Mais do que
um
problema no pneu
Explicar
barbeiragens no projeto do Explorer
é o novo desafio do presidente da Ford
Fotos AP
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| Capotamentos:
os pneus do Explorer tinham defeitos que eram agravados pelas
características do carro, como a altura e um chassi inadequado
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também |
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A estabilidade
no cargo de presidente mundial da Ford depende cada vez mais da
capacidade de Jacques Nasser de convencer os consumidores de que
podem andar sem medo nos carros que a companhia fabrica. O Explorer,
o maior sucesso de vendas entre os jipões que compõem
o segmento chamado de esportivos utilitários, está
contribuindo para criar dúvidas nesse terreno. Depois de
muitas pressões, Jacques Nasser vinha conduzindo com algum
sucesso o mega-recall de 6,5 milhões de pneus Firestone em
modelos Explorer. Mesmo a confirmação de 148 mortes
em acidentes relacionados ao defeito nos pneus estava produzindo
estragos menores que os imaginados inicialmente. Mas uma notícia
do jornal americano The New York Times, na quinta-feira passada,
recolocou Nasser na rota de atropelamento que, nos últimos
cinco anos, levou dois terços das maiores multinacionais
americanas a trocar seus principais executivos.
Segundo
o que o jornal apurou, desde a concepção do Explorer,
na década de 80, os projetistas da Ford sabiam que estavam
criando um carro que poderia ter sido um pouco mais bem-cuidado.
Estudos realizados na empresa naquela época revelaram que,
para ter índices de estabilidade mais adequados ao transporte
de passageiros, o Explorer deveria ter um chassi desenhado especificamente
para ele, por ser muito alto e pesado. Mesmo assim, conforme a reportagem
do Times, decidiu-se construir o carro sobre a base de uma
picape, a Ranger, por questão de pressa e economia. Um dos
resultados dessa improvisação é que, quando
acontecem problemas nos pneus defeituosos, as reações
do Explorer são piores que as observadas em outros carros.
Ele fica mais difícil de controlar, balança, derrapa
e corre mais risco de capotar. Para complicar esse quadro, numa
análise das estatísticas americanas sobre acidentes,
o Times descobriu que, nos casos de capotamento, a possibilidade
de os ocupantes de veículos Explorer morrerem é 2,3
vezes maior que em outros carros. Quando comparado aos jipes Cherokee
únicos modelos esportivos utilitários que nasceram
realmente para ser carros, não picapes , o veículo
da Ford apresenta risco de morte duas vezes maior para seus ocupantes.
Tudo
isso leva a uma conclusão que ajuda a entender por que houve
tantas mortes em acidentes de Explorer equipados com pneus Firestone,
enquanto os mesmos pneus usados em outros esportivos utilitários
não provocaram desastres com o mesmo nível de gravidade.
Os pneus têm, sim, problemas. Mas esses defeitos tornaram-se
mais sensíveis num carro menos seguro em condições
de emergência, como durante o estouro de um pneu. A Ford podia
ter feito uma opção diferente, conclui o New York
Times, mas tinha pressa em lançar um modelo que enfrentasse
os Cherokee, como reconhece o projetista Stephen Ross. Ao escolher
o chassi da Ranger, tomou também uma decisão econômica.
Montando o carro na mesma linha da picape, não seria preciso
encomendar novos robôs nem alterar os espaços nas fábricas.
Agora,
Jacques Nasser, que andou fazendo o possível para não
responder a perguntas, tem ainda mais explicações
a dar. Seu modelo de gestão, voltado para corte de custos
e agressividade nas vendas, era um sucesso até pouco antes
do recall. Mas o chairman Bill Ford deu vários sinais de
que não se entusiasmou do mesmo modo com os primeiros movimentos
do executivo quando ele precisou se mostrar atento aos interesses
dos consumidores. Em 1998, um advogado do Estado do Arizona escreveu
para Nasser, então vice-presidente, reclamando dos prejuízos
que tivera num acidente provocado por defeito no pneu de um Explorer.
Em resposta, recebeu um cheque para cobrir as despesas mas
a Ford continuou em silêncio publicamente, mesmo recebendo
centenas de reclamações semelhantes. Quando o recall
foi finalmente anunciado, Nasser, sob pressão, apareceu em
anúncios de televisão prometendo soluções
rápidas e jurando fidelidade aos clientes. A nova leva de
defeitos apontados no carro lhe dá uma segunda chance de
agir rapidamente. Não foi ele quem decidiu construir um veículo
com tantos problemas, mas seu desempenho de bombeiro é o
que conta agora.
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