Pela porta
dos
fundos
Morando
em belas casas e condomínios de
luxo, uma
turma de ex-dirigentes de fundos
de pensão conseguiu a façanha de fazer
fortuna enquanto comandava negócios
desastrosos com o dinheiro alheio
Marcelo
Carneiro
Nos
últimos anos, o Brasil viu crescer um gigante. Ele atende
pelo nome de fundo de pensão e ostenta um poder de fogo impressionante.
São 360 entidades que, juntas, têm um caixa de 128
bilhões de reais, quase 12% do PIB brasileiro, e participação
em algumas das maiores companhias privadas do país. Só
a Previ, que administra os benefícios previdenciários
dos funcionários do Banco do Brasil, tem patrimônio
de 34 bilhões de reais e é um dos setenta maiores
fundos de pensão do mundo. Ao mesmo tempo que viraram uma
potência econômica, no entanto, muitos fundos se destacaram
na crônica recente dos escândalos financeiros do país.
Houve gritaria aqui, protesto ali, mas dedicou-se pouca atenção
aos funcionários responsáveis pelas decisões
catastróficas que acabaram em rombos. No máximo, perderam
seus cargos. Nunca sofreram investigação rigorosa.
Durante dois meses, VEJA analisou o patrimônio pessoal de
ex-dirigentes de fundos de pensão de empresas estatais. Foram
escolhidos os que, nos últimos dez anos, estiveram no centro
de decisões polêmicas como a compra de precatórios
podres ou a participação na privatização
do sistema Telebrás. O resultado, certamente apenas uma amostra,
é interessante. Alguns transformaram, em velocidade supersônica,
salários em média inferiores a 10.000
reais brutos em fortunas superiores a 2 milhões de reais.
O salto patrimonial foi constatado por VEJA por meio de levantamento
em cartórios de registro de imóveis do Rio de Janeiro
e de Brasília, e os valores foram atualizados
A
façanha do enriquecimento súbito, mas sem justificativa,
não faz distinção. Atinge desde áreas
estratégicas como as diretorias de investimentos até
os escalões mais altos dos fundos de pensão. É
o caso do economista Francisco Gonzaga, que foi presidente da Petros
de 1996 até o ano passado e demonstrou extraordinária
capacidade de multiplicação de patrimônio
não o dos associados, mas o próprio. Militar da reserva,
Gonzaga tem 60 anos. Passou boa parte de sua carreira na Petros,
um dos cinco maiores fundos de pensão do país, com
um caixa de 8 bilhões de reais. Foi diretor de investimentos
entre 1989 e 1991 e voltou em 1996 como presidente. Neste cargo,
ganhou o maior salário de sua vida, 12.000
reais por mês. Homem de fala mansa e afável no trato,
no início dos anos 80 ele morava na Tijuca, bairro da Zona
Norte do Rio, num imóvel comprado através de hipoteca.
Hoje é dono de uma casa em um condomínio na Barra
da Tijuca, de frente para o mar, avaliada em cerca de 1 milhão
de reais. Ainda que tivesse recebido durante toda a sua carreira
o salário de 12.000 reais, precisaria
guardar cada centavo por sete anos seguidos para adquirir uma casa
como a que possui, sem comprar nem um pirulito para sua filha. Mas
juntou poupança suficiente para comprar o imóvel e
ainda fazer uma dúzia de outras transações
que envolvem escritórios de até 120.000
reais e apartamentos de 600.000 reais.
Fotos Selmy Yassuda
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| João
Bosco, que comandou investimentos da Previ, vive em uma
casa que está em nome de uma empresa com sede em paraíso
fiscal, mesmo expediente usado pelo ex-colega Fábio Faula,
hoje morador de um apartamento de 1 milhão de reais na
Praia do Leblon (à esq.) |
Gonzaga
diz ter como comprovar a origem dos recursos usados na compra de
cada um dos bens registrados em seu nome. Lembra que, na década
de 70, teve bons cargos na iniciativa privada. "Também apliquei
muito em renda fixa e ações e trabalhei como consultor."
