mas o contrato será refeito em janeiro e deverá
chegar aos 20.000 reais. Diferentemente
de muitos estreantes que enlouquecem com o sucesso, Gianecchini
tem uma qualidade universalmente reconhecida: não é
arrogante. "Ele é muito querido por todos", diz Vanessa Mesquita,
a prostituta Simone de Laços de Família. "Não
se vendeu para a fama." Quem também sai em defesa do rapaz
é sua namorada, a jornalista e agora também atriz
Marília Gabriela. "Eu não assisto à novela,
mas as pessoas me falam que ele está bem e eu acredito",
derrama-se ela. O amor é mesmo cego.
|
A
arte da interpretação, segundo Gianecchini
Abaixo, algumas expressões faciais do galã da
novela das 8.
Aviso: se todas parecem iguais,
deve ser por falha de percepção do leitor
Fernando Martinho
 |
Fernando
Martinho
 |
Fernando
Martinho
|
| O
ator, desesperado: o sorriso, aqui, denota o turbilhão
da alma |
O
ator, acabrunhado: o sorriso, aqui, denota a desilusão
com o mundo |
O
ator, zangado: o sorriso, aqui, denota uma certa ironia
|
|
|
Quem
sabe das coisas
é ela
Enquanto seu namorado, Reynaldo Gianecchini, se esforça
para acertar na novela Laços de Família,
a jornalista Marília Gabriela demonstra uma desenvoltura
surpreendente em seu primeiro trabalho como atriz teatral.
Estrela do espetáculo Esperando Beckett, um
monólogo escrito e dirigido pelo moderníssimo
Gerald Thomas, ela tem arrancado elogios das platéias
no Rio de Janeiro, onde a peça está em cartaz.
Até a inclemente Barbara Heliodora, crítica
que já teve arranca-rabos célebres com Thomas,
resolveu dar uma trégua desta vez. "Ela está
muito bem", afirma Barbara. "O diretor conseguiu aproveitar
o carisma e a capacidade de comunicação que
ela tem." Para interpretar o texto, criado especialmente para
ela, Marília contou com as dicas de uma atriz experiente,
a xará Marília Pêra. "Ela me disse para
gravar as falas", conta a jornalista. "Foi muito útil,
porque minha rotina anda maluca. Com as fitas na bolsa, porém,
eu podia ensaiar até na ponte aérea entre São
Paulo e Rio. Parecia uma doida, falando sozinha dentro do
avião." Antes de subir ao palco, Marília teve
somente quatro finais de semana com Gerald Thomas. "Felizmente,
o personagem tem muito de mim", revela. "Meus filhos já
disseram que eu sou daquele jeito mesmo quando surto."
|
|