|

Com
clientes que parcelam e os que gastam 30 000 reais à vista,
as grifes vendem aqui como na Europa

Flávia
Varella
Antonio Milena

As
vendas da Christian Dior superaram as expectativas em 30%, equiparando
a loja de São Paulo às de Paris: explosão
é um fenômeno recente |
Veja
também |
|
|
|
"Este
vende como água." O produto a que se refere Claudine Nectoux,
diretora da butique Cartier em São Paulo, é um anel
que custa 13 600 reais. Batizado de Perruque, ele é composto
de pequenas esferas de ouro, num total de 40 gramas do metal. "Este
chega e acaba." Martina Bugs, gerente da Louis Vuitton, fala de
um porta-jóias de 7.600 reais.
"Sumiu antes de chegar às prateleiras", comenta Helio Bork,
diretor no Brasil da marca dinamarquesa de produtos eletrônicos
Bang & Olufsen, sobre uma televisão de 12.800
dólares, ou significantes 25 600 reais. O aparelho teve lançamento
mundial na última sexta-feira de novembro. Na segunda-feira
seguinte, os cinco exemplares prometidos para chegar ao Brasil em
fevereiro já haviam sido vendidos com pagamento adiantado.
Produtos
que custam milhares de reais e vendem como pãozinho quente
são o combustível que aquece o mercado brasileiro
de alto luxo. Não vem de hoje a paixão dos abonados
locais pelas marcas mais chamativas do panteão internacional
das grandes grifes, mas a explosão de vendas é um
fenômeno recente. Uma espécie de frenesi coletivo faz
com que uma única loja da marca francesa Louis Vuitton venda
2.000 bolsas por mês. A mais barata
custa 650 reais. A mais cara, 20.600.
Mas não se animem: o modelo, de couro de crocodilo, já
acabou. A famosa logomarca LV reluz com ímpeto renovado nos
braços das brasileiras bem de vida e os números de
desempenho da grife no país cintilam nos relatórios
enviados à França. Enquanto as vendas da Louis Vuitton
no mundo crescem a uma média de 40% ao ano, aqui o aumento
bateu em impressionantes 140%. Para a fabricante de cristais Baccarat,
São Paulo é como Paris e Tóquio. Só
essas três cidades se dão ao luxo, literalmente, de
abrigar duas lojas da marca. Desde a inauguração da
primeira butique, há dois anos e meio, as vendas cresceram
30%.
Antonio Milena