Ainda assim, é curioso observar que a evolução
de seu patrimônio imobiliário aconteceu justamente
a partir da segunda metade da década de 80, quando começou
sua ascensão na Petros. De 1980 a 1985, Gonzaga só
comprou o imóvel da Tijuca, por financiamento, e vendeu duas
casas no interior do Estado e outro apartamento. De 1987 a 1992,
período em que chegou a diretor de investimentos da Petros,
fez nada menos que catorze operações imobiliárias,
entre elas a compra de três apartamentos na Barra, cada um
com valor médio de 500.000 reais,
uma loja no mesmo bairro e outros dois imóveis na Zona Sul
do Rio. Também adquiriu dois terrenos na Barra.
O
crescimento dos negócios pessoais de Gonzaga no período
à frente da Petros não seria tão grande sem
o auxílio de Joaquim Vieira. Português de nascimento,
Vieira entrou na Petros em 1973 e sua trajetória segue a
do chefe. Em 1989, quando Gonzaga virou diretor de investimentos
da Petros, tornou-se chefe da mesa de operações. Gonzaga
deixou a empresa no governo Collor e Vieira também saiu.
Só voltaria em 1996, como assessor da presidência,
com salário de 7.000 reais, pelas
mãos do amigo. As semelhanças entre os dois no cuidado
com o próprio bolso são ainda mais impressionantes.
Em 22 de março de 1990, Gonzaga comprou um terreno no condomínio
Malibu, um dos melhores da Barra. No mesmo dia Vieira adquiriu uma
área vizinha. Até o valor da compra é o mesmo.
No
momento, Vieira está reformando uma casa de 900.000
reais que comprou no condomínio Novo Leblon, também
na Barra. Situação bem diferente da vivida no início
da década de 80, quando recorreu a um empréstimo para
comprar um imóvel modestíssimo no bairro de Cachambi,
subúrbio do Rio. Logo depois, porém, as coisas começaram
a melhorar. No período de 1987 a 1992 aquele em que
Gonzaga fez catorze transações imobiliárias
Vieira comprou seis imóveis e vendeu dois. O ex-assessor
assegura que teve outras fontes de renda. "Trabalhei no mercado
financeiro, apliquei na bolsa e declarei tudo no imposto de renda."
Tanto Gonzaga como Vieira disseram, inicialmente, que autorizariam
o acesso a suas declarações de renda. Depois desistiram.
A passagem de Gonzaga pela Petros é um dos capítulos
mais conturbados da história da instituição.
Numa ocasião, teve de depor na CPI dos Precatórios
para explicar por que enterrou 40 milhões de reais em títulos
podres.
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Martônio
Avelar,
que chefiou a mesa de operações, tem 30 anos
e é dono de um imóvel na Praia de Ipanema avaliado
em 600 000 reais, mas garante ter pago apenas 200 000 pelo
apartamento
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Fiscalização
frouxa Mas a Petros não é o único
fundo de pensão com casos de enriquecimento a jato. A história
do economista Paulo César Ferracini, que trabalhou de 1990
a 1996 na Telos, fundo de pensão dos funcionários
da Embratel então uma empresa estatal , tem
lances ainda mais espetaculares. Em março de 1997, veio a
público uma história cabeluda envolvendo Ferracini,
que meses antes fora exonerado do cargo de gerente da mesa de operações
da Telos. A Polícia Federal descobrira que o economista mantinha
contas bancárias no exterior e construiu um patrimônio
milhares de vezes maior ao que seu salário permitiria. O
esquema era simples: com seu dinheiro, comprava ações.
Depois, como gerente da mesa de operações, investia
pela Telos nas mesmas companhias, valorizando os papéis.
Hoje o economista figura em um inquérito, por essas estripulias.
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O
economista Paulo César Ferracini, dono de um apartamento
na Barra da Tijuca (acima, à esq.), trabalhou
de 1990 a 1996 na Telos, fundo de pensão dos funcionários
da Embratel, e no período comprou outro imóvel,
de 1,5 milhão de reais, no exclusivo condomínio
Barra Golden Green (ao lado), que tem até campo
de golfe (acima) |
A certidão
de bens de Ferracini revela outra artimanha. Em dezembro de 1996,
ele passou uma série de bens que estavam em seu nome e no
de parentes para duas empresas. São apartamentos em Pernambuco,
terrenos no litoral fluminense e imóveis de 400.000
reais em condomínios na Barra. Ferracini também comprou,
em 1995, um apartamento no Barra Golden Green, o mais sofisticado
condomínio do bairro, com campo de golfe e cisnes importados
deslizando pelo lago. O imóvel custa pelo menos 1 milhão
e meio de reais. Ferracini é o único dos citados nesta
reportagem que não quis dar explicações sobre
seu patrimônio.
