Os
falsos gordos
Muitos adolescentes aderem às dietas
mesmo sem ter problemas de peso
Fábio Oliveira e Angela Nunes
Ronaldo Kohn
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Roberto Valverde
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| Bruno
de Luca quando fazia o tipo gordinho na Globo e agora, depois
do regime: em boa hora |
Quando
vêem a própria imagem refletida, os adolescentes se
sentem cada vez mais diante daquele brinquedo do espelho mágico,
que lhes acentua as bochechas, infla o aro da barriga e expande
a curvatura dos braços e coxas, aproximando-os da figura
de um pequeno barril. É o que se pode concluir com base nos
dados de uma pesquisa conduzida pela psicanalista Mara Cristina
de Lucia, diretora de psicologia do Hospital das Clínicas
da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo. De
cada dez adolescentes, pelo menos quatro acham que têm excesso
de peso e precisam fazer regime, mesmo que a balança registre
adequação aos padrões de saúde, revela
a pesquisadora.
Foram entrevistados 588 estudantes de São Paulo, entre 11
e 18 anos, nas diversas faixas de renda, até abril deste
ano. Em porcentagens expressivas ainda em fase final de tabulação,
esses adolescentes contaram que já fizeram algum tipo de
dieta, praticaram exercícios com o objetivo de emagrecer
ou se submeteram a tratamento estético. Houve até
casos de entrevistados que tomaram remédios sem conhecimento
dos pais, experimentaram laxantes e diuréticos ou induziram
o vômito, práticas condenadas pelos médicos.
Da amostra de estudantes, 10,7% já fizeram de dois a quatro
regimes, 13,6% de cinco a oito e nada menos que 47,4% passaram dessa
casa e perderam a conta. "É um cenário preocupante
porque eles mergulham em dietas radicais, não conseguem manter
o ritmo e depois recuperam todo o peso de volta", avalia Mara Cristina.
Esses números confirmam para o Brasil uma tendência
já cristalizada nos Estados Unidos, conforme estudo apresentado
no começo do mês pela epidemiologista Alison Field,
da Faculdade de Medicina de Harvard. Ela participou do encontro
anual da Associação Americana para o Estudo da Obesidade,
na Califórnia, e apresentou um relato sobre um questionário
aplicado a pré-adolescentes e adolescentes (de 9 a 14 anos
de idade, 5.865 do sexo feminino e 4.322 do masculino, entre 1996
e 1997). Ficou comprovado que as garotas têm uma propensão
muito mais acentuada do que os garotos a se considerarem acima do
peso, embora a realidade mostre o inverso, isto é, quem aparece
realmente com quilinhos a mais é o sexo masculino (veja
alguns resultados).
Há uma espécie de novo rito de passagem para as adolescentes,
admitiu Alison Field a VEJA, na semana passada. Antes era a menstruação,
hoje inclui fazer dieta. "O círculo de amizades e a mídia
difundem o modismo de mulheres cada vez mais magras, e as adolescentes
querem seguir esses padrões desde cedo." No sexo masculino,
a inclinação pelo regime era menos evidente, mas o
comportamento está mudando. Segundo a médica, a imagem
negativa associada às pessoas gordas já se sedimentou
inclusive na pré-escola. Outro resultado importante do levantamento
de Harvard indica que as garotas que faziam regimes freqüentes
tinham aproximadamente cinco vezes mais probabilidades de ficar
com sobrepeso do que as que nunca aderiam a dietas. Poucas pessoas
conseguem embarcar em redução da ingestão de
alimentos por um longo período, e os dados de Alison Field
apontam que a turma que sempre fecha a boca com mais determinação
é também a mais propensa a episódios de comilança
desenfreada em seguida.
O ator global Bruno de Luca conseguiu escapar dessa sina e pode
servir de exemplo para as atuais e futuras gerações.
Conhecido pelos tipos gordinhos que fazia na televisão, como
o Fabinho da série Malhação ou o repórter
mirim do Domingão do Faustão, ele penou durante
a adolescência com o excesso de peso, mesmo fazendo sucesso
graças à obesidade. "Quando eu saía à
noite, tinha vergonha de chegar nas meninas, pois me achava feio.
Na praia não tinha coragem nem de tirar a camiseta", Bruno
lembra. Aos 15 anos, 1,62 metro e 78 quilos, estava bem acima do
que a medicina recomenda. Decidiu então pôr um basta
na situação, orientou-se com uma nutricionista e conseguiu
perder 16 quilos em menos de quatro meses. Hoje, aos 18 anos, depois
de espichar, está enquadrado na faixa da normalidade, com
1,82 metro de altura e 72 quilos.
Perseguir um novo padrão de beleza, baseado nas linhas da
magreza, ou se armar melhor para batalhar uma namorada são
motivações legítimas para a adolescência.
Mas a sucessão de regimes atabalhoados pode, na verdade,
acarretar frustração psicológica e até
distúrbios graves na saúde. "O adolescente sofre mais
com dietas malconduzidas porque ele é particularmente impaciente,
quer emagrecer rápido, até mesmo para uma festa dali
a quinze dias", define o endocrinologista Marcelo Bronstein, do
Hospital das Clínicas de São Paulo. Se em casos como
o de Bruno de Luca é muito fácil identificar a obesidade
real, o que podem os pais fazer para descobrir a presença
de um falso gordo dentro de casa? A psicanalista Mara Cristina de
Lucia aponta vários sinais. O adolescente começa a
evitar alimentos que engordam e só quer produtos diet. Ou
ainda: fica o tempo todo checando se engordou, pergunta para todos
se acham que seu perfil saiu dos trilhos e vira um malhador de primeira,
praticando esportes e fazendo exercícios a qualquer hora.
"Um desses fatores isolados não é motivo para preocupação,
mas, quando eles surgem juntos, o adolescente está obcecado",
explica Mara Cristina de Lucia. Quem não necessita não
deve aderir ao regime. "Precisamos afastar a mentalidade da dieta,
de consumir menos calorias, e tornar os adolescentes mais fisicamente
ativos, encorajando-os a encontrar atividades inclusive mais divertidas",
aconselha a médica americana Alison Field.
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