Fábrica
de misses
O
bisturi vira arma para vencer concursos
e há médicos que nem
cobram pelas operações
Diogo
Schelp
Elaine Neves
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| Karen
não teve de pagar o serviço: era só ir aos jornais e à TV e
falar do cirurgião |
Ainda vai chegar o dia em que os organizadores de concursos de beleza
entregarão duas faixas: a de mulher mais perfeita e a de
melhor cirurgião plástico. Pelos métodos que
vêm sendo usados na preparação de algumas candidatas
a miss, ninguém vai espantar-se. No Rio Grande do Sul, o
Estado que forneceu a vencedora de sete dos 53 concursos de miss
Brasil já realizados, a candidata Juliana Borges, de 22 anos,
olhos esverdeados, 1,80 metro de altura e 1,20 de comprimento de
pernas, acha que tudo isso é pouco para alcançar o
título na próxima edição, que se realizará
em 18 de março de 2001. Ela está fazendo um recondicionamento
cirúrgico em vários pontos do corpo. Nas contas de
seu cirurgião plástico, Almir Moojen Nácul,
de Porto Alegre, são dezesseis intervenções,
considerando separadamente, por exemplo, cada um dos lados da cintura.
"Nunca uma candidata topou mudar tanta coisa", diz, orgulhoso, o
empresário de Juliana, Evandro Hazzy.
Quando
foi eleita miss Rio Grande do Sul, em outubro deste ano, Juliana
pensava apenas em aumentar os seios e engrossar os lábios.
Na primeira consulta com Nácul, o empresário e o médico
fizeram uma lista um pouco maior de itens. Explicaram para ela que
seu rosto era muito comprido, enquanto o padrão estético
das misses é de feições arredondadas. "Pode
parecer que não há nada para ser melhorado", diz Nácul.
"Mas sempre é possível deixar o conjunto mais harmônico."
Nos dias seguintes, Hazzy voltou a defender as cirurgias. Deixou
claro que ela não precisaria pagar nada além do silicone.
Feito em pacote, um conjunto de operações como o dela
custa por volta de 15.000 reais. "Tenho
um acordo com o doutor Nácul", explica o empresário.
"Ele opera as misses sem nenhum custo." Hazzy quer criar no Rio
Grande do Sul uma fábrica de misses nos moldes da que existe
na Venezuela, o país campeão em número de misses
Universo, o máximo a que uma mulher pode chegar em provas
de beleza.
A
razão de Nácul para trabalhar de graça passa
a ser compreensível quando explicada por outra modelo gaúcha.
Segundo Karen Köhler, de 20 anos, que também recebe
de Hazzy a orientação sobre sua carreira, o médico
ganha em publicidade na imprensa em vez de faturar cobrando diretamente
pelas "melhorias" cirúrgicas. Karen, que foi Garota Verão
1998, está fazendo com ele oito modificações,
uma delas para ganhar 4 centímetros de busto. Em vez de pagar
em dinheiro pelo serviço, ela aparece nos jornais e na televisão
falando de Nácul. O médico nega que haja esse tipo
de acordo. "A única coisa que não cobro são
os meus honorários", ele afirma. Segundo Nácul, o
pagamento dos assistentes e o material são cobrados. Entidades
médicas condenam negócios entre profissionais e pacientes
para o pagamento de honorários.
As
maiores rivais das gaúchas no concurso de miss Brasil são
as mineiras. Mas lá também há muitas candidatas
que turbinam seus dotes naturais. O cirurgião plástico
Célio José de Oliveira, da cidade de Contagem, há
seis anos prepara as garotas para concursos. "Comecei com Renata
Bessa, que era candidata a miss Minas Gerais", conta Oliveira. "Quando
ela ganhou, em 1995, ganhamos junto com ela, porque ficamos conhecidos
entre as candidatas", diz. Hoje, ele participa do concurso também
como juiz. Segundo o cirurgião, as garotas normalmente pagam
por seus serviços. "Mas, em alguns casos, as vencedoras podem
ser premiadas com um tratamento estético ou uma cirurgia",
conta. O código de ética médica veda explicitamente
que um profissional ceda seus serviços como prêmio
em algum concurso. Procurado para tratar dos aspectos éticos
do comportamento dos colegas, o presidente da Sociedade Brasileira
de Cirurgia Plástica, Luiz Carlos Celi Garcia, diz que só
se manifestaria se houvesse uma denúncia formal em algum
Conselho Regional de Medicina.
Na
semana passada, a gaúcha Juliana Borges estava em sua cidade
natal, Santa Maria, recuperando-se da primeira fase das plásticas,
envolvendo orelhas, lipos e prótese nos seios. Tinha uma
faixa na cabeça e um colete por baixo da roupa, como curativos
das intervenções. A bateria seguinte está marcada
para esta semana. A experiente miss Brasil de 1986, Deise Nunes,
acha que as colegas mais jovens estão tomando decisões
prematuras. "Deviam esperar um pouco mais e analisar as vantagens
de fazer tantas cirurgias", ela avalia. "Uma coisa é a Venezuela,
onde ser miss é uma carreira. Outra é o Brasil, onde
uma miss é facilmente esquecida no ano seguinte."
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