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Acusado
de quinze assassinatos, Batoré, de
17 anos, foge da Febem e aposta nas brechas
do Estatuto da Criança para se manter impune
Carlos
Rydle
Aos
17 anos, F.P. é acusado de já ter matado quinze pessoas.
Sua especialidade são os seqüestros relâmpagos.
Também é muito competente para armar quadrilhas. Apelidado
de "Batoré", em razão da compleição
física atarracada, esse rapaz acabou transformando-se, na
semana passada, na presa mais cobiçada da polícia
de São Paulo. Além dos assassinatos e dos seqüestros,
ele ainda assalta e rouba. Preso em meados de novembro e recolhido
à Fundação Estadual para o Bem-Estar do Menor,
a Febem, Batoré foi resgatado por cúmplices quando
era levado da unidade de Franco da Rocha, na região metropolitana,
para depor no Fórum, no centro da capital, na segunda-feira
4. Apesar de seu currículo de crimes graves, viajava com
outros três adolescentes numa Kombi, sem escolta armada. Os
dois monitores que o acompanhavam não portavam nem coletes
à prova de balas nem armas, já que a legislação
não permite o uso a quem cuida de menores.
O
governador Mário Covas considerou a fuga inaceitável
e demitiu o diretor da unidade da Febem, Francisco Antonio Teodoro,
três dias depois. Do esconderijo em que se meteu, Batoré
já informou seus planos a um advogado amigo. "Ele disse que
fará de tudo para não ser mais detido até completar
21 anos", contou o advogado Ariel Castro Alves, que tenta convencê-lo
a se entregar. Essa é a idade mágica em que o passado
criminal de um jovem internado em unidades correcionais simplesmente
é apagado dos registros públicos. Batoré será
então um homem livre, sem dívidas com a sociedade.
É o que prevê o Estatuto da Criança e do Adolescente,
pelo qual menores não praticam crimes, e sim atos infracionais.
Da mesma forma que anseia pelo último dos cerca de 1.400
dias que o separam da impunidade total, Batoré está
decidido a não passar mais um único segundo atrás
das grades de uma instituição correcional.
Caio Guatelli/ Ag. Estado
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| Menores
infratores agrupados por policiais durante rebelião da Febem:
Batoré fugiu seis vezes da instituição |
Batoré
não é um caso isolado. É um exemplo claro de
que as autoridades brasileiras não conseguem lidar com a
marginalidade juvenil. Há dois anos, um em cada vinte homicídios
em São Paulo era cometido por um adolescente. No ano passado
já era um em cada dez. No Brasil, uma pessoa é morta
por um menor de idade a cada três horas. Em 1997, pouco mais
de 1.000 menores foram autuados por tráfico
de drogas em São Paulo. Em 1999, chegou-se a 5.000.
No primeiro semestre deste ano, de cada 100 armas apreendidas pela
Polícia Militar paulista, 22 estavam em mãos de crianças
e adolescentes. O Estatuto da Criança e do Adolescente é
uma lei moderna, elogiada por especialistas de vários países.
Mas, com a incapacidade de o Estado cumprir a parte que lhe é
atribuída, acaba se tornando um estímulo à
impunidade. O governo não consegue transformar a detenção
de jovens infratores naquilo que a lei chama de medida socioeducativa.
As entidades correcionais viraram depósitos de bandidos mirins
que só pioram a cada internação. E, muitas
vezes, quando esses meninos chegam ao lado de fora, são cooptados
por bandidos adultos para voltar a praticar crimes sob a capa de
proteção legal que o Estatuto da Criança e
do Adolescente lhes confere.
Pelo
estatuto, uma criança de até 12 anos é inimputável
e não pode sofrer nenhuma medida punitiva, mesmo se cometer
atos graves. Entre 12 e 18 anos, passa a ser julgada por varas especiais
de infância e juventude e é apenada com no máximo
três anos de internação em órgãos
como a Febem paulista. A situação é tão
grave que no Congresso Nacional tramitam treze projetos para diminuir
a maioridade penal de 18 para 16 anos. Alguns juízes também
sugerem o fim da medida que arquiva os atos infracionais cometidos
até os 18 anos, no caso de jovens em liberdade, e 21, no
caso dos que, como Batoré, já estão internados.