Esta
loja da Louis Vuitton recebe cinqüenta clientes por dia
e vende cerca de 2 000 bolsas por mês: de 650 a 20 000
reais |
No
ano passado, a Christian Dior, do conglomerado francês LVMH,
campeão mundial da indústria do luxo, apostou no mercado
nacional abrindo a primeira loja própria. As vendas superaram
as expectativas em 30%. É oferecer e vender. Dez dias depois
da inauguração, a nova loja da Emporio Armani em São
Paulo estava sem estoque: 80% das roupas e acessórios que
deveriam durar os quatro meses da coleção outono-inverno
(o calendário é europeu) acabaram em menos de duas
semanas. Um casaco de couro revestido de pele artificial desenhado
por Giorgio Armani para o figurino do filme Shaft, a peça
mais cara do setor masculino (4 700 reais), foi vendido ao ritmo
de um por dia, em plena primavera tropical. "Tive de cancelar o
navio e mandar vir de avião o pedido previsto para chegar
em fevereiro, sob o risco de não ter o que vender", conta
a gerente-geral Patricia Gaia. Antes da abertura, em novembro, da
loja de 1 300 metros quadrados, três andares, piso e escadaria
de mármore, a marca já contabilizava 11 milhões
de dólares de faturamento, 46% mais que no ano passado.
As
duas lojas brasileiras Emporio Armani vendem mais que as duas de
Nova York. As vendas da butique da Christian Dior em São
Paulo equiparam-se às da grife em Paris, com exceção
apenas daquela da Avenue Montaigne, que, com seus 2.000
metros quadrados, é freqüentada por turistas do mundo
inteiro um fenômeno que, por sinal, já começa
a acontecer aqui em âmbito regional, com compradores vindos
da Argentina, Chile, Uruguai e Venezuela. O Brasil é o quinto
maior mercado das canetas Montblanc, que custam entre 400 e 280.000
reais, e o nono dos carros Ferrari. A Jaguar vende em média
dezoito veículos por mês, do mais barato S-Type (175.000
reais) ao XK8 conversível (254.000).
Nos Estados Unidos, onde as vendas das grifes chiquérrimas
e caríssimas também explodiram nos últimos
anos, o economista Robert Frank, da Universidade Cornell, batizou
o fenômeno de "febre do luxo". Lá, as proporções
são imperiais comparadas ao que se passa no Brasil, mas algumas
explicações para o fenômeno têm caráter
universal: desejo de auto-afirmação, rápida
ascensão de novos estratos sociais, cultura materialista,
hedonismo generalizado e mais todas as culpas habitualmente pespegadas
nos consumistas desenfreados.
Três
de cada Pois os há, e alegremente dispostos a
pagar o que for cobrado para ter sempre a versão mais cara
de tudo, da meia à fivela de cabelo. Carlos Ferreirinha,
diretor-geral da Louis Vuitton Brasil, aventa uma explicação:
"O ser humano precisa de ícones para se espelhar. Hoje esses
ícones não são mais os reis e rainhas que não
se podiam imitar. A classe artística ocupou esse lugar. As
estrelas são as embaixadoras das grifes". Ele cita um exemplo:
três anos atrás a modelo Naomi Campbell subiu as escadas
de um avião com uma bolsa petit bucket, que parece
um baldinho. O modelo, criado mais de meio século antes,
estava fora de linha havia trinta anos. A Louis Vuitton teve de
reativar a produção e a bolsa ficou quatro meses com
listas de espera nas 310 lojas do mundo.
O
fetiche da marca pode atingir um nível de poder hipnótico.
Para o uniforme novo das vendedoras da grife Louis Vuitton, os estilistas
da casa criaram um singelo elástico de cabelo composto de
dois cubos de acrílico com o famoso LV em relevo. As funcionárias
brasileiras não puderam usá-lo. "As clientes tentavam
suborná-las para ter a maria-chiquinha. Ofereciam qualquer
preço", conta a gerente Martina Bugs. Produzidas em série,
a pedido, as maria-chiquinhas foram comercializadas a 63 reais.
Uma das lojas paulistas vendeu as 300 que chegaram em dois dias.
O
francês Patrick de Gouttes, diretor da tradicional fábrica
de produtos finos de mesa Christofle, é objetivo em sua explicação
sobre o sucesso local das marcas de luxo: "O brasileiro é
consumista e adora grifes". Ele exemplifica com as listas de casamento,
bem mais modestas na Europa do que aqui. "Lá, os faqueiros
mais vendidos são os de setenta ou oitenta peças.
Aqui é de 130 peças ou nada. As noivas européias
colocam na lista uma travessa de prata redonda e uma oval. As brasileiras
pedem os três tamanhos das ovais, os três das redondas
e mais a sopeira e a legumeira", compara.
Pré-datado
Num país em que 0,5% da população
é considerada rica, quem mantém e acelera o mercado
do alto luxo? "Nossa propaganda visa 4 milhões de brasileiros.
Temos muitos clientes que não são milionários",
afirma Freddy Rabbat, diretor executivo da Montblanc no Brasil,
que estima existirem 300.000 usuários
de suas canetas no país. Carlos Ferreirinha, da Louis Vuitton,
diz que há alguns anos 90% de sua clientela era formada pela
classe AA. "Hoje, ela representa 60% do público", calcula.
Executivas e profissionais liberais que ganham bem mas não
são milionárias dão-se ao luxo de ter uma bolsa
de 1.000 reais. Em geral, aproveitam-se
de uma brasileiríssima facilidade: a compra parcelada sem
juros. No popular, o pré-datado. "Entre 60% e 65% das nossas
vendas são parceladas", informa André Brett, dono
das lojas Emporio Armani. Nos outros 35% incluem-se clientes como
os que obrigaram a nova loja da grife a funcionar duas horas além
do horário de fechamento num recente começo de semana.
No andar de cima, fazia compras uma senhora que chegou de Jaguar.
No térreo, um rapaz de gosto exótico. Ela gastou 28.000
reais; ele, 32.000. Nenhum dos dois parcelou.
Artigos
de luxo fazem sucesso por um motivo simples: são melhores
que os similares menos sofisticados. Uma gravata de seda, por exemplo,
pode custar 40 ou 400 reais. A de 400 inevitavelmente é melhor,
mais bonita e mais bem-feita. Acrescentem-se o valor agregado das
grifes, com sua aura mágica; as sofisticadas estratégias
de marketing; o desejo secreto de se distinguir numa sociedade massificada
e pronto. Há produtos que parecem ser criados para
confundir a parte do cérebro que faz os cálculos de
custo-benefício. Quem pode definir o preço de um vestido
que faz a mulher sentir-se uma Sharon Stone?
O
creme mais caro da suíça La Prairie custa 863 reais,
um potinho de 50 mililitros, um quarto de um copo de água.
O motivo do preço estratosférico? Ele é feito
com extrato de caviar e traz embutida uma promessa prodigiosa: fazer
na pele do rosto um minilifting, uma pequena operação
plástica sem bisturi, com duração de oito horas.
Para quem pode, um luxo irresistível tanto que a La
Prairie vende trinta desses potinhos por mês em São
Paulo. É por causa dessa paixão pelo caro e luxuoso
que Hermès, Tiffany, Giorgio Armani (a grife principal) e
Ermenegildo Zegna abrirão lojas no país no ano que
vem.
|