O
enriquecimento dessa turma sempre passou ao largo dos órgãos
de controle dos fundos. É impressionante que a administração
de recursos tão vultosos sofra uma fiscalização
frouxa. Os fundos de pensão são uma vitrine em todo
canto do planeta. Juntos, movimentam uma montanha de dinheiro de
8 trilhões de reais, algo como metade do PIB dos Estados
Unidos. No Brasil, estão presentes em negócios de
todo tipo e são um motor de desenvolvimento para o país.
No início dos anos 90, o patrimônio dos fundos somava
26 bilhões de reais. Hoje o caixa é cinco vezes maior,
mas a fiscalização não aumentou. Pelo contrário.
Quando assumiu o cargo há três meses, a secretária
de Previdência Complementar, Solange Paiva Vieira, cuja função
é ser uma espécie de xerife do setor, descobriu que
o Conselho de Recursos, responsável pelo julgamento final
dos casos de irregularidade, não se reunia desde dezembro
de 1999. Outro exemplo constrangedor: a secretaria conta com apenas
27 fiscais. "O que hoje se faz é muito pouco", reconhece
Solange.
Raimundo Valentim/ Ag. Estado
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| Francisco
Gonzaga, que foi diretor de investimentos e presidente do Petros:
catorze transações imobiliárias em um período
de seis anos |
A conjugação de altas quantias e parca fiscalização
pode ser explosiva em mãos erradas. E uma porta aberta para
todo tipo de negócio suspeito. Nos últimos anos, algumas
das operações dos fundos acabaram tornando-se, no
mínimo, uma dor de cabeça para o governo. É
o caso da privatização do sistema de telefonia, que
contou com a participação de pesos-pesados como a
Previ e acabou desaguando no grampo do BNDES. Hoje se sabe, também,
que os fundos gastaram quase 1 bilhão de reais nos malfadados
títulos de precatórios. Em outro episódio escandaloso,
a Funcef, fundo da Caixa Econômica Federal, com uma carteira
de mais de 5 bilhões de reais, enterrou 130 milhões
em um empreendimento da construtora Encol, na época já
sabidamente em situação falimentar.
Um
olhar mais atento sobre operações desse tipo teria
evitado casos de ascensão fulminante como o do economista
João Bosco Madeiro da Costa. Ex-diretor de investimentos
da Previ, ele tem 46 anos e é um portento na administração
de seu próprio patrimônio. Até 1996, quando
chegou à direção da instituição,
era um modesto funcionário de segundo escalão do Banco
do Brasil, em Brasília. Complementava sua renda, de não
mais de 7.000 reais mensais, com a sociedade
em duas padarias e uma pizzaria. Na ocasião, já possuía
em Brasília uma casa, de 700.000
reais, e um apartamento comprado com financiamento. Bosco não
tem imóvel residencial registrado em seu nome no Rio de Janeiro,
onde vive desde que assumiu o cargo na Previ, mas mora em uma bela
casa num condomínio da Barra da Tijuca, também avaliada
em 700.000 reais. A residência,
erguida em um terreno de quase 800 metros quadrados, tem dois andares
e quatro suítes, além de piscina e um bem-cuidado
jardim. No papel, o imóvel aparece como pertencente à
empresa Hill Trading Investments, cujo endereço é
uma caixa postal nas Ilhas Virgens Britânicas, um paraíso
fiscal.
O
procurador da Hill Trading é o advogado Juscélio Vidal,
também procurador da Beluga Ventures, outra empresa com sede
nas Ilhas Virgens. As duas dividem a mesma caixa postal. Pois bem:
a Beluga é dona de um apartamento junto à praia do
Leblon, um dos metros quadrados mais caros do país. O imóvel,
avaliado em 1 milhão de reais, é o endereço
de Fábio Faula, 41 anos, braço direito de Bosco no
período em que esteve na Previ. Há outra coincidência
ainda mais eloqüente. A Beluga funciona no mesmo endereço
da Cinco F Consultoria, empresa que pertence a ninguém menos
que Fábio Faula. Ou seja, o braço direito de Bosco
mora num imóvel registrado em nome da Beluga, que tem no
Brasil o mesmo endereço do escritório de Faula e,
no exterior, a mesma caixa postal da empresa que é "dona"
da casa de Bosco. Simples, não? Procurado por VEJA, Bosco
disse, inicialmente, que o dono do imóvel era "um amigo",
a quem paga 3.500 reais mensais de aluguel.
