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O Mercosul balança
mas não cai

Casamento do Chile e namoro da Argentina
com os americanos enfraquecem mas não
quebram a união dos países sul-americanos

Denise Ramiro, Cristiana Baptista
e Raul Juste Lores, de Buenos Aires

 
AFP
Manifestantes antiglobalização enfrentam polícia italiana em protesto contra encontro da União Européia: resistência a um processo inevitável e cada vez mais acelerado

Na semana que vem, quando os membros do Mercosul se reunirem em Florianópolis pela última vez no ano, o tom das conversas não vai ser tão amigável. Seis meses atrás, quando o Brasil assumiu a presidência do organismo de incentivo ao comércio regional, determinou como uma de suas principais metas integrar o Chile ao bloco econômico. Falhou. Há dias, o país recebeu de terceiros a informação de que o Chile tinha fechado um acordo de livre comércio com os Estados Unidos. A decisão chilena deixou o Brasil com cara de noivo abandonado no altar. Para completar a decepção, um dos padrinhos mais importantes da cerimônia, a Argentina, insinuou ver com simpatia a opção da noiva fujona. As portas do Mercosul para o Chile não se fecharam por completo. Mas o ministro das Relações Exteriores, Luiz Felipe Lampreia, avisou na última semana que, se o Chile resolver mesmo levar adiante as negociações com os americanos, terá de oferecer compensações comerciais ao Mercosul. Os chilenos reagiram. "Não nos agrada a atitude do Brasil. Não é por ser o maior país da região que tem o direito de meter medo em outros países soberanos", disse Haroldo Vanegas, vice-presidente da Associação de Exportadores de Manufaturas do Chile.

O clima é de confronto. Aliás, com o avanço da globalização econômica, tem sido essa a face das relações comerciais em todo o mundo. Na semana passada, militantes enfrentaram a polícia com paus e pedras em diversas cidades da Europa. A cena já se tornou comum. Protestava-se contra uma reunião de chefes de Estado europeus no balneário francês de Nice destinada a estreitar os laços continentais. A luta campal das ruas, com escudos improvisados e capacetes do lado dos policiais e dos militantes, não deixa de ser uma alegoria da briga que se trava entre os países e os blocos econômicos. Todos, especialmente os países ricos, falam em abrir, mas só agem na direção de proteger suas economias.

O namoro descarado do Chile com os Estados Unidos provocou irritação no Itamaraty e uma indisfarçável inveja nos demais sócios do Mercosul. O Chile é uma nação de dimensões modestas, com 15 milhões de habitantes e um produto interno bruto de 60 bilhões de dólares, que pode ser comparado ao do Estado do Rio de Janeiro. Mas a simbologia da debandada teve um impacto negativo como o Mercosul jamais experimentara. "Não tem meio-termo. Ou o Chile está de um lado, ou de outro. Parece que escolheu o outro", disse o embaixador brasileiro Botafogo Gonçalves. Os diplomatas latino-americanos acusam os chilenos de terem atropelado a agenda que previa uma adesão à Alca, o tratado de livre comércio das Américas, proposta pelos Estados Unidos, num ritmo bem mais lento. O Brasil, por seu lado, sustenta que só por volta de 2007 os países sul-americanos teriam concluídas suas reformas internas de modo a se relacionar com os americanos em condições pelo menos próximas no que diz respeito ao custo de investimentos, produtividade da indústria e poder de compra das moedas locais. A atitude intempestiva do Chile não é o fim do Mercosul, que vem funcionando muito bem, por sinal. O comércio na região deve voltar neste ano ao patamar de 17 bilhões de dólares, volume semelhante ao registrado em 1998, antes do outro abalo sísmico no bloco que foi a desvalorização do real, com seu impacto terrível sobre a economia do outro sócio poderoso do Mercosul, a Argentina. "O Mercosul criou um pólo muito atrativo para os investimentos externos na região e é considerado uma união de sucesso em todo o mundo", garante Rubens Barbosa, embaixador brasileiro em Washington.


Reuters
Presidente De la Rúa e a versão oficial: prioridade argentina ainda é o Mercosul


No caso do Brasil, que desde o final dos anos 80 já costurava as primeiras linhas do projeto de criação do Mercosul, há motivo de sobra para manter o acordo. Desde 1990, o país atraiu 320 empresas argentinas. No mesmo período, 450 companhias brasileiras abriram operações do outro lado da fronteira do Prata. A venda de automóveis para a Argentina, que era praticamente nula, hoje representa 35% do total exportado pelo Brasil. As conquistas comerciais caminham juntas com a aproximação dos povos. Um dos maiores feitos do Mercosul foi ter eliminado os ressentimentos e principalmente o preconceito dos argentinos em relação aos produtos brasileiros. Uma pesquisa realizada pela Simonsen Associados mostrou que 99,2% dos argentinos já adquiriram algum produto brasileiro e que marcas como Brahma, Garoto, Sadia, Cica e Hering são por lá uma referência de manufatura de qualidade.