Apesar do sigilo que cerca os prontuários de "atos infracionais"
de jovens como Batoré na Febem e nos juizados de infância
e juventude, a ficha corrida do jovem não chega a ser segredo.
Ela incluiria o assassinato de quatro policiais um delegado,
dois investigadores e um sargento da PM. Os dados constam em confissões
de Batoré e de seus companheiros nos inquéritos. Todas
elas foram renegadas mais tarde na promotoria, à qual Batoré
declarou ter confessado sob tortura.
O
primeiro assassinato que lhe é atribuído foi cometido
em 27 de novembro de 1996, quando acabara de completar 13 anos.
Com outros seis bandidos, tentava assaltar uma loja de material
de construção perto de sua casa, em São Miguel
Paulista, na Zona Leste de São Paulo, e atirou contra o investigador
Itamar Amador, que fazia bico de segurança na loja. Os assaltos
o levaram à primeira internação na Febem, um
ano depois. Fugiu logo. Voltou em fevereiro de 1998. Escapuliu de
novo. Foi recapturado em outubro daquele ano, mas já em dezembro
estava nas ruas para matar um vizinho, Edmilson da Silva Sá,
provavelmente numa rixa. Seis meses depois matou Edilson, irmão
de Edmilson.
Batoré
atingiu o pico de sua carreira criminosa (ou infracional, como prefere
o Estatuto da Criança e do Adolescente) em 1999. Foram mais
sete mortes e ele especializou-se em assaltos e seqüestros
relâmpagos aquele tipo de crime em que se ataca uma
pessoa para obrigá-la a realizar saques em bancos eletrônicos.
Foi durante um assalto que ele se envolveu na morte do delegado
José Luís de Souza, em setembro do ano passado. O
policial dirigia uma vistosa picape Toyota Hilux e foi abordado
por Batoré e quatro cúmplices que estavam numa Brasília
branca. Foi levado para uma estrada deserta que fica no limite entre
os municípios de São Paulo e Guarulhos. Os jovens
tiraram-lhe o relógio da marca Bulova, os 150 reais que carregava
e o mandaram seguir a pé pela estrada. Foi morto com sete
tiros. Depois os jovens colocaram fogo na picape. Naquele mês,
a quadrilha matou mais duas pessoas e Batoré foi preso pela
quarta vez. Fugiu e voltou à Febem em outras duas ocasiões,
a última delas no dia 21 de novembro deste ano.
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Em
apenas um mês, a quadrilha matou três pessoas
Integrantes
da quadrilha de Batoré presos depois do assassinato do delegado
Souza: relógio e 150 reais roubados, e execução com sete tiros
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As
sucessivas entradas e fugas de Batoré da entidade são
um exemplo da falência das formas adotadas para conter e reeducar
jovens que praticam crimes. Sua incursão pela marginalidade
começou nos bairros onde morou, na periferia da Zona Leste.
Mas foi inegavelmente turbinada cada vez que passava pela Febem.
Foi lá que conheceu um dos membros de sua quadrilha. Pode-se
especular sobre quais motivos levaram Batoré a partir para
o crime. Psicólogos argumentam que uma das agravantes que
podem levar um garoto a enveredar pela marginalidade é a
ausência da figura paterna. O pai de Batoré morreu
quando ele tinha apenas 2 anos e o jovem gosta de contar entre amigos
que durante o enterro chorou e tentou atirar-se na cova aberta.
O pai era assaltante e foi morto pela polícia. O menino abandonou
a escola ainda no 1º grau. Viveu com a mãe, Luzia, a
irmã e dois irmãos em uma favela e, depois, num conjunto
habitacional. Após sucessivas internações e
fugas da Febem, deixou de morar com a família. Antes da última
prisão vivia com uma namorada em uma casa de quatro cômodos
alugada, por 280 reais, próxima de um grande shopping center
da Zona Leste. Preocupada com seu futuro, Tânia, a irmã
mais velha, tentou demovê-lo da vida criminosa oferecendo
uma ajuda mensal de 200 reais. A namorada aceitou arcar com outros
200 reais. Ele recusou a ajuda. "Não quis nem me ouvir",
contou Tânia, antes de fechar o apartamento a chave e deixar
o bairro com toda a família, na semana passada.
Com reportagem de Gabriela Carelli e Juliana Saboia
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