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O melhor da safra

Vinhos brasileiros ganham qualidade e
serão acompanhados em avaliação anual

José Edward

 
Fotos Nelio Rodrigues
O grupo de treze jurados reunido em Belo Horizonte para o teste: três dias de trabalho


Já faz algum tempo que os admiradores de vinho mais atentos descobriram que, pelo menos para o dia-a-dia, alguns produtores começavam a oferecer garrafas com qualidade bem acima da quase indigência geral das vinícolas nacionais. Tecnologia, experiência e sobretudo a pressão do mercado aberto à concorrência de bons vinhos importados a preços não mais exorbitantes foram pondo umas poucas adegas nos trilhos do controle de seus vinhedos e do apuro no sistema de produção. Agora o país inicia o segundo passo no rumo da credibilidade, com o lançamento de um guia anual classificando os rótulos mais dignos obtidos em território nacional. Esse catálogo será publicado em janeiro e, para fazer a classificação das bebidas, treze dos maiores especialistas em vinho do país reuniram-se há alguns dias em Belo Horizonte para degustar o conteúdo de 290 garrafas de quase todas as marcas nacionais. Além da avaliação das características de cada exemplar, foi elaborado um ranking com os mais bem classificados em várias categorias. Essa é a lista que emoldura estas duas páginas. "É a maior e mais completa radiografia da qualidade da produção vinícola do Brasil", brinda o enófilo Júlio Anselmo de Sousa Neto, diretor técnico da Academia do Vinho de Minas Gerais, a entidade que tomou a frente na edição do anuário.

Durante três dias, os especialistas avaliaram as amostras às cegas. Todas as garrafas eram apresentadas embaladas num saco de pano preto, que escondia até suas formas. Depois de fazer análises visual, olfativa e gustativa, o grupo atribuiu pontos a cada vinho numa escala de zero a 100. Os resultados foram submetidos a combinações matemáticas e convertidos em conceitos que variam de excelente (cinco estrelas) até aceitável (uma estrela) – tudo conforme as normas mais exigentes. Na apuração, a primeira constatação é de que ainda não se obtém no Brasil nem mesmo um vinho que mereça a classificação de quatro estrelas (muito bom) – acessível entre os importados na faixa de preço acima dos 40 dólares. Mas logo abaixo, com a cotação bom, foram classificados dezessete exemplares, o que já é um começo. Outros 56 ficaram na linha do razoável (duas estrelas) e 106 na do aceitável. Cerca de 40% dos rótulos analisados receberam menos de 50 pontos e foram desclassificados. Não merecem ser recomendados a ninguém. Como se esperava, todos os vinhos dignos do nome vêm da Serra Gaúcha, a maioria do município de Bento Gonçalves.

O catálogo é uma boa providência para orientar uma população que ainda aprende a degustar vinhos, tanto quanto os produtores engatinham na arte de sofisticá-los. Nos últimos três anos, o consumo nacional cresceu 35%, alcançando 2 litros per capita, irrisórios para os apreciadores de Luxemburgo, que bebem 70 litros, e até diante dos argentinos, cuja marca é de 40 litros. Nem é saudável que o consumo cresça rápido demais, porque as vinícolas de baixa qualidade é que se beneficiam nessas ocasiões. As mais sérias não têm como aumentar a produção sem sacrificar a bebida. "Nossos melhores vinhos hoje já se comparam aos vinhos médios da França", garante o degustador Aguinaldo Záckia Albert, presidente da Sociedade Brasileira dos Amigos do Vinho, de São Paulo. Faltam tradição, clima e solo adequado para que o Brasil decole definitivamente nesse ramo, mas a experiência de outros pólos de produção fora da Europa, como a Austrália e o Estado americano da Califórnia, indica que ainda há alguns degraus que se pode subir.

Mauro Côrte Real, autor de vários livros sobre vinhos e um dos jurados, aponta um problema que também atrapalha a melhoria do paladar do brasileiro: na maior parte dos restaurantes, as cartas de vinhos têm informação insuficiente e os maîtres são mais inúteis do que elas para orientar o cliente. Não é por acaso que a maioria dos mortais toma vinho sem a menor idéia de como apreciá-lo. A exemplo dos catálogos enológicos de outros países, o Guia Anual do Vinho Brasileiro terá formato de livro de bolso e conterá informações sobre o processo de produção, os tipos de uva, vinícolas e seus vinhos. Também haverá uma seção ensinando como armazenar, degustar, servir e combinar vinhos com os pratos à mesa. O básico desse almanaque é bastante simples. Bem diferente, aliás, da complexa degustação que se faz para classificar a bebida. Em silêncio e concentrados, os especialistas olham, cheiram e provam pequenas amostras de cada vinho, alternando-as com água e pão, para eliminar vestígios de sabor e aroma anteriores. Mas, precavidamente, nunca engolem nem uma gota, o que garante a sobriedade da avaliação.

Com reportagem de Sóvero Filho

 
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