O presidente Fernando de la Rúa ainda disse que o Mercosul é prioridade e que a entrada na Alca deve ser negociada com um Mercosul fortalecido, mas boa parte do governo e da opinião pública argentina vê a associação com os Estados Unidos como o remédio para todos os males. O movimento de surpresa do governo chileno atiçou o adesismo genético dos pampas. "Estou com inveja do Chile", reagiu o argentino José Luís Machinea, ministro cai-não-cai da Economia. À falta de um caudilho populista, como Perón, Alfonsín ou Menem, os argentinos começam a vislumbrar um novo salvador. "As nações que mais progrediram desde o fim da II Guerra foram íntimas aliadas dos Estados Unidos. Escolher entre vários trens está fora do alcance dos países periféricos: ou sobem no único trem que há, ou o perdem", decreta o jornalista e escritor Mariano Grondona, apresentador do talk-show sobre política mais popular e influente do país, Hora Clave. "No final do século XIX, a Argentina escolheu o império britânico para se inserir no mundo. O resultado é que se transformou no país mais rico da América Latina, tornou-se a favorita do império. Hoje, México e Chile são os preferidos do atual império", inveja Grondona.

Pelo que mostram os números, os argentinos lucrariam se fossem mais cuidadosos. Mais de 30% de suas exportações têm como destino o Brasil. As empresas platenses vendem mais para a Europa que para os países do Nafta (Estados Unidos, México e Canadá) juntos. Com as previsões de crescimento da economia brasileira, o mercado pode favorecer ainda mais os argentinos. Além disso, o comércio entre Argentina e Estados Unidos não é complementar, mas concorrencial. O trigo, a soja e o milho produzidos em solo argentino não interessam aos americanos, que desenvolvem com competência o mesmo tipo de cultura. "Só quem pode salvar a Argentina é o Brasil", diz Michel Alaby, vice-presidente da Associação de Empresas Brasileiras para Integração no Mercosul.

Na semana passada, a embaixada do Brasil em Washington divulgou um relatório sobre as barreiras que o mercado americano impõe aos produtos brasileiros. Pela primeira vez em seis anos a balança comercial entre os dois países ficou do lado do Brasil. O estudo mostra, no entanto, que as tarifas sobre os quinze principais produtos da pauta global de exportação brasileira ainda são assustadoras. Atingem uma média de 45,6%, contra 14,3% da taxação brasileira aos produtos americanos. Se os produtos nacionais, como suco de laranja, produtos siderúrgicos, açúcar, calçados, fumo, gasolina, camarão, álcool etílico e óleo de soja, tivessem suas barreiras eliminadas, o ganho brasileiro seria de 831 milhões de dólares. Parece pouco, mas poderia aumentar em 50% o valor médio das exportações desses itens. "Não há sinais de que a atitude do governo americano vá mudar para melhor", escreveu o embaixador Barbosa. Comércio internacional, como se vê, é uma guerra.

 

"Abertura de mercado é tema para tese.
Na prática, os países defendem seus
mercados com unhas e dentes"

Ana Araújo
Pratini: "O Brasil abriu sua economia muito tarde"

O ministro da Agricultura, Marcus Vinicius Pratini de Moraes, conversou com a subeditora Denise Ramiro sobre o protecionismo dos países ricos. A seguir, trechos da entrevista:

Veja – O senhor não acha que a globalização é um fenômeno inevitável e que os países tendem a abrir suas fronteiras sem restrições?
Pratini de Moraes – Essa história de abertura de mercado é tema para tese de faculdade, tese de mestrado, porque na prática os países defendem com unhas e dentes seus mercados. Experimente vender açúcar para Estados Unidos, Argentina ou Chile, vender frutas no Japão, café solúvel na Europa. Os países se protegem, se fecham com tarifas ou restrições. Qual é a idéia da globalização do mercado? Em tese não é a de que vende mais quem for mais eficiente? Pois em muitas áreas o Brasil é tão eficiente quanto os maiores competidores do mercado internacional. Mas não adianta ser eficiente na fazenda ou no porto. A competição de verdade se dá entre tesouros. Ganha quem tem mais dinheiro para subsidiar produtores e, artificialmente, fica com produtos mais competitivos. Por isso, acho que a política de comércio exterior brasileira tem de condicionar qualquer abertura de mercado, do lado de cá, ao aumento do consumo de nossos produtos agrícolas, do lado de lá. Se querem vender produtos europeus para o Brasil, que comprem os nossos.