Depois afirmou que a casa era de um empresário. Mais tarde
decidiu "regularizar tudo em dez dias". "Compro a casa e passo para
meu nome", garantiu. Faula, que diz pagar os mesmos 3.500
reais de aluguel, arrumou desculpa parecida: "Vou comprar um imóvel
no Rio, mas mais modesto".
Bosco
e Faula faziam parte de um trio, cujo terceiro homem é Martônio
Avelar, transferido de Brasília em 1996 para o Rio, com 26
anos. Louro e bem vestido, o rapaz foi, por mais de dois anos, chefe
da mesa de operações da Previ, onde era também
conhecido como "Paquito". Ali eram fechados alguns dos negócios
mais importantes do fundo, como a compra e venda de milhares de
ações. Após a saída do trio, em dezembro
de 1998, os novos dirigentes descobriram que os papéis de
registro das operações não traziam dados fundamentais,
como a hora da compra e da venda. Avelar nega que isso ocorresse.
Hoje ele é dono de um apartamento em Ipanema, perto da praia,
comprado em fevereiro deste ano, avaliado por dois corretores ouvidos
por VEJA em cerca de 600.000 reais. Na
escritura, porém, Martônio declara ter pago apenas
200 000 reais.
A
equipe de Bosco poderia ter ficado por muito mais tempo na Previ,
não fosse um tropeço da sorte. Bosco fora indicado
para o cargo por Ricardo Sérgio de Oliveira, ex-diretor da
área externa do Banco do Brasil. Ricardo Sérgio acabou
envolvido no caso do grampo do BNDES, no qual gravações
de conversas telefônicas mostraram manobras para que os fundos,
entre eles a Previ, apostassem suas fichas em um dos consórcios
que disputariam a privatização da Telebrás.
Foi dele a célebre frase que vazou da série de fitas:
"Estamos no limite de nossa irresponsabilidade". Ricardo Sérgio
deixou o governo em dezembro de 1998. No mesmo mês, Bosco
foi rifado da Previ. Mas certamente levou boas lembranças.
Ele confirmou a VEJA as informações sobre seu patrimônio,
justificando que sempre trabalhou muito. Enquanto era funcionário
do BB, tinha a renda das duas padarias e da pizzaria, e ainda prestava
consultoria financeira. Com um detalhe: "É claro que não
declarei tudo isso ao imposto de renda", disse. "O mercado funciona
assim." Bosco fala com conhecimento de causa. Foi este "mercado"
que propiciou a alguns ex-dirigentes de fundos de pensão
uma mágica. Aumentar o próprio patrimônio enquanto
comandavam negócios desastrosos com o dinheiro alheio.
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É
o maior fundo de pensão do país.
Participa de mais de 100 empresas dos setores de telefonia,
mineração e alimentação.
Tem 124 000 associados e patrimônio de 34 bilhões
de reais.
Foi criado em 1904, para assegurar o pagamento de pensão
a herdeiros de funcionários do Banco do Brasil.
Entre os principais investimentos do fundo estão alguns
dos maiores shoppings, empreendimentos imobiliários
e hotéis do Brasil.
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Criado em 1975, é o fundo de pensão dos funcionários
da
Embratel, a maior companhia brasileira de telecomunicações,
privatizada em 1998 junto com as demais empresas do Sistema
Telebrás.
Seu patrimônio é de 1,5 bilhão de reais.
Figura em 14º lugar no ranking dos mais importantes fundos
de pensão do país.
Tem cerca de 12 000 associados.
Participa de empresas nas áreas de telefonia e mineração.
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Foi criada há trinta anos.
É
o terceiro maior fundo de pensão brasileiro.
Seu patrimônio é de 8 bilhões de reais,
maior que o de grandes empresas privadas como CSN e Fiat.
Tem
80 000 associados, todos funcionários ativos ou aposentados
da Petrobras e suas subsidiárias.
A maior parte dos investimentos está concentrada em
shoppings e empreendimentos imobiliários.
O fundo tem ainda participação acionária
em parques de diversões, indústrias de papel,
supermercados e empresas do setor alimentício.
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