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Recall de motorista

Nem as estradas, nem os carros.
Estudo mostra que os condutores
são responsáveis por 90% dos acidentes

João Luiz Guimarães


O centro de testes da Volvo: pistas móveis e bonecos com sensores para simular os efeitos de uma colisão

O defeito numa série de pneus Firestone que provocou vários acidentes fatais e a onda de recalls das montadoras deixaram no ar a sensação de que a segurança foi chutada para o acostamento pelos fabricantes. A impressão é falsa. Nunca a indústria automobilística gastou tanto em pesquisas de materiais para garantir a vida dos passageiros. Os resultados desses investimentos têm sido significativos. Uma pesquisa divulgada recentemente pela entidade americana Insurance Institute for Highway Safety informa que os defeitos mecânicos produzem apenas 4% das colisões ocorridas no mundo todo. O grande problema encontra-se na peça localizada entre o assento e o volante. Nada menos do que 90% dos acidentes ocorrem por imprudência ou barbeiragem dos motoristas. As estradas e avenidas em condições precárias aparecem em segundo lugar nesse ranking, com 6% de participação nas colisões. Os especialistas brasileiros garantem que os números nacionais são mais ou menos semelhantes. Ou seja, se as estradas ficassem perfeitas e os carros não tivessem defeito algum, seria possível evitar apenas uma em cada dez batidas.

Graças a uma série de itens incorporados às linhas de produção nos últimos anos, caso dos airbags e dos freios ABS, os veículos tornaram-se muito mais confiáveis. O risco de morrer numa batida frontal atualmente é de 30%. No início da década de 60 era de 70%. Da Fórmula 1, a indústria copiou conceitos de segurança como o da "célula de sobrevivência", como é chamado o reforço que o cockpit recebe para proteger os pilotos em caso de batidas. Por causa disso, a carroceria da maior parte dos carros de passeio hoje é construída com materiais deformáveis, que produzem o "efeito sanfona". Quando ocorre um acidente, as chapas encolhem, absorvendo grande parte da força produzida pela colisão.

Para testar essas novidades, as montadoras esborracham dezenas de veículos nos centros de crash-tests. A sueca Volvo inaugurou neste ano um laboratório dos mais modernos, dotado de pistas móveis e bonecos equipados com sensores capazes de processar mais de 30.000 dados a cada batida. No Brasil, a Volkswagen e a GM possuem centros especializados nesse tipo de teste. As melhorias de segurança também demoram algum tempo para chegar ao país. Enquanto 20% dos carros vendidos nos Estados Unidos já saem de fábrica equipados com airbag, o índice registrado em veículos nacionais não passa de 3%.

No mercado americano, a indústria descobriu que os consumidores estão dispostos a pagar por segurança. O item aparece em terceiro lugar na lista de critérios utilizados para a escolha de um veículo, atrás de preço e da confiabilidade mecânica. Para esse tipo de cliente as fábricas produzem propagandas como o mais recente comercial do Mercedes M-Class. A peça mostra o interior do carro ocupado por bonecos e uma pista que leva o veículo contra um muro de concreto. No final, o veículo se espatifa, mas os "passageiros" escapam. A música que toca ao fundo deixa a mensagem. É um velho hit dos Bee Gees, Staying Alive (mantendo-se vivo, em português).

 

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