Veja – O Brasil tem mesmo de dar tanta importância a seus produtos agrícolas?
Pratini de Moraes – O Brasil é a última grande fronteira agrícola do mundo. Há produtos que o mundo só pode comprar aqui. A área livre para a agricultura no Brasil é equivalente a toda a área dos Estados Unidos plantada com milho, trigo, soja e outros cereais. O potencial do campo brasileiro é enorme. É claro que não vamos conseguir exportar tudo, mas não podemos ignorar nossa capacidade.

Veja – A Índia enfrenta restrições a seus produtos e no entanto os programas de computador feitos em Bangalore, de alta qualidade, são muito bem aceitos no mundo. Será que a explicação para o mau desempenho das exportações brasileiras não está no fato de que o país produz mal?
Pratini de Moraes – O Brasil sempre foi um país voltado para dentro. Temos alguns setores que se lançaram no mercado internacional, o siderúrgico, o de calçados e o da indústria automobilística. Mas de maneira geral construímos nossa indústria em cima da idéia da substituição da importação e não do aumento da exportação. E, não competindo no mercado internacional, não investimos em tecnologia e não ingressamos na faixa de exportação de produtos com alta taxa de crescimento, como os de processamento de dados e eletrônicos. Na área agrícola, estamos agora procurando nichos de mercado com altas taxas de crescimento. É o caso das carnes magras nos Estados Unidos, dos cortes especiais de carne na Europa, das frutas tropicais ou exóticas nos mercados canadense, japonês e europeu. Também estamos apostando muito nos cafés especiais. Estamos atrasados. A Colômbia descobriu esse nicho há trinta anos. O mundo moderno não é mais apenas o de quem produz barato. Há boas oportunidades para quem produz o que o consumidor quer. É claro que esses produtos não vão resolver o problema das exportações brasileiras, mas somarão para gerar um fluxo na área dos agronegócios. O que a Índia fez foi mais ou menos isso. Descobriu uma vocação e se dedicou a ela.

Veja – O que mais é culpa do Brasil nesse quadro?
Pratini de Moraes – Nós estamos produzindo para o mercado interno e abrimos nossa economia muito tarde. Sempre tivemos uma indústria altamente protegida, o que levou a uma queda no padrão de qualidade. Mas não adianta chorar sobre o leite derramado. Temos de olhar para a frente.

Veja – Por que o Brasil não se preocupa em melhorar suas condições de competição em vez de reclamar tanto dos outros?
Pratini de Moraes – Não chamaria o que os brasileiros têm feito de reclamação. O que está acontecendo é que o país tem tomado posição no plano internacional para defender seus interesses. O Brasil, que sempre foi muito introvertido, agora tem consciência de que é a nona economia do mundo e não engole mais qualquer coisa.

Veja – O senhor conhece algum país que tenha melhorado seus resultados, em termos de exportação, reclamando dos outros?
Pratini de Moraes – Todos os países têm de ser duríssimos para conseguir melhorar suas exportações. Os Estados Unidos e a União Européia foram e são. Os representantes da União Européia chegam ao Brasil com um rosário de queixas. É só reclamação. Nós estamos fazendo a mesma coisa.

Veja – A França e o Japão protegem seus agricultores mais do que o Brasil os seus?
Pratini de Moraes – Acho que todos os países têm o dever de proteger seus agricultores. Conversando com europeus e japoneses eu soube, inclusive, que isso não é feito apenas para reter mão-de-obra no campo, mas que tem muito a ver com as guerras. Países que sofreram fome em decorrência de guerras tiveram a preocupação de criar mecanismos de proteção agrícola para não ter de encarar novamente esse fantasma. A nossa objeção só faz sentido quando a proteção à agricultura interna gera distorções nos mercados internacionais. É o caso, por exemplo, dos subsídios às exportações. Quando um país europeu subsidia produtores de açúcar para que eles possam vender seu produto para a Nigéria, o açúcar brasileiro fica encalhado. O açúcar europeu chega à Nigéria mais barato do que o brasileiro e isso não faz o menor sentido. Somos maiores e mais eficientes nessa área.

 

 

